segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Relato de um parto roubado no Santa Joana SP - a violência e desumanidade nossa de cada dia.

     A May me autorizou a postar o relato de parto dela aqui, e eu posto com a intenção de mostrar como a violência obstétrica muitas vezes é sutil, é um olhar rude, um comentário debochado, um tratamento desumano.
     Nem sempre o hospital com a melhor hotelaria (leia-se, o mais chique e novinho e bonitinho com quartos confortáveis) é o hospital mais acolhedor. Hospitais particulares (de plano de saúde), com taxas de 95% de cesáreas, simplesmente NÃO SABEM como tratar um mulher em trabalho de parto, não sabem e não ligam, ela é um incômodo ali fazendo barulho e ocupando leito e não gerando lucro.
       Falta carinho, falta respeito, falta entender como funciona fisiologicamente o trabalho de parto e quais são as reais necessidades daquela mulher. Não, as enfermeiras não entendem, os médicos não entendem, estão congelados pelo protocolo, pelo descaso. Ali você é só mais uma, você não é alguém. E pra piorar não seguem recomendações básicas (baseadas na ciência) de como atender uma parturiente e um recém nascido, separam mãe e bebê e submetem ambos a estresse desnecessário e estragam um dia que era para ser tão especial. Precisamos de mais humanidade, de mais empatia.
       Esse relato dói, dói por ser tão frequente, tão real. O descaso com as emoções alheias, a objetificação do corpo alheio.




Relato do meu parto no Santa Joana- SP 02/09/13

     Aqui vou escrever como meu sonho de parto normal foi destruído pela maternidade Santa Joana. Durante a gestação do Felipe, fui atrás de informação e descobri o grande mercado lucrativo das cesáreas... as desculpas dadas para que o GO faça e as desvantagens e riscos de uma cesárea eletiva. Eu e meu marido optamos pelo parto normal, queria que o Felipe viesse ao mundo da forma mais natural possível, com bastante amor, vindo direto para os meus braços e meu peito para se aconchegar e mamar. 

     Comecei a sentir as contrações e cólicas no domingo, dia 01/09 pelas 06h da manhã. Imaginei que estava chegando a hora mas segui meu dia normalmente. Fui almoçar na casa dos sogros, ao mercado, recebi minhas amigas no fim do dia mas, nesse momento, já estava com contrações mais doloridas e a cada 20 minutos. De noite assisti ao fantástico e resolvi tomar banho para relaxar... Por volta das 23h já estava com contrações a cada 8 min e bem doloridas. Foi então que depois de um tempo ainda, resolvi ir para a casa de parto do Sapopemba. Deixo claro que as minhas contrações estavam totalmente suportáveis e estava totalmente preparada para o meu parto normal. 

      Na casa de parto do Sapopemba, por um erro (um triste e terrível erro) da obstetriz, ela achou que havia mecônio e me negou a permanência e o consequentemente o parto lá... fui mandada embora. Neste momento minhas contrações já estavam a cada 5 minutos e acho que o medo do meu plano B dar errado fez com que ficasse mais doloridas. O plano B era ter o meu parto normal no Santa Joana com o meu marido ao meu lado a cada instante. Como tinha medo da minha GO não respeitar a minha vontade do parto normal, queria tentar conversar com o obstetra de plantão para ele fazer. 

      Chegando no Santa Joana, fui colocada numa cadeira de rodas e levada para uma sala, mandaram meu marido esperar do lado de fora. Já não gostei disso... como estava no meio de uma contração não consegui falar. Por estar com dor, gemi baixo tentando me concentrar, nisso uma enfermeira que estava no outro extremo da sala pergunta alto: “você está com dor??”, ignorei e ela perguntou de novo, respondi “não, estou com cócegas!”. Fiquei irritada, numa maternidade, a enfermeira não consegue perceber que estou com contrações? Porque não veio até mim e perguntou, tinha que berrar do outro lado? Quando acabou a contração, falei que não ia ficar ali sem o meu marido, a enfermeira disse que ele não podia ficar ali, o impressionante é que eu estava SOZINHA naquela sala, o porque ele não podia ficar? Disse que não ia ficar sem ele e se ele estava aguardando no corredor, que eu ia aguardar junto e sai andando. Nisso veio outra contração e fiquei de pé abraçada no meu marido. Não sei dizer quanto tempo passou, mas fui chamada para passar pelo médico. 
      Ele perguntou umas coisas e o meu marido respondeu por mim pois não conseguia falar. Me levaram para de trás de um biombo, tirei a roupa e colocaram o avental da maternidade em mim, fizeram exame de toque muito dolorido e viram que eu estava com três dedos de dilatação. O médico perguntou se eu já havia ligado para a minha obstetra, disse que não, que queria o parto normal mas que não precisava ser com ela. Ele perguntou o nome completo dela, informei e pouco depois escutei ele ao telefone falando com ela!! Achei absurdo porque ele não me perguntou se queria que ele ligasse... a minha obstetra não era coberta pelo convenio. O médico entregou uns papeis pro meu marido e esse foi o último momento que o vi.... Fui levada pela enfermeira para outra sala na cadeira de rodas e eu disse que queria esperar meu marido, que não queria me separar dele e ela disse que ele ia apenas fazer minha ficha e que já iria encontrar comigo. Nessa outra sala havia três enfermeiras. Minha contrações, acho que pelo nervosismo estavam mais fortes ainda. Uma enfermeira começou a me fazer umas perguntas, só que por eu estar com contrações não conseguia responder direito... aquilo foi torturante!!! Quando estava numa contração, as enfermeiras me olhavam com desdém, a impressão que tinha era que iam me perguntar “já acabou??”. 
     Parecia que era errado eu estar desse jeito, como se fosse absurdo eu ter ido para lá em trabalho de parto. Quando sai de lá, pedi de novo pelo meu marido, estava sozinha no meio de gente hostil que estavam pouco se importando com a minha dor, me disseram que logo ia ver ele. Fui levada para outra sala e me disseram para aguardar que a enfermeira já vinha. Me deixaram sem meu celular, não tinha como falar com meu marido, não sabia o que estava acontecendo. Na minha cabeça só se passava que eu queria ir para a sala de parto normal, tomar um banho, abraçar o Emerson, poder andar para acelerar o trabalho de parto.... ninguém me deixava em paz, não queria conversar com ninguém daquele hospital mais. E o mais importante, na casa da parto a obstetriz disse ter visto mecônio, ninguém no Santa Joana checou.... Depois de um tempo esperando a enfermeira entrou, de novo as mesmas perguntas... Perguntei sobre a sala de parto normal e ela disse que todas estavam ocupadas. Na hora eu gelei, “como assim?? Madrugada de domingo para segunda no Santa Joana, onde todo mundo faz cesárea e todas as salas de parto normal estão ocupadas?”.... Me levaram para uma outra sala que chama de pré parto, queria andar, me mexer para acelerar o trabalho de parto mas não me deixaram, me colocaram no cardiotoco e a única forma que havia para ficar era deitada, a PIOR posição que há quando se está com contração. Na hora que a enfermeira foi colocar o cardiotoco em mim, ela me virou como se eu não pudesse me mexer e nisso, eu estava no meio de uma contração, ela viu a tatuagem que tenho nas costas. 
     Sem pensar duas vezes ela chamou as outras enfermeiras para ver pois achou bonita... eu deixei? Eu fui consultada se podia? Me senti um objeto nesse momento. Eu fiquei pedindo pelo meu marido, acho que para me calarem elas disseram que ninguém sabia onde ele estava... Como assim não sabiam?? Tinha certeza que ele estava desesperado querendo saber de mim.... durante os últimos meses de gestação falava para ele não me deixar sozinha nenhum minuto durante o trabalho de parto.... no carro indo para a maternidade, eu falei “pelo amor de Deus, não me deixa sozinha”.... duvido que ele estivesse tranquilo. Acho que para elas fingirem que estavam tentando depois de eu muito insistir, elas me pediram o celular dele... eu falei e falei também o celular do meu pai pois meu marido estava com ele. Disseram que ninguém havia atendido.... Uma enfermeira veio fazer um exame de toque em mim.... muito, mas muito dolorido e disse que estava com 4 dedos de dilatação. A impressão que tive era que ela queria que eu desistisse... ela quis mostrar que ia demorar muito. Mas, ainda fiquei ali, aguentando. Nessa sala que eu estava, eu estava sozinha, não havia mais nenhuma mulher em trabalho de parto junto comigo. Depois de um tempo, pelas fortes dores eu comecei a sentir enjoo, acabei vomitando na maca e no chão. Me senti tão mau, as enfermeiras olharam com cara de nojo, fiquei com os olhos cheio de lagrimas por aquela situação em que eu estava... por mais que tivesse vários lugares ali, ela me deixaram onde eu estava, colocaram um pano debaixo de mim, onde havia escorrido o vomito, mas não me mudaram de lugar e ninguém foi limpar, fiquei ali, em cima do meu próprio vomito com aquele cheiro de azedo não sei por quanto tempo. Após um tempo veio uma enfermeira querendo me colocar no soro, disse que não queria, que não precisava e ela foi puxando meu braço, respondi que não queria ocitocina e ela disse que era apenas um soro e foi me injetando. Ela colocou no pulso mas a veia estourou, doeu demais.... ai ela mudou e colocou na dobra do braço. 
     Não tinha mais condições de falar, lutar por algum direito naquele lugar, queria meu marido, precisava de um abraço, não aguentava mais as dores naquele inferno, desisti... pedi pela cesárea. Não sei dizer quanto tempo passou, mas me levaram para centro cirúrgico, uma contração atrás da outra... Ao sair escuto uma enfermeira falando “elas querem o parto normal mas nunca aguentam” e uma risada... Quando entrei lá vi a minha obstetra. Ainda hoje me pergunto o porque ela não foi falar comigo enquanto estava no pré parto?? Ela me convenceu a ter meu filho no Santa Joana, falou super bem de lá, da sala de parto normal, que ia ter a bola para relaxar, poderia tomar banho, teria a banheira e se eu quisesse poderia ter meu filho nela... Não vi nada disso, ainda acho que é lenda pois não fui a única enganada, há outras mulheres. Ela poderia ter ido falar comigo, perguntado se tinha certeza da cesárea... Me deram uma injeção nas costas e as contrações acabaram... Nessa hora comecei a chorar, meu choro aumentou em muito quando colocaram o pano na minha frente e me amarraram, não queria ser amarrada! Meu sonho era ser dona do meu próprio parto, poder me mexer, comer, tomar água... nem água nesse tempo todo me serviram, nem depois que vomitei!! Boca seca, o gosto amargo nesse tempo todo. Quando vi meu marido eu desabei.... ele estava chorando também, já veio me pedindo desculpas, dizendo que não deixavam ele entrar. 
     A sensação de impotência era muito grande. A comprovação maior de que eu não mandava nada ali, foi quando a minha obstetra mandou abrir e olhei pro parto e vi minha família do outro lado de um vidro. Ninguém me perguntou se eu queria que vissem meu parto. Para mim era um momento íntimo entre eu e meu marido, e não um filme para ser assistido pelo outros... me verem aberta e tão fragilizada para mim foi humilhante. Eu sempre disse que ninguém ia ver meu parto, que não queria... Quando meu filho nasceu, tive que pedir para que fosse desamarrada... se não pedisse ninguém ia fazer. Vi meu filho através do colo do meu marido... foi triste, bem diferente de como sonhei... meu bebe foi levado embora e só pude ver ele direito e o segurar mais de 6 (seis) horas depois... tantos meses com meu filho na barriga, horas em trabalho de parto... para demorar tanto para ver meu filho por conveniência do Santa Joana!! Dizem que o bebe tem que ficar num berço aquecido. Ridículo!! Quer lugar mais aquecido e cheio de amor do que o colo do pai ou da mãe?? E depois de ser costurada, ao ser levada da sala, escutei minha médica falando “ainda bem que o trabalho de parto dela não evoluiu, tenho uma cesárea marcada para daqui a pouco”. Perguntei para a médica se havia mecônio e não, estava tudo perfeito....

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Estou Grávida, e agora?!! O 1º Trimestre

O que esperar do primeiro trimestre de gestação?
Que sintomas vão aparecer? Que tipo de cuidados e exames eu preciso fazer?
O que esperar das 12 primeiras semanas de gestação?
Haverão alterações físicas e emocionais?

Com este vídeo tento resumir um pouco algumas questões para facilitar para aquelas que acabaram de se descobrir grávidas. Claro que estou falando em termos gerais, nem todas as mulheres sentem as mesmas coisas.

O primeiro trimestre é marcado por muitas dúvidas e sentimentos ambivalentes (contraditórios-alegria/tristeza). Muitas mulheres sentem-se culpadas de terem esses sentimentos, pensando estarem prejudicando o bebê. Contudo é normal termos dúvidas e preocupação acerca das grandes mudanças que estão ocorrendo (e ocorrerão) em nossas vidas. Ao desconstruirmos essa "maternidade cor de rosa" onde somos pressionadas a virarmos "mães radiantes" assim que nos descobrimos grávidas, sentimos um grande alívio em podermos ser apenas nós mesmas, humanas, com todas nossas peculiaridades, vivendo nossa própria história, nos desconstruindo e reconstruindo ao longo desse processo de transformação que é a gravidez.

Então começamos a nos preocupar com o que temos que fazer, por onde começar. Serão pedidos alguns exames como a tipagem sanguínea, hemograma completo com glicemia de jejum, sorologia para algumas patologias como toxoplasmose, rubeola, HIV e sifilis, um ultrassom para a datação da gestação ou apenas o 1º morfológico (translucência nucal), que verifica dentre outras coisas a existência de síndrome de down: é um exame controverso pois ele não é 100% acurado e pode dar falsos positivos e falsos negativos, então pode ser um estresse a toa (e também o que você faria com aquela informação?)

Muitos sintomas físicos podem aparecer, além dos enjoos e seios doloridos você pode observar outras mudanças ocorrendo no seu corpo.

Espero que esse vídeo ajude a dar um "norte" para quem acabou de se descobrir grávida e está se sentindo um pouco perdida.


(Não achei que os latidos do cão do vizinho fossem ficar tão altos, e percebi tarde demais o vento, peço desculpas.)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Você Sabe Mesmo o que é Parto Humanizado?

Qual a diferença entre Parto Normal x Parto Natural x Parto Humanizado?
Você sabe quais são alguns dos critérios para dizermos se um parto foi humanizado?
Você acha que parto humanizado é só parto domiciliar? Ou que tem que ser parto na água e totalmente natural?

Não deixe de assistir o novo vídeo do meu canal no youtube!
Entre os tópicos discutidos
- intervenções desnecessárias
- medicina baseada em evidências
- violência obstétrica
- protagonismo e autonomia da mulher



Para mais informações leiam os textos da Obstetriz Ana Cristina Duarte
- O QUE É PARTO HUMANIZADO: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo3.html
- COMO ATENDER UM PARTO HUMANIZADO PASSO A PASSO: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo4.html
- VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo11.html

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O nascimento pelo ponto de vista do bebê

O nascimento pelo ponto de vista do bebê. 

 Por Ana Paula Caldas – Neonatologista.

 

 Após 9 meses, aproximadamente 280 dias, 40 semanas ou 9 luas o bebê finalmente está pronto para nascer. O feto, completamente formado desde as 12 semanas, levou todo este tempo para crescer e amadurecer dentro do útero. No final da gravidez ele dá sinais que está maduro e inicia-se o trabalho de parto. Sua circulação é inundada de hormônios que sinalizam o nascimento iminente. As contrações uterinas massageiam o seu corpinho e dão a noção do ritmo. Finalmente, a passagem pelo estreito canal de parto comprime o tórax do bebê, auxiliando na saída do líquido amniótico presente em seus pulmões, boca e narinas. O bebê nasce, e enquanto permanece ligado à placenta pelo cordão umbilical que pulsa não há pressa em respirar. Nos braços da mãe, ele conhece o novo espaço, espirra, tosse e finalmente respira. Às vezes chora vigorosamente, às vezes apenas resmunga. Em alguns minutos, os pulmões expandem, a circulação fetal deixa de existir e a placenta não é mais necessária. O cordão umbilical para de pulsar e pode ser cortado. Enquanto isso, mãe e filho se reconhecem, trocam cheiros, o som do coração da mãe acalma o bebê, que lentamente começa a procurar o seio. Depois de mamar, o bebê adormece e descansa por um longo período, se recuperando dessa grande jornada.

A sequência descrita acima foi planejada pela natureza ao, longo de milhares de anos de evolução.


Infelizmente, este processo fisiológico não é respeitado na maioria das maternidades brasileiras. Aproximadamente 40 % dos bebês da rede pública e 80% da rede privada nascem através de cesariana. Grande parte deste número – principalmente na rede privada- correspondem ‘as cesarianas eletivas (aquela marcada por conveniência do médico ou da mulher ). Nestes casos, o bebê não sabe que vai nascer. Não foi avisado pelo trabalho de parto, não recebeu os hormônios necessários, não sentiu o ritmo das contrações nem passou pelo canal de parto. Frequentemente estava dormindo no momento do nascimento. Tem que passar de feto a gente que respira em segundos. Seus pulmões, boca e nariz estão cheios de líquido amniótico. Só resta ao bebê aterrorizado a opção de chorar para expandir os pulmões e concluir à força o processo de transição.

A criança é levada a um berço aquecido, onde é vigorosamente enxugada. Geralmente o pediatra introduz uma sonda em sua boca e narinas para aspirar as secreções. A criança é pesada, medida, classificada e identificada. Rapidamente é apresentada à mãe, que não pode segurá-lo porque tem as mãos presas na mesa cirúrgica.

O bebê então é levado ao berçário, onde é colocado em um berço aquecido, observado pela família através de um vidro. Ali ele recebe um colírio de nitrato de prata, cujo objetivo é prevenir uma eventual conjuntivite pela bactéria causadora da gonorréia. É provável que suas pálpebras fiquem inchadas e doloridas em consequência do colírio. Ele recebe ainda uma injeção intramuscular de vitamina K, medicação usada para prevenir um distúrbio de coagulação.

Através do vidro do berçário observamos o recém nascido, sozinho no berço aquecido. A agressão sensorial foi tamanha que muitos dormem, exauridos. Outros choram e se debatem, observados pela família orgulhosa..

Algumas horas depois, o banho. O recém nascido é lavado com água morna, na banheira ou sob a torneira da pia. É preciso lavá-lo e remover qualquer vestígio de sangue ou vérnix. É necessário que ninguém perceba que o bebê nasceu de um útero, lugar cheio de mistérios. A criança é vestida e finalmente será amamentada.

A mãe recebe o pequeno estranho… que sequer viu nascer através dos panos estéreis da cirurgia. O pequeno estranho não tem seu cheiro, aliás cheira a algum produto químico. O pequeno estranho está sonolento, porque durante o período fisiológico de vigília estava no berçário. Depois de algum esforço, afinal consegue mamar. A natureza felizmente continua sábia e é através da amamentação que a mãe e o pequeno estranho vão enfim criar vínculos.

Fonte: http://ishtarsorocaba.blogspot.ch/2012/05/o-nascimento-pelo-ponto-de-vista-do.html

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mudanças de vida e um Vlog de Doula

Olá!! Hoje vou fugir um pouco do estilo informativo e fazer um post mais pessoal.

Na aba "sobre mim" vocês podem conhecer um pouco da minha jornada nesse mundo da humanização do parto. Mas não é sobre currículo que eu quero falar. É sobre mudanças na vida e novos projetos.

Me tornei doula e acupunturista em Brasília, foi em Brasília que vivi minhas primeiras experiências de partos, domiciliares e hospitalares (bem como cesáreas intra-parto). Foi em Brasília que organizei junto com minha melhor amiga, a querida Erica de Paula (também doula e acupunturista e produtora daquele filme lindo "O Renascimento do Parto") um grupo de gestantes, o Grupo Renascimento do Parto, para suprir nossa necessidade de divulgar informação, conversar com os casais gestantes, passar conhecimento, ajudar as pessoas. A vida profissional ia muito bem em Brasília, mas eu não estava contente com viver lá, e tinha sede de mudança.

Me apaixonei por uma pessoa incrível, o Luis Felipe, e a vontade de mudar somou-se a vontade de estar junto, e parti para a região de São José dos Campos (SP). Recomeçar não é fácil, mas está valendo a pena! Ainda estou tentando encontrar meu lugar no mundo por aqui, tentando entender como me encaixar, como fazer dar certo, e todos esses desafios que surgem com esses processos de quebra e transição de vida.

O tempo todo me deixei guiar pela frase do poeta Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Quis me reconstruir, me descobrir, e estou feliz que dei esse passo. Aqui encontrei com pessoas muito bacanas!! A Flávia Penido, psicologa e criadora da Roda BEBEDUBEM, a Débora Regina Diniz,  as duas doulas e educadoras perinatais, e ativistas. A Elaine Miragaia, psicóloga que tem um projeto super bacana em Caçapava para tratar de assuntos referentes a maternidade. A Mirella Tom de Lá, que é eutonista e vende slings, fraldas de pano e um monte de coisas legais!. A Lidiane, a Sara e a Thaís, que tocam um grupo de gestantes em Taubaté (do Ventre ao Peito). A Anna Patrícia Bogado que faz um trabalho desses em Lorena, a Anna Gallafrio, que é coacher e tem um grupo em Ubatuba. Gente "do bem", gente que fala a mesma língua que eu!  E claro, tem muitas outras queridas por aqui que aos poucos estou conhecendo.

Comecei a re-trilhar meu caminho, atendendo como acupunturista a domicílio. Mas meu lado ativista tem sentido falta de falar e compartilhar as informações. Aos poucos foi surgindo uma ideia, timidamente... Na internet estamos sempre respondendo as mesmas questões, vendo os mesmos problemas... e uma vez, respondendo pela centésima vez a mesma pergunta eu pensei "eu devia fazer um vídeo sobre isso explicando tudo, facilitaria muito"

E foi assim que decidi criar um Vlog, um canal de vídeo no youtube, onde eu poderia passar a mensagem mais rapidamente do que tendo que sentar e escrever um texto (ledo engano rsrs). Tantas vezes eu pensei "eu podia postar sobre isso no blog", mas até redigir o texto o "momento" já tinha passado. Pensei "ah, eu pego uma câmera, falo e gravo e pronto". Inexperiência minha.... rsrs. Falar para um público num auditório? Moleza... Olha pra uma câmera enquanto se fala sozinha? ai ai ai!!! Então tentei, tentei.. fui aprendendo a editar vídeos (falta muito a aprender ainda, mas vou tentando), e finalmente consegui lançar a apresentação do meu novo projeto.


Estou cheia de ideias!! E espero que com a prática eu consiga gravar e editar com mais facilidade (e mais rapidamente), e logo terei vários temas gravados. Se quiserem me acompanhar, é só assinar minha página lá no youtube.

Espero que vocês gostem!
Abraços
Aláya Dullius

Parto do Jorge, bebê da Camila e do Nilton - relato da doula

Dia 1º de agosto (2012) falei com a Camila à noite. Ela estava de 39 semanas e me contou que achava que pela primeira vez tinha sentido uma contração, mas que nem tinha sido dolorida, e que foram muito poucas durante todo o dia. Dia 2 foi lua cheia, e a Camila não deu notícia. Fui dormir pensando nela, no parto dela, imaginando várias coisas. Eis que às 5 da manhã (dia 3) ela me liga. “Acho que minha bolsa estourou, tá saindo muito liquido... as contrações tão doendo”. Perguntei o intervalo de tempo durante as contrações e ela não soube me dizer, disse que ia esperar mais duas e me ligava de volta.

Às vezes a bolsa pode estourar no início do trabalho de parto, e as contrações ainda estarem espaçadas, e levar horas pra ter que ir para o hospital. Assim que desliguei o telefone me dei conta que se a Camila tinha ligado, é porque a coisa tava forte. Ela tem um jeito tranquilão, não tava preocupada com o parto, nem ansiosa. Tinha até me dito que esperava que ele demorasse um pouco mais, pois ela estava de mudança e não tinha terminado de arrumar tudo. Ela é uma mulher forte, que encara bem as coisas. Não é do tipo que fica desesperada na primeira coliquinha, então se ela me ligou é porque a coisa tava pegando. Quando me dei conta disso, imediatamente liguei para ela de volta e durante o telefonema ela teve uma contração. Pela forma que ela respirou durante a contração pude perceber que o TP (trabalho de parto) estava avançado.  Adorei quando ela disse que ia para o chuveiro, e falei para ela que estava indo para lá. Sugeri que ela deixasse a obstetra de sobreaviso.

Meu plano era chegar na casa dela, ver como estava a frequência das contrações e se estivessem a cada 5 minutos, ou mais, doular ela um pouco por lá. Caso estivessem pouco espaçadas, eu iria com ela para o hospital, pois é ruim sentir contrações durante o percurso no carro e ter uma doula ajuda. Peguei minha malinha de doula, tomei um café forte, e quando estava saindo de casa o Nilton, o pai, me ligou dizendo que as contrações estavam de 3 em 3 minutos e eles estavam indo para o hospital. Avisei que os encontrava lá.

Ao chegar no hospital encontrei a Camila sendo examinada por uma ginecologista de plantão numa sala da emergência. Assim que a vi percebi o TP avançado, larguei todas as coisas no chão e fui até ela. A Camila se mexia de um lado para o outro, com dor, respirando profundamente. Uma típica mamífera em trabalho de parto. Comecei a esfregar suas costas, ela se agachava e balançava, estava indo muito bem. A médica disse que ela estava com 9cm já.

“Uau” – pensei, ela aguentou o TP todo sozinha de madrugada, e conseguiu chegar quase parindo! Quantas mulheres teriam corrido para o hospital na primeira cólica?! Fiquei admirada da Camila. Então ela começou a dizer que estava sentindo vontade de empurrar. Um enfermeiro trouxe uma cadeira de rodas e ela foi levada às pressas para o centro obstétrico, nem pudemos ir para o quarto. O Nilton começou a cuidar da burocracia da internação, da papelada toda. Quem, com o bebê nascendo, vai ficar lendo termos de contrato? Fiquei pensando em como somos levados a aceitar todos os termos, assinando correndo, pois não temos outra escolha.

Corri atrás da Camila e uma enfermeira me mandou vestir aquela roupinha azul linda. Toquinha, máscara, roupa completa. Nem parece que parto normal é fisiológico, eu tava me vestindo é pra uma cirurgia! Eu carregava um monte de coisa, minha mochila com todos os acessórios de doula, uma sacola com outros acessórios, as roupas da Camila que tinham ficado no consultório, a malinha da maternidade com as coisas do bebê, e a coberta do bebê. Onde eu ia largar tudo isso? Me vesti correndo e perguntei a uma enfermeira onde eu poderia deixar as coisas pois não podia entrar com elas no centro obstétrico. Ela falou “no quarto ué”. Expliquei que a gestante chegou parindo e nem passamos pelo quarto. Ela então, super de má vontade, me falou pra bater “naquela portinha ali”. Fui lá carregando tudo e segurando a calça verde que me deram tamanho G (e eu uso M) e tava caindo. Quando entrei, era a sala de convivência das enfermeiras. Todas me olharam feio, eu expliquei a situação e falaram “aqui não, vai por aquela outra porta ali”... era a porta pro centro obstétrico, de repente eu estava entrando com as coisas no centro obstétrico. Veio outra enfermeira me dizendo que eu não podia estar com aquelas sacolas lá. (ai ai ai!). Acabei indo até onde a Camila estava, e largando tudo no chão perto da porta. Veio outra enfermeira e pegou tudo e levou sabe-se lá para onde!


A Camila estava numa maca reclinada, em posição semi-sentada, com as pernas no apoio, tendo contrações. Tinha acabado de chegar à dilatação total. Eu não tinha minhas coisas à mão, e não tinha acesso às costas dela. Me restou a voz e as mãos para fazer o que precisasse para dar um apoio pra ela. A sala estava CHEIA de enfermeiras, era troca de turno e elas aparentemente não tinham mais nada pra fazer. Um momento super íntimo na vida de um casal, sendo tratado como “show”.  Então uma enfermeira falou que só podia um acompanhante na sala, e que eu teria que sair caso o pai quisesse entrar! Por sorte a obstetra assumiu e chamou o pai pra entrar junto comigo.

É impressionante, havia um monte de enfermeiras à toa assistindo o parto e não podia ter o pai e a doula na sala?! Algumas saíram e ficaram conversando do lado de fora, com a porta da sala aberta. O Nilton foi ótimo! Foi lá e fechou a porta de cara feia! Era o filho dele que estava nascendo, e não mais uma paciente qualquer. Mesmo assim ficaram algumas... Antes de ele fechar a porta eu ouvi uma conversinha entre elas “quem é aquela ali (olhando para mim)?”, “ah é a tal doula”, “ah e pra que serve uma doula?”, “pra nada, só pra ficar falando palavras bonitinhas pra gestante”... Ah se elas soubessem de fato...

No meio de uma contração uma enfermeira se aproximou da Camila e começou a perguntar se ela teve hipertensão e isso e aquilo! No meio de uma contração, que falta de noção! Eu olhei pra enfermeira e falei “a gestação dela foi toda saudável, não teve nada”, e ela saiu.

Eu tentei ajudar a Camila como dava, dando incentivo, fazendo carinho, massagem nas pernas que deviam estar cansadas de ficar na mesma posição. O tempo todo mudávamos a inclinação da maca, a Camila não parecia confortável. O bebê já estava entrando no canal vaginal, mas as contrações continuavam a cada 3min, 2min, não estavam completamente intensas e coladas umas nas outras. Vi no canto da sala a banqueta de cócoras, e perguntei se não poderíamos usa-la caso a Camila achasse mais confortável. A resposta foi negativa, “O campo estéril já está montado”...  É, parto é fisiológico, mas tratam como se fosse uma cirurgia!

Perguntei se podia apagar a luz que tava super clara e bem em cima da parturiente, não podia... O ambiente não estava nada favorável, o jeito agora era eu me concentrar completamente na mãe, e tentar visualiza-la bem protegida e torcer pra que ela conseguisse abstrair tudo aquilo. A Camila estava sendo super forte! E fazendo força quando bem entendia! É tão bom deixar nosso corpo nos guiar não é mesmo? Mas ai começaram a orientar a força dela, “vai faz força, não assim, agora não, agora sim”.. que droga, não atrapalhem ela! Ela mal tinha dormido, estava cansada, e imagino que essa pressão pro bebê nascer logo e ela não poder mudar de posição não estavam ajudando. Como ela tava se sentindo fraca a médica orientou que as enfermeiras trouxessem um soro glicosado “mas só com a glicose tá, não tem mais nada nele”.

A médica não era humanizada e achava que se o expulsivo demorasse um pouquinho que fosse ela teria que intervir. A Camila chegou ao hospital quase com dilatação completa, até parece que o corpo dela não saberia fazer o resto do processo! A médica dizia “essas contrações estão curtas, não estão ajudando ele a sair”. Ela checava a Camila toda hora, dizendo “o bebê já ta no canal, o bebê já ta perto”.. Com as contrações a gente via a cabeça dele se aproximando da saída do canal, e depois retrocedendo um pouco, o que é absolutamente normal, mas estava deixando a médica impaciente.

Então ela virou para a enfermeira e falou “me traz uma ampolinha de ‘apoio moral’’. Eu não tava acreditando que ela ia aplicar ocitocina sintética numa gestante que estava indo super bem e já tava no expulsivo!! Apoio moral seria ter tirado as enfermeiras em excesso da sala, apagado a luz, deixado usar a banqueta de cócoras, e acreditado que a Camila conseguiria por seu filho no mundo, isso sim é apoio moral!

A ocitocina foi aplicada no soro e chamaram a pediatra de plantão. A Camila estava um pouco tensa mas aguentando tudo muito bem, a cada contração eu tentava lembra-la de abrir a boca, se soltar, fazer “Aaaaa”. Eu mesma fazia e ela me acompanhava. O bebê foi saindo um pouco mais e durante as contrações dava para ver o cabelinho dele. A médica falou para o Nilton “olha pai, o cabelinho dele, ta pertinho”. O Nilton ficou o tempo todo ao lado dela, dizendo que ela estava sendo ótima.

Então chegou a pediatra, que pediu para trocar de lado comigo. De repente ela estendeu o braço pra mim, pedindo para eu dar a mão para ela para fazermos força na barriga. Imediatamente soltei sua mão e falei “desculpe, mas não vou te ajudar a fazer um kristeller (empurrar o fundo do útero fazendo força na barriga da parturiente) nela”. Senti que ela não gostou de ser questionada, mas eu não podia ajudar em algo que eu sei que faz mal! Então a pediatra começou a apoiar o fundo do útero (parte alta da barriga) da Camila com a mão para, segundo disse ela, ajudar o bebê a não voltar tanto depois de cada contração. Criticou a Camila dizendo que ela estava fazendo força errada (não se critica gestante parindo!). Que necessidade é essa de apressar tudo? Estava tudo indo bem.

Enquanto eu tentava falar para a Camila gritar se sentisse vontade, abrir a boca, gemer, fazer “A”, a pediatra começou a dar orientações contrarias, “coloca o queixo no peito, segura, não grita no inicio, não faz força agora”... Ela estava fazendo uma manobra de valsava. Ao invés de deixar a parturiente comandar o seu próprio processo, a pediatra tentava controlar o fisiológico alheio. A Camila sentia uma contração vindo e perguntava agoniada “Posso fazer força agora? Eu quero fazer força” e a Pediatra “agora não segura, segura.. isso, agora sim, vai força força”, e empurrava com uma mão a barriga dela para baixo. Ah como eu queria tirar aquela mulher dali pra deixar a Camila mais a vontade!

A obstetra não tirava a mão da Camila, porque tantos médicos acham que o parto não funciona sem eles intervirem?! O Jorginho começava a apontar para fora, e a obstetra impaciente com o expulsivo “longo” (que não estava nada longo, era só ter paciência para mais algumas contrações). Ela então disse “Camila, vou ter que fazer um corte pra ajudar ele a sair logo”. Então a Camila saiu de sua partolândia (ela estava super concentrada) e falou “não, episiotomia não! Não quero!”, e a médica insistia “mas é bom Camila vai te ajudar”, e ela respondia “não não quero!”.

Me senti orgulhosa dela por ser tão decidida sobre o que quer no seu parto e conseguir recusar assim!! Continuei a dar todo o incentivo positivo pra ela, o Jorge estava chegando!! Nilton assistia tudo mais ao lado, completamente absorto e emocionado! Então com mais uma contração a cabecinha saiu inteira, e na contração seguinte o corpinho dele

O Nilton deu um pulo de alegria, jogando as mãos para cima, como se comemorasse um gol do Brasil na copa!! “meu filho! meu filho!” Ele veio feliz para o lado da Camila enquanto a obstetra cortava imediatamente o cordão (custava esperar?) e colocava ele no colo da Camila. O bebê estava ótimo! Super alerta!! Já foi abrindo os olhos e esticando a mão para sua mãe. Nilton beijava a Camila emocionado, dizendo que ela era mulher mais forte e maravilhosa do mundo! Que ela foi incrível, que ele tava muito orgulhoso dela!! Eu também estava! Que mulher incrível você é Camila! O Nilton não se continha em si de tanta felicidade, me deu um abraço dizendo “estou tão feliz!”. Todos estávamos! E a Camila, se recuperando do esforço, olhava para seu filhote que não chorou e respirava calmamente, todo firme em seu colo. O tempo parou, por um instante tudo foi a mágica da chegada do Jorge, era só felicidade, só ocitocina no ar! Ele nasceu apenas 1 hora depois dela ter chegado ao hospital, lá pelas 7h da manhã.

Jorge pesou 2.800kg, nem o peso justificaria uma episiotomia!! A pediatra deu um tempo para o casal (ao menos isso)! Enquanto isso a médica dava uns puxões no cordão para a placenta soltar (o que não costuma ser a melhor coisa a ser feita). A placenta saiu inteira, linda. A médica mostrou o saco amniótico, o lado que gruda na mãe, o lado que fica voltado para o bebê, e a Camila olhou curiosa.

Então a pediatra pediu para levar o Jorge para os primeiros cuidados, e a Camila pediu para o Nilton ir atrás, enquanto eu ficava com ela. Foi só aí que ouvimos o Jorge chorando, fizeram a aspiração (que ele claramente não precisava, mas mesmo assim fizeram), aplicaram a vitamina K... Eu dizia para a Camila “você viu que lindo ele é! Você conseguiu!!”

Ela teve uma laceraçãozinha de nada, só na mucosa, precisou só de uns 5 pontos, que a obstetra deu com anestesia. Porém teve uma laceração menor ainda na parte mais funda do canal, que precisou só de 2 pontos. Certamente obstetras humanizados nem teriam costurado, pois sabem que o corpo se recupera, e não vale a pena submeter a mulher a uma costura de mucosa se foi tão pequeno o corte. Foi aí que senti que a médica estava “penalizando” a Camila por ter recusado a episiotomia (que teria sido um corte muito mais profundo, pegando mucosa e músculo). A médica insistiu em costurar a mucosa do fundo, e para isso teve que forçar os instrumentos a chegar até lá. Ela ficava dizendo “viu, a episitomia teria sido melhor, mas você não quis”. Nessa hora a Camila sentiu muita dor, ela perguntava se não podia deixar cicatrizar sozinho e a médica dizia “não posso deixar você assim”, mas esses pontos do fundo realmente estavam doendo, pois estavam bem inacessíveis e a médica forçava a mucosa pra conseguir chegar neles. A Camila reclamava da dor e dizia que preferia parir de novo a ter que aguentar esses pontos. Então a médica mandou chamar o anestesista (!!!!) e sugeriu que desse uma raquidiana nela! A Camila, forte como é, se impôs novamente! “Você ta doida que eu vou tomar uma ‘raqui’ que é pra cesárea, só pra costurar 2 pontos! Aguentei o parto todo, não vou tomar coisa nenhuma! Ainda mais pra ter que ficar mais horas aqui esperando a anestesia acabar!”. Nem poderia tomar mesmo! Comeu antes de vir ao hospital! Perguntei “mas não da pra deixar cicatrizar assim?” e a médica “não, não dá, ela ta sangrando” (claro que ela tava sangrando, ela acabou de parir! O útero sangra). Então deram uma dose alta de dipirona (ao menos disseram que era isso) pra ela, e ela ficou um pouco “grogue” do remédio, e mesmo assim sentiu dor. Eu fiquei falando sobre o Jorge com ela, tentando faze-la  pensar em outra coisa pra costura passar rápido.


Quando tudo acabou foi um alívio, nos levaram para um quarto ao lado. No meio do caminho a pediatra me abordou perguntando por que eu não gosto do Kirsteller e eu disse, educadamente, que desde 1986 a OMS não recomenda mais pois aumenta a chance de ruptura uterina e ruptura no períneo, e que é desnecessário e meio violento... ela fez uma cara pra mim do tipo “o que que essa doula sabe?”. Mas pra não ficar um clima ruim eu pedi desculpas pelo jeito que falei com ela no “calor do momento” e ela replicou “não tudo bem, você foi até legal, aceitou trocar de lado comigo, tem doula que não deixa nem eu chegar perto”.

O Nilton chegou com duas enfermeiras e o bebê enroladinho. Logo colocaram o Jorge pra mamar. Ficamos 1 hora no centro obstétrico ainda, esperando liberarem os papeis do Jorge, que teve apgar 10. O Nilton não parava de elogiar a Camila, completamente admirado dela! 

Finalmente fomos para o quarto, o Nilton foi buscar comida pra ela, e eu ajudei a Camila a acertar a pega da amamentação. O Jorge foi um bebê muito esperto, e logo estava mamando tranquilo. Quando a família chegou o bebê dormia e eu me despedi, muito feliz pelo casal, e muito orgulhosa da força deles!


Apesar de algumas intervenções, e do ambiente hospitalar não muito apropriado, o Jorge e a Camila tiveram os benefícios de um parto normal quase natural (não fosse pela ocitocina no expulsivo). Dentro do possível foi um parto bonito e tranquilo. Os dois se beneficiaram de todos os hormônios do amor, e de todo o trabalho de parto que a Camila passou em casa, o Jorginho nasceu ótimo, mamou na primeira hora de vida e ficou com seus pais no quarto. Camila se recuperou bem, e só não foi melhor por que a médica esqueceu (!!) um resto de gaze dentro dela, que só foi notar 5 dias depois (poderia ter tido uma infecção terrível por causa disso!).

 Em uma conversa pós-parto ela me contou que o próximo parto pode ser em casa, que ela viu que dá conta de tudo, mas que precisava da experiência do hospital para saber como é (quando o médico é humanizado e respeita a fisiologia e o tempo do corpo da mulher, da pra ter uma experiência ótima tanto no hospital quanto em casa). Claro que você da conta Camila!! Mulher parideira você!! O Parto foi todo seu, você que fez!

São as mulheres que pedem cesariana... São mesmo? E por que será?

Esse post foi escrito pela obstetra Carla Polido e postado originalmente no blog da Dra. Melania Amorin (que vale muito a pena ser lido!) http://estudamelania.blogspot.com.br/2013/08/guest-post-por-carla-andreucci-polido.html

Acho o texto dela extremamente importante pois constantemente ouvimos que são as mulheres que querem a cesárea. Me questiono o quanto desse querer não é uma "indução" conduzida pelo próprio médico que durante o prenatal começa a minar a confiança da mulher e aterroriza-la com problemas (e mitos). Culturalmente o parto normal é visto como algo horrível, e as mulheres são bombardeadas com histórias de horror. Sabemos que os riscos de morte em uma cesárea (tanto para a mãe quanto para o bebê) são 3x maiores do que num parto normal bem conduzido, mas a mídia não notícia essas histórias...

Como pode haver escolha se não há acesso a informação de qualidade? Se essa escolha é feita as escuras, se somos induzidas a escolher (engandas)? E como pode haver escolha quando só nos é apresentada duas opções: ser respeitada durante uma cirurgia ou ser maltratada, violentada, invadida, machucada e abandonada em um parto normal violento e desrespeitoso? Isso não é escolha!!
Precisamos fugir desse modelo violento e mostrar uma terceira opção, um parto acolhedor, amoroso, com base em evidências científicas, que pode ser um momento lindo e transformador na vida daquela família. Deixo as reflexões da Carla Polido, mais claras impossíveis!

Mulheres do SUS e o desejo pela cesariana




Ontem, 05/08/2013, aconteceu o debate sobre a estreia do filme "O Renascimento do Parto", promovido pela Folha de São Paulo. Em sessão gratuita, o diretor/produtor Eduardo Chauvet e a roteirista/produtora/doula/ativista do parto Érica de Paula convidaram a neonatologista Ana Paula Caldas Machado e a mim, para falar sobre as primeiras impressões do público sobre o documentário.

Uma audiência para minha surpresa mista, com público que incluiu pessoas estranhas ao movimento de humanização no Brasil, assistiu emocionada aos 90 minutos de exibição. Choros, risos, lágrimas, revolta e esperança, todos os elementos estavam misturados na sala escura e lotada. A procura pelos ingressos foi tão grande, que uma segunda sessão foi disponibilizada simultaneamente.

Ao final, quando as luzes se acenderam, um silêncio emocionado tomou conta da sala, logo após aplausos demorados. E pouco a pouco, o público foi voltando à realidade, e o debate começou.

Soluções para a questão do modelo de assistência vigente foram levantadas. Políticas públicas foram debatidas. Depoimentos emocionados sobre o assunto foram ouvidos.

E um obstetra da plateia levantou seus questionamentos. Muito lindos os partos mostrados. Tudo muito tocante. Mas as mulheres da saúde pública querem cesariana. Elas acham "chique" fazer cesariana com hora marcada. Ele mesmo já perdeu muitas "pacientes" porque não concordou em agendar cesariana.

Minha resposta foi ressaltar o óbvio e ululante: que mulher que não preferiria uma cesariana, diante da atrocidade que é a assistência padrão ao parto no Brasil?
Explico: Você preferiria agendar sua cesariana com o médico que acompanhou toda sua gestação, de acordo com as agendas de ambos, em horário comercial, em sua maternidade de preferência, ou você escolheria:

1) Entrar em trabalho de parto sem nenhuma informação acerca do que é esse processo e ter de procurar maternidades sem garantias de vagas para internação se você estiver em trabalho de parto.
2) Ser recebida por alguém da equipe de enfermagem/médico do hospital, receber um toque vaginal em posição ginecológica, e conhecer o plantonista que provavelmente atenderá seu parto naquele momento.
3) Ser internada em fase latente, não sem antes receber tricotomia (raspagem de pelos pubianos), talvez uma lavagem intestinal e um soro com ocitocina. Ser separada de seu acompanhante de escolha e/ou de sua doula (se você já tiver uma).
4) Ficar horas e horas sozinha num pré-parto, sem informações coerentes sobre a evolução de seu parto, deitada numa cama de hospital com mobilidade restrita, em jejum. Receber toques vaginais a cada hora, sem explicações.
5) Não ter acesso a nenhum método para controle de sua dor, como massagem, banho de chuveiro, apoio contínuo, banho de imersão, livre deambulação.
6) Não ter a frequência cardíaca de seu bebê avaliada a cada meia hora, como preconizado pela OMS e melhores evidências.
7) Receber a comunicação de que "já está na hora de empurrar a criança", e ser levada para o centro cirúrgico sem sentir puxos, simplesmente porque sua dilatação está completa. O centro cirúrgico é iluminado, frio, e cheio de pessoas que você nunca viu na vida, mas você é colocada numa maca ginecológica, deitada de costas, e suas pernas são abertas e apoiadas em estribos metálicos.
8) Mandam que você empurre seu filho sem parar para respirar, puxando o ferro do estribo, gritando comandos verbais. Alguém "ajuda" você subindo em seu abdomem e empurrando seu útero com o cotovelo ou com ambas as mãos.
9) Seu períneo é cortado para "facilitar" o parto.
10) Seu filho é levado para longe de você assim que nasce, após clampeamento imediato de cordão umbilical, e é submetido a inúmeros procedimentos obsoletos e dolorosos.

Mulheres não desejam cesarianas, obstetras do Brasil.
Mulheres desejam assistência qualificada ao parto.
Não podemos desejar que uma mulher queira parir, se a assistência que oferecemos é desatualizada, baseada em rituais que repetimos sem reflexão e sem embasamento científico.

Educação em saúde e mudança do modelo de assistência  poderão mudar nosso cenário de nascimento.
É disso que trata o filme.

Reflexões para um futuro melhor para novas gerações.
Não deixem de assistir ao filme. E não deixem de refletir.

Na foto, minha grande amiga, a neonatologista Ana Paula Caldas, que renasceu como mulher e profissional durante  o parto domiciliar de sua segunda filha, Lis.
Na foto, minha grande amiga, a neonatologista Ana Paula Caldas, que renasceu como mulher e profissional durante o parto domiciliar de sua segunda filha, Lis.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Relato de parto da Ananda - pela mãe Luana

Parto da Ananda, bebê da Luana.
escrito por ela mesma.

C.H.E.G.O.U C.H.E.G.A.N.D.O

Chegou. Chegou chegando chegadoramente... E simplesmente AHAZOU, minha filha!


Sabe, no dia 9 de dezembro fiz o post “nove meses”, pois finalmente me sentia totalmente preparada pra te receber. Foram realmente muitas mudanças, algumas bruscas, outras suaves, mas sempre positivas. Minha mente já estava em paz e eu sabia que faria de mim mesma a melhor coisa possível pra você.
Mas antes de contar a sua linda chegada chegadícia, vou voltar um pouquinho no tempo, falando sobre quando eu comecei a preparação do “como” você viria:
No início estava completamente perdida, mas por muita sorte, logo me indicaram uma doula (a linda Arix ganha créditos aqui), e a partir daí meu mundo se abriu! Eu estava com apenas 20 semanas de gestação quando marquei um encontro na pizzaria com a Aláya. De cara nos entendemos e ela já foi me explicando parte do longo processo “saia da matrix obstétrica”.

E então você se pergunta: “como assim matrix?”. Pra minha desalegria, Ananda, vivemos num país que simplesmente esqueceu – ou preferiu deixar de lado – o fato de que o parto é um momento da mulher e do bebê.  A maioria dos nossos médicos obstetras tenta nos convencer, infelizmente com bastante sucesso, de que nós, fêmeas humanas, não temos mais a capacidade de parir, de que somos fracas. Por conta de um sistema machista e capitalista, nos tiraram o direito à informação, e quando ainda assim ela vem - graças aos lindos trabalhos que doulas, parteiras e alguns poucos médicos humanizados fazem -, esses outros profissionais nada legais tentam minar a nossa autoconfiança, nos chamando de irresponsáveis e sonhadoras por simplesmente querermos deixar o nosso corpo funcionar naturalmente.

Logo que descobri que estava grávida, marquei uma consulta com a minha ginecologista de sempre. Durante a minha adolescência, ela era um doce comigo, mas com o tempo fui notando que a nossa “incompatibilidade ideológica” estava deixando a nossa comunicação meio truncada. Ao saber do meu quadro de depressão, ela não só me disse que isso era *falta de deus*, como tentou culpar a minha não crença nele por tanto sofrimento. Quando o assunto foi gestação, as coisas só pioraram! Apesar de eu estar com 25 anos na época, ela deixava claro o seu espanto por eu não ser casada, e eu sentia em seu discurso uma tentativa de te tratar como punição pros meus atos libidinosos.
Minha última consulta com ela foi marcada com muita indignação:
- Estou lendo a respeito de parto natural e acho que quero isso.
- E o que você acha que é parto natural, criança? (Ela me chamava assim... o que me irritava um bocado)
- Bom, seria um parto sem intervenções.
- Ah, você está falando daquela coisa anti-higiênica de parto na água e etc?
- ... Sim, e sem medicamentos, com doula, no momento que o bebê quiser vir e tal. Pensei na Casa de Parto.
- Não acho que seja uma boa ideia! Lá não tem médicos! E essa coisa de banheira, você por acaso sabia que sai cocô nessa hora? É muito risco pra você e pro bebê!
- Ainda assim quero tentar! (Mamãe aqui já tinha lido o suficiente pra saber que essa coisa de “anti-higiênico” não fazia o MENOR sentido!)
- Menina, deixa de ser irresponsável! Não vou participar disso! Você não sabe o que está dizendo!
- ...
- O que você quer que eu faça então? Não tenho função alguma aqui, né?!
- Bem, planejava continuar com o pré-natal. Acho importante saber como vai a saúde do meu bebê, oras!
- Ah, sim, claro... Pura imaturidade da sua parte, mas fazer o quê, né?! Já vi que não vou te convencer!
E foi com essa linda discussão que, graçazadels, resolvi que não pisaria mais lá!

Depois disso resolvi arriscar o tão temido SUS. Cheguei cheia de receios, mas tirando a parte das enfermeiras cristãs (que falavam barbaridades sobre como as mulheres deveriam se comportar diante dos seus maridos e coisas bobas do tipo), foi tudo uma maravilha! Marquei consulta com a dra. Simone, e essa médica foi APENAS incrível! De cara já sanou minhas intermináveis dúvidas, ao saber dos meus planos de parto, apoiou com afinco... Ou seja, tudo que eu queria e precisava e mais um pouco! O problema: ela não teria como fazer meu parto, já que só trabalhava na rede pública e por isso não estaria disponível quando você resolvesse nascer.

Nessa época eu já frequentava o grupo de gestantes do HUB, e lá ouvia várias dicas ótimas de partos humanizados, além de exercícios pra gestantes, coisas sobre amamentação e etc. Foi fácil então decidir que eu precisava me empoderar, fazer tudo do nosso jeitinho...


As semanas foram passando e eu, cada dia mais segura. A Casa de Parto já tinha se transformado no plano A e nem uma hidronefrose me fez desistir disso! Mesmo com todo o caos mental que me engolia, pude notar que tinha muita gente delícia ao meu lado, e isso, principalmente no fim da gravidez, me fez ter toda força do mundo pra lutar pelo que eu queria: um nascimento maricotístico saudável.

Então eis que você deu seus primeiros sinais de chagada chegadorada:
Fui dormir razoavelmente cedo naquele dia 9 de dezembro, pois sabia que o sono seria interrompido no meio, como já era de costume, e de fato não só acordei pra fazer xixi (sua estadia no meu útero era uma mijação sem fim pra mim!), como, às 4h em ponto (sim, olhei o relógio), me veio a primeira contração pré-trabalho de parto.
Depois de algumas, resolvi chamar a minha mãe, pois estava com muita fome e me levantar pra arranjar comida estava um pouco difícil. Ela, como o esperado, ficou toda preocupada, achando que já iríamos naquela manhã mesmo pra maternidade, então tive que freia-la um pouco. Tentei voltar a dormir, mas aquelas cólicas irregulares não me permitiram.
Às vezes durando 30 segundos, outras 1 minuto e meio, em intervalos que variavam entre 3 e 40 minutos, assim passei o dia 10 inteiro.

Avisei a Aláya pela manhã, e ela, claro, já ficou toda empolgada! Me passou uma lista de “o que fazer no fim da gravidez” e tudo, não contando que aquilo duraria bem menos tempo do que imaginávamos. Já no início da noite as dores foram ficando mais e mais intensas.

Eu, ainda me mantendo tranquilona, entrei no facebook e fiquei conversando no chat, tentando me distrair mesmo. Tive a ideia (ótima, por sinal) de já avisar a Lílian, uma amiga enfermeira obstetra, caso ela quisesse me acompanhar no parto. Ela topou e foi uma mão fundamental no processo! (Toda linda ela!)
Sentada na frente do computador, percebo que comecei a vazar. “Opa, isso aqui não é xixi não!”. Avisei a dona Carmen (que, óbvio, já estava em torpor) e a nossa doula. Por fim, a partir daí, comprei a passagem direta pra PARTOLÂNDIA.

As dores aumentaram rapidamente, então resolvi tomar um banho quente pra dar uma acalmada. Mãezinha do lado cronometrando as contrações, que se espaçavam entre 3 e 5 minutos . Ainda deu tempo de ligar pra Aláya, mas já não estava em mim quando ela chegou aqui em casa.
Lembro de cheiros gostosos, iluminação fraca, uma aliviante compressa quente na barriga e massagens gostosas nos momentos maiores de dor. Como já tinha ensaiado, não segurei nem um pouco os gemidos.
Com a tensão aumentando, fui tentando várias posições, mas nada adiantava muito não, e, bem, era assim que tinha que ser mesmo, né?!
Sentia tudo se abrindo dentro de mim com muita força, e quando percebi que já estava difícil suportar, falei em ir logo pra Casa de Parto. Esperamos a Lílian bonita chegar e pumba, já era hora de correr!

Ao me levantar da cama senti pela primeira vez a necessidade de fazer força... A monstrinha estava mesmo chegando muito perto! Passei o caminho todo com a cabeça deitada no colo da Aláya, as pernas empurrando a porta e berrando loucamente. Juro procê, minha filha, achei que não ia mais conseguir! Nesse momento só via estrelinhas e lembro de ouvir algo como “você já quer me matar por ter te dado essa ideia, Luana?” seguida pela minha resposta automática “SIM!!!”. Ainda não sei se isso só passou pela minha cabecinha ou se existiu esse diálogo mesmo! Hahahaha...

Pousando na maternidade, só tirei rápido a roupa e deitei na cama. A Lílian falou que precisava medir a dilatação, mas eu, em outro mundo, só queria ficar na minha. Ela insistiu e eu finalmente deixei: “Colo apagado, já dá até sentir a cabecinha!”. Foi a primeira emoção da madrugada!
As enfermeiras falaram que seria mais fácil pra mim se eu sentasse no banquinho de cócoras, e sem nem conseguir pensar muito, resolvi tentar.  A Aláya apoiando as minhas costas, minha mãe apoiando as dela. “Empurra e lembre-se de que essa é uma contração a menos pra você!”, “olha, ela é cabeluda!”, “você consegue, está sendo muito forte!” era o que eu ouvia, e mesmo achando naqueles instantes que eu não aguentaria, essas palavras me enchiam de esperança...  dá-lhe euzona, empurrando e empurrando!

*POFT* - E às 3:55 da madrugada do dia 11 de dezembro vem uma coisa gosmenta em cima de mim.
“Cara, cara, caaaara!!! É A MINHA FILHA! ELA NASCEU, CARA!!! A MINHA FILHA NASCEU!!!”

Aquilo foi completamente inexplicável, Anandita! Era... Era... AMOOOOORRR!!!
Te segurei sem medo, mesmo você estando escorregadia e, com algumas manobras bebezísticas, finalmente consegui ver seu rostinho perfeito!
Quando dei por mim, já estava na cama novamente, e você, simplesmente maravilhosa, estava fitando meus olhinhos. Ficamos mais ou menos uma hora nessa, enquanto eu terminava de expelir a placenta. Você fazia os típicos movimentos desajeitados e eu lá, babando loucamente!
Foi muita felicidade! MUITA MESMO!!! E por isso não poderia te chamar de outra coisa senão Ananda - do sânscrito: felicidade, alegria, bem aventurança. Foi muito amor, meu pedaço de alegria, tipo TODO AMOR DO MUNDO!

Lá estava a Luana vitoriosa segurando sua cria. Nunca imaginei que seria tudo tão demais...
Lá estava você, Dona Maricotas, que chegou já chegada, ahazando e brilhando!

E essa foi só a primeira batalha ganha por nós duas! Não vejo a hora de ganhar todas as outras!
Ainda tenho muito o que viver e aprender contigo. E você, delícia, pode ter certeza que contará comigo pra absolutamente tudo que for possível.
E que comece a feliz jornada de nós duas!

Com todo o amor do mundo,
Mamãe.

Relato de parto do Henrique - pela mãe Francielly

Parto do Henrique, escrito pela mãe Francielly

Há tempos venho ensaiando sentar-me em frente ao computador e escrever sobre a experiência mais incrível da minha vida: O nascimento de Henrique.
Hoje, passados exatos 4 meses e 2 dias deste grande evento e tendo acabado de colocá-lo para dormir, finalmente estou aqui, com minhas emoções gritando e causando um grande rebuliço em meu peito enquanto olho cada foto e revivo cada minuto dessa viagem sem volta tão maravilhosa que me trouxe ao mundo das mães.

Pensei ser importante contextualizar o cenário da gestação antes de iniciar o relato do dia do nosso nascimento (sim, no dia 07/02/2013 nasceram um filho, uma mãe e um pai).

Capítulo 1: O susto inicial
Marcos e eu engravidamos de nosso primeiro filho quando tínhamos 6 anos e 5 meses de casados. Gravidez super desejada, sonhada e festejada por nós e nossas famílias, descoberta já com 10 semanas. Às 14 semanas de gestação, viajei com meus pais aos USA para comprar o enxoval (por uma questão de economia financeira mesmo, Marcos não foi). Foi lá que nosso primeiro desafio de fé aconteceu. Tive dois sangramentos intensos e sem explicação médica. Após ecografias e exames diversos, os médicos não souberam dizer o motivo de tanto sangue e muito menos como o bebê (nessa época ainda era chamado de feto) podia estar aparentemente tão bem.
Retornei ao Brasil com o enxoval pronto e com 16 semanas um sangramento mais abundante, acompanhado de uma enorme perda de líquido amniótico e muita, muita dor causada pelas fortes contrações uterinas me levaram a uma internação hospitalar com o diagnóstico de bolsa rota. Sim, a bolsa havia rompido inexplicavelmente e dessa vez não nos deram esperança: o sonho daquela gravidez estava tendo um fim naquele momento. O feto era muito pequeno e a bolsa amniótica “não se reconstitui”. Sendo assim, não haveria nada que pudesse ser feito. Fui internada para aguardar meu corpo expelir um feto morto dentro de alguns dias e, caso isso não acontecesse e meu corpo desse sinal de infecção, o aborto seria provocado e o feto retirado em uma curetagem para que minha vida e minha saúde fossem preservadas. 


essa parte "rugosa" na membrana é sinal da cicatrização da bolsa que fechou após romper as 16 semanas.





Capítulo 2: À procura de um GO
Um pouso antes disso, havia iniciado minha saga de busca por um obstetra. No dia de minha internação, havia ido a uma consulta com o médico que realizara o parto de minha irmã mais velha anos atrás. De cara não me identifiquei e saí do consultório decidida a não voltar e fazer outras tentativas. Porém, com o susto da internação, recorri a ele já que tinha sido o último obstetra a me avaliar. Ele foi me ver no hospital e se tornou nosso Doutor Esperança.
Bem, Dr. Esperança reafirmou tudo o que os médicos plantonistas já haviam nos dito, porém, como o bebê ainda tinha batimentos cardíacos normais mesmo com pouquíssimo líquido amniótico, levantou a possibilidade de um milagre. E foi isso que aconteceu! Durante os 10 dias de internação, o quantidade de LA foi aumentando aos pouquinhos e nosso Henrique continuava lá, firme e forte, com coração batendo normalmente e pulsando vida em nós! A única “explicação” seria mesmo a reconstituição da membrana amniótica, o que causava enorme surpresa aos médicos.
Para resumir e encerrar essa parte, fiquei de repouso até o fim da gravidez, e Dr. Esperança foi nosso obstetra fofo até a semana 36 (quando o ILA já era normal e Henrique e eu estávamos super saudáveis, com ganho de peso e desenvolvimento super dentro do que se espera). A essa altura, minhas desconfianças iniciais estavam mesmo confirmadas: Dr. Esperança era fofo, querido, se emocionava com nossa história, reconhecia um milagre em nós, mas definitivamente não me deixaria viver o tão sonhado parto normal mesmo sem contra indicação alguma para isso. Foi difícil, mas com 37 semanas decidimos marcar uma consulta com outra obstetra: Dra Doçura! Bastou um único encontro para que Marcos e eu nos apaixonássemos por ela e tivéssemos a certeza de que era essa Doçura que queríamos ao nosso lado no dia em que seria o mais importante de nossas vidas! Dr. Esperança havia sido muito importante até ali, mas era tempo de fazer uma mudança corajosa para que garantíssemos que a chegada de Henrique seria como sonhávamos, da forma mais natural possível. Foi preciso coragem para questionar a praticidade que a cesariana traz aos médicos, para colocar em cheque mitos sobre o parto e protagonizar o momento mais belo de minha vida, indo contra o que nossa sociedade nos impõe.


Capítulo 3: Os primeiros sinais
Era a quarta-feira que antecedia o carnaval. Estávamos com 39 semanas e 5 dias de gestação e é claro que não víamos a hora de conhecer o mais novo grande amor de nossas vidas.
Levantei-me às 8:00 da manhã, abri a porta para nossa diarista e voltei para a cama. Marcos e eu estávamos num gostoso bate-papo matinal quando senti um líquido escorrer em minhas pernas e o lençol ficar úmido. Olhei pro lado e disse: “Amor, ou fiz xixi nas calças ou minha bolsa rompeu”. Levantei de pressa e logo o chão ficou molhado... Não era xixi! Realmente a bolsa havia rompido e estávamos muito perto de olhar nos olhos do nosso pequeno!
Liguei para minha doula, Senhorita Cuidado, e para Dra. Doçura que cuidou de adoçar ainda mais nosso dia com a receita de um chá delicioso e nos tranquilizando e orientando a não ficar deitada esperando ele chegar. Como eu não sentia nenhuma dorzinha, nada de cólicas, nada de nada, o trabalho de parto ainda não havia iniciado... Então era hora de curtir o dia cheio de emoção e preparar os últimos detalhes. Colocamos as bolsas da maternidade no carro e saímos para comprar a piscina inflável para o parto (que foi hospitalar). Foi um dia muito especial! Senti-me cuidada pelo marido, pela Senhorita Cuidado e pela Dra Doçura que me mandavam mensagens carinhosas e incentivadoras, e pude curtir ao lado de Marcos o último dia de nossas vidas em que éramos apenas dois.
Apesar do líquido derramando em minhas pernas, fiz exercícios na bola, passeamos, caminhamos em nosso condomínio, conversamos muito, choramos emocionados... Tudo isso regado pelo delicioso chá estimulante (preparado pelas mãos ansiosas de minha mãe que já não via a hora de caducar o novo netinho) de canela, chocolate, gengibre, pimenta e outros ingredientes mágicos que Dra Doçura me orientou a tomar.
Seguimos o dia assim, dando as boas-vindas a nosso filhotinho e sem dor alguma. Até que às 00:30, levantei-me da cama e vi que Marcos assistia a um filme na sala. Disse a ele: “Se eu fosse você ia tentar dormir um pouco, pois a primeira cólica leve chegou agora e acho que nosso pequeno pode precisar de nós dois acordados essa noite”. Foi exatamente assim. As contrações começaram bem leves, sutis, e aos poucos foram ganhando força e duração. Sempre em contato com nossa doula Senhorita Cuidado, começamos a marcar os intervalos e duração das contrações. Era emocionante! Marcos ao meu lado com agenda e caneta em mãos, atento a meus sinais. Às 2:30 da manhã elas já estavam bem mais frequentes e já estava ficando difícil dormir, mesmo que Senhorita Cuidado tentasse nos convencer de que seria importante descansar para estar disposta em algumas horas (o misto de ansiedade, felicidade, êxtase e o tempero do início da dor mandaram o sono pra longe).
Experimentei várias posições durante as contrações, mais o mais confortável foi me sentar na bola de pilates em baixo da ducha quentinha do chuveiro. Às 4:00 as contrações já estavam bem fortes e ritmadas, com intervalos de 5 minutos. Ligamos para Senhorita Cuidado e ela nos orientou a ir para a maternidade onde já estava acompanhando outra gestante que entrara em trabalho de parto pouco antes de mim.
Demos entrada no hospital às 4:30 e a essa altura as contrações já vinham de 3 em 3 minutos e já não dava pra conversar durante elas. Fui me entregando a meus instintos e ouvindo meu corpo me pedir para agachar-me quando elas chegavam. Era exatamente isso que eu fazia.
Como Senhorita Cuidado estava com outra gestante, outra doula, sua parceira, chegou junto conosco e foi logo me dando um abraço acolhedor, gostoso e encorajador. Era a Fada! Suas mãos encantadas transmitiam força e ternura. A sintonia foi instantânea! Ela estaria ao meu lado no momento mais feliz de minha vida!



Capitulo 4: Dilatando
Feita a internação, a médica plantonista veio me avaliar para saber quantos centímetros de dilatação eu tinha. Como as contrações estavam muito próximas uma da outra, estava certa de que já estaria perto dos 5 centímetros. Que engano! Dra Tosca, a obstetra mal humorada do plantão, fez um toque frio e seco, me olhou com cara de “essa não vai ter passagem, vai ter que ser cesárea” e me disse com desacredita: “Você só está com 1 centímetro”.
Ainda bem que Senhorita Cuidado e Fada estavam ao nosso lado e não me deixaram esmorecer. Suas palavras de incentivo e seu acolhimento foram indispensáveis para não desacreditar de mim, do meu corpo e não me deixar abalar pelo “sapo” que Dra Tosca nos deu ao saber que minha bolsa estava rota há 20 horas. Recebi um antibiótico intravenoso após o toque, por recomendação da Dra Doçura.
Subimos para o quarto (eu me agachei algumas vezes nesse percurso para receber as contrações) e a Fada foi logo ajeitando o ambiente. Velinhas, musica, meia luz... Fui me aconchegando enquanto as contrações ficavam mais fortes. Marcos, meu parceiro, companheiro e ajudador, não me deixou em nenhum momento. Sentir seu amor e receber seus carinhos e palavras sussurradas ao pé do ouvido me fortalecia e alimentava a leoa que estava acordando.
A cada início de contração, o mundo parava, meu silencio era respeitado e logo podia sentir mãos e braços me enchendo de amor, calor e força. Bolsa de sementes quentinha, massagens, cafunés, melzinho pra dar energia, tudo era bem vindo. Eu não pedia nada, mas eles podiam ler minha alma e me ofereciam o que eu precisava. Eram meu marido maravilhoso, a Fada, e por vezes Senhorita Cuidado que cuidou de organizar tantas coisas burocráticas até que o outro parto terminasse e ela pudesse também estar inteiramente ali comigo.
Às 7:30 da manha (claro que a essa altura eu já não tinha a menor noção de tempo), Dra Delicadeza (parceira de trabalhado da Dra Doçura) veio me ver e com uma voz baixinha e respeitosa me perguntou se poderia me avaliar. Realizou um toque completamente diferente do da Dra Tosca, me olhou com ternura e me informou que eu estava com 3 centímetros de dilatação! Deixou ali algumas palavras de incentivo e se foi, me permitindo estar a vontade com meu corpo e meus instintos.
Quando ouvi “3 centímetros”, senti um medo enorme de que a profecia da Dra Tosca se cumprisse. Parecia tempo demais para dilatação de menos! Pela frequência e intensidade das contrações, eu imaginava que já estava beirando os 10 centímetros... Como foi bom não estar só naquele momento! Mais uma vez meus escudeiros Marcos, Fada e Senhorita Cuidado me deram suporte! Seus toques, suas palavras e muitas vezes seu silêncio respeitoso e acolhedor, me encorajavam...
A partir daí, fui me desligando cada vez mais do mundo concreto, cronológico, palpável e me conectando com meu corpo, meu filho, meus instintos. Sentia-me como se estivesse drogada, entorpecida... Eram os hormônios do amor tomando conta do meu corpo, circulando em minhas veias, regando meus órgãos, embriagando minha alma. Era ali a Partolândia. Ouvia as vozes do Marcos, da Fada e Senhorita Cuidado, mas já não conseguia me comunicar verbalmente. Entrar na piscina quentinha aliviava as dores que já estavam muito fortes... Era como se a água me abraçasse, me acariciasse... Sentia sempre uma mão segurando a minha e lembro-me de ouvir algumas perguntas, mas só conseguia responder “tanto faz, tanto faz”.



Capítulo 5: Os obstáculos da dor e do medo
Era um misto de sensações, mas a dor parecia estar tendo um destaque absurdo. Já não era mais possível descansar nos intervalos das contrações... Eles quase não existiam. Sentia cada centímetro do meu corpo se transformar, se abrir... Senti a tão falada vontade de fazer cocô, vontade de fazer força, mas ao mesmo tempo um medo enorme tomava conta de mim. Estava cansada, exausta! Tinha medo de me entregar à dor, era impossível vê-la como aliada. Tive medo de ter que admitir pra mim mesma que realmente todos estavam certos, eu não daria conta, me arrisquei mais do que deveria... Tive medo de que algo pudesse acontecer ao meu filho por alguma irresponsabilidade minha... Tive medo de explodir, medo de não conseguir.
Lembro-me de sussurrar “estou com muito medo” e de ouvir a meiga vozinha da Dra. Doçura me dizer “tudo bem sentir medo. Você vai atravessá-lo”. Finalmente me dei conta de que o medo transcendia fatos concretos, como os que descrevi acima. Era muito maior, mais desafiador. Era o medo do desconhecido, medo de me jogar completamente na experiência do aqui agora, medo de ir além, um além que não imaginava como seria. Estava ali, cara a cara com minha própria sombra. Precisava atravessá-la. Era um caminho sem volta. Era desafiador. Era assustador. Era lindo. Era emocionante. Era excitante. Era contraditório. Era ambíguo. Era intenso. Era o MEU momento. MEU parto. MEU filho.
Marcos entrou na piscina. Me abraçou. Segurou minhas pernas que insistiam em se fechar num reflexo que não conseguia controlar. Senti força emanando dele e me invadindo. Ele estava ali comigo. A experiência era totalmente minha e só minha. Mas ele estava ali para mim.

Capítulo 6: O nascimento
Superados o medo e a dor (não, eles não desapareceram. Continuavam ali, em mim, mas já não me consumiam. Apenas os sentia, não tentava mais racionalizá-los), ondas de êxtase e emoção me invadiam nas contrações finais. Era o período expulsivo que aproximava meu filhotinho de mim. Dra Doçura segurava um espelho para que eu pudesse vê-lo. Pude acariciar sua cabeça. Sentir seus cabelos. Convidei-o a nascer. “Vem filho. Mamãe tá te esperando. Te quero tanto...”. Ele aparecia a cada contração... e se escondia a cada intervalo. Uma a uma, as inúmeras contrações iam trazendo-o alguns centímetros mais para fora.
Mais uma força de leoa vinda da minha alma e se refletindo em meu corpo sem que ninguém precisasse me dizer a hora de respirar, de empurrar... Meu corpo sabia exatamente o que fazer, como trazer meu filho ao mundo, e ele também sabia exatamente como agir. Nossos corpos e nossas almas estavam completamente conectados. Foi um gemido forte. Um rugido forte. Juntei forças de onde nem imaginava mais que pudesse vir. Ploft! Exatamente isso: Ploft! Ouvi Dra. Doçura celebrar “saiu a cabeça, querida... olha Fran! Olha que lindo! Ele tá girando!”. E sem precisar de mais nenhuma força minha, Henrique escorregou de dentro de meu corpo e chegou ao mundo por completo, sem anestesia, sem episiotomia, sem nenhum tipo de intervenção médica. “Pega ele, Fran. Pega seu filho”. Minhas mãos se apressaram em acolher pela primeira vez meu filho! Rapidamente o trouxe para mim, meu colo, meu peito. Continuávamos conectados. Como era lindo! Quanto amor! Que sentimento era aquele? Inexplicável, indescritível, imensurável! Ele em meus braços! Passeei meus dedos por todo o seu corpinho ainda com vérnix. Não havia sangue. Havia um perfume... perfume de amor. Naquele instante nasceram sim, um filho e uma mãe, por mais clichê que essa frase pareça. Estávamos em outro mundo. “Seja bem-vindo, meu amor!”. E ali ficamos por um longo período, nos reconhecendo, tendo nosso “imprinting”. Papai, mamãe e filhotinho. Lágrimas, sorrisos, afagos, beijos, cheiros (como era gostoso aquele cheiro). Finalmente eu o tinha em meus braços. Marcos cortou o cordão umbilical quando já não pulsava mais. O Cordão que nos ligava havia sido cortado e um abraço nos unia para sempre.


Capítulo 7: Invasão de outro planeta
Passados muitos minutos, Dra. Doçura finalmente chamou a pediatra que, claro, não gostou de ter sido chamada depois de tanto tempo do nascimento (sim, no hospital 20 minutos são tanto tempo). Levantei-me da piscina e fui andando para a cama esperar o nascimento da placenta. Incrível como me sentia revigorada. Lembro-me de levantar e dizer “podem me entregar meu filho. Já posso ir embora”. Não fez sentido algum estar num hospital. Estávamos ótimos. Eu e ele. Cheios de vida e saúde. Em uma contração quase indolor nasceu a placenta que nutriu meu filho durante os 9 meses. Ao meu lado seres indelicados mediam e pesavam Henrique que chegara ao mundo com 3.335kg e 50 cm. Aspiraram mesmo ele estando respirando bem e já tendo nascido a cerca de 30 minutos. A pediatra me respondeu que sabia o que estava fazendo quando pedi que não o aspirassem. Não, ela não sabia.
Felizmente esse momento foi breve e rapidamente esses seres se retiraram do quarto e voltaram para o mundo sem amor de onde vieram.

Capítulo 8: O grande final... Ou será apenas o início?
Finalmente Henrique estava em meus braços. Um amor infinitamente maior do que tudo que eu pudesse imaginar havia tomado conta de mim. Entorpecida e embriagada por esse amor, chegamos em casa na manhã seguinte e demos continuidade à mais encantadora jornada de nossas vidas. Seguimos ainda hoje nossa caminhada. Florida, perfumada, por vezes doída e desafiadora, mas acima de tudo, cheia de vida, encantos, descobertas e muito, muito, muito amor!


Quero registrar aqui minha profunda gratidão a cada uma das personagens que me ajudaram a viver esse momento encantado. Dra Doçura (Dra Rachel Reis), Senhorita Cuidado (Érica de Paula), Fada (Aláya) e Dra Delicadeza (Dra Caren Cupertino) estão registradas em meu peito no hall das pessoas encantadas. Seu trabalho, seu carinho, sua sensibilidade e o amor com que vivem suas profissões foram fundamentais para que Henrique chegasse ao mundo de uma forma tão linda e respeitosa. Que a vida as retribua a cada dia e que muitas outras mulheres tenham a chance de ser protagonistas de seus partos com o apoio e incentivo de vocês, que lutam e acreditam no Renascimento do Parto em nosso país!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...