Um gato e uma menina que me ensinaram sobre aceitação, desapego e veracidade.
Eles chegaram, os 4 irmãos, e logo viraram a novidade da
casa.

Aquele loirinho de olhos amarelos nos conquistou! Lara o
amassava, beijava, apertava, dizia que amava. Chegava da escola e já ia
perguntando “cadê o gatinho”. Quando o via sorria e dava pulos de alegria. Eu
até tive que incentivar ela a dar um carinho extra pro cachorro, pra ele não
ficar de escanteio. O gato era tudo! Com certeza seria um
companheiro para nós!
Nosso coração, meu e do meu marido, pesou de tristeza, o gato teria que ir
embora. “Mas e a Lara?”. Tínhamos
medo da decisão, de contar pra ela, de magoá-la. Que arrependimento ter ficado com o gato! Os outros 3 foram
com facilidade, mas agora ela se apegou ao “dela”. Como lidar com isso? Como
evitar que minha filha sofra? -- Quando
somos pais, queremos proteger nossos filhos do sofrimento. Sentimo-nos culpados
por agora fazer ela passar por essa perda do gatinho.
Mas tudo na vida é aprendizado, e eu decidi encarar mais esse. Quando tempos atrás
escolhi fazer um desmame noturno, o fiz pensando que eu precisava dizer SIM
para mim, e que isso implicaria em alguns NÃOS a minha filha. E ao fazer isso
eu também estaria ensinando ela que ela também tinha o direito de dizer não ao
que ela sentia que passava do limite dela.
Com o gato me senti na mesma situação. Eu não podia viver doente por causa
dele, então mesmo que fosse dolorido para ela, eu precisava tomar essa decisão,
e tentar transformar isso num aprendizado.
Muitas vezes nos deparamos com situações que remontam à nossa infância. Quando
eu tinha 5 anos nós cuidamos de uma gatinha perdida durante 1 mês, eu me
apeguei muito a ela, e um dia, voltando da casa da minha avó, cheguei em casa e
ela não estava mais. Meus pais haviam doado ela, e por anos aquela memória me
machucou. Então eu sabia que a primeira coisa que eu precisava fazer era
permitir que a Lara participasse da despedida do gato.
Preparei o terreno por uma semana. Expliquei para ela o que era alergia, e que
com a mamãe doente a mamãe não conseguia brincar com ela, que a mamãe ficava
fraca, que não era legal ficar doente. Expliquei que era o gato que me deixava
doente, mas que ele NÃO tinha culpa disso, que era um gato bonzinho e amado.
Então um dia tomei coragem e expliquei que o gato teria que
ir embora, que ele ia morar em outra casa, e outras pessoas muito legais iam
cuidar dele. Contei que na outra casa haveria um menino da idade dela que ia
brincar com o gatinho, e eles seriam felizes juntos.

Nos dias que se seguiram eu a lembrava as vezes que logo o
gatinho iria embora, para um lugar onde cuidariam dele, igual aconteceu com os
irmãos dele. Ela ficava triste por um momento, e passava.
Algumas pessoas preferem inventar histórias sobre o que acontece, histórias que
amenizam a verdade, tentando proteger a criança. Mas eu acredito que as crianças
percebem, é melhor falar a verdade,
mesmo questões dolorosas, como a morte por exemplo. Crianças não precisam de
grandes explicações nessa idade, mas precisam da nossa veracidade e
acolhimento, e eu poderia dar isso a ela. Seria muito mais complicado elaborar
uma fantasia para o sumiço do gato, e eu sabia, por experiência própria, que
isso geraria um vazio não finalizado no coração dela.
Combinei com quem ia adota-lo que eu o levaria junto com
minha filha, pois ela queria ver onde ele ia morar e eu achava importante essa
despedida. Ela estava preocupada “o menino que vai ficar com ele não vai saber
que o nome dele é Arthur!” – “A gente vai lá contar pra ele Lara”. E assim
procedemos. Não fiz disso um grande evento, mas também não tratei como uma
eventualidade. A preparei para partirmos e entramos no carro. Eu, ela e o
Arthur, que se soltou da gaiolinha e acabou indo solto no carro.

Foi importante os dias de preparação, o choro, o luto
sentido. Houveram vários momentos de choramingo dela “eu vou sentir muita
saudade dele” L.
Ao entregarmos o gatinho para seu novo dono ela espontaneamente falou “Oi , Eu
sou a Lara, esse é o Arthur, ele é muito bonzinho”. Ficamos um pouco por lá e
ao sairmos do apartamento ela simplesmente soltou de longe um “Tchau Arthur” e
voltamos para casa. Todo aquele drama que eu temia não aconteceu.
Nesse dia eu reforcei em mim a convicção da importância de
nunca ludibriarmos as crianças com meias verdades ou histórias maquiadas para
amenizar um medo NOSSO de magoa-las. De forma infantil podemos transmitir a
verdade, e aprender com elas sobre essa capacidade incrível que elas têm de
compreensão e adaptação.
Aprendi que meu medo de partir o coração dela ao fazer uma
escolha por mim, era mais um medo meu do que um problema real. Nas escolhas
difíceis surgem grandes aprendizados. Teve choro, mas teve muito crescimento e
carinho, e assim nossas crianças crescem se sentindo respeitadas.
Antes eu me arrependia de termos acolhido o Arthur, hoje
vejo como um capítulo necessário no nosso aprendizado. Obrigada Arthur pelos 4
meses que passaste conosco! Você foi muito amado pela Lara!
Merece um vídeo sobre o tema! <3
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