quinta-feira, 30 de março de 2017

O silêncio das doulas

Uma doula ao atender um parto está o tempo todo fazendo escolhas. Como ajudar mais? Como atrapalhar menos? Na maioria das vezes a gente sente, está no ar, está no silêncio, nas expressões faciais, nos murmúrios e gestos. Não está nas palavras.

Optamos por apagar uma luz, por sugerir ou não uma posição, por massagear ou não durante uma contração. Estamos o tempo todo sentindo e avaliando, observando amorosamente como deixar a gestante mais confortável, ou diminuir alguma interferência. Um suor na testa para secar; um gole de água para ajudar a tomar; um sorriso, um gesto ou simplesmente cuidar do “resto” para a mulher poder ficar em paz em seu trabalho de parto, sem ter que atender outras demandas, responder perguntas, se preocupar.

Doula é apoio, é apoio quando aquela mulher, de pé, se depara com uma contração que toma todo o seu corpo, e estando de pé às vezes não consegue uma posição a tempo -- antes da contração a preencher por inteiro. A doula dá a si mesma, seu corpo de apoio, sua mão para manter o foco, seus ombros para segurar. “Aqui estou”, e a mulher pode se entregar à onda que a atravessa.

As vezes queremos ajudar, e na ânsia de incentivar atrapalhamos. O que dizemos marca, pode tirar o foco, gerar culpas. É um comentário mal colocado que remete a uma memória ruim, uma palavra mal usada que lembra sentimentos de fraqueza; ou o contrário. Palavras são carregadas! Também podem gerar presença, conforto. Incentivo alegre pode dar força, torcemos e rimos a cada contração mais dolorosa... ôoo dorzinha boa! “Era isso que queríamos não é mesmo”? E um sorriso lembra a mulher que sim, era aquilo mesmo que ela queria, sim que dor boa e bem vinda!

Com o tempo tenho aprendido a ser cada vez mais silenciosa. É tentador o risco de cairmos em clichês. Ocasionalmente podem até ajudar, mas muitas vezes só irritam e tiram a concentração. A doula precisa adivinhar, captar no ar, tentar acertar (e nem sempre acertamos). É fácil transformar um atendimento a um parto em uma torcida de “força você consegue” “é uma contração a menos” “chama seu bebê” “se entrega”. 

Difícil é calar, é permitir dar vazão pra tudo aquilo fluir sem interferência -- não apenas das intervenções do médico, mas até mesmo das interferências de “vamos fazer isso” “vamos fazer aquilo”. Perguntam-me se faço acupuntura durante um trabalho de parto: raramente. Uma mulher parindo não precisa de tratamentos, ela só precisa ser deixada parir.

Trabalho de parto é muito delicado. Podemos dizer palavras de incentivo, podemos ser leves e tirar algumas risadas e ajudar a descontrair o ambiente, podemos ser firmes na hora que bate aquele medo. Mas muitas vezes somos silêncio que abraça. E ao não fazer nada, permitimos que a mulher possa ser tudo, pois o parto não é sobre nós, é sobre elas, é sobre aquele bebê, aquela família. É muito mais sobre saber ouvir do que sobre saber falar...

Somos, as doulas, vela acessa na escuridão. Não somos sol. Sol é a mulher parindo, ela só precisa descobrir-se sol. A doula é vela, tímida, ilumina mas não aponta o caminho igual lanterna, não fala “é por aqui”, apenas sugestiona, dá a mão, pergunta “quer ir junto?”. A doula é vento que sopra as nuvens pro sol brilhar. E como brilha! E Raia o dia, chega a luz, vem o bebê iluminar. E a doula se recolhe, e continua apoiando.

quarta-feira, 15 de março de 2017

32 meses de entrega - Relato de Desmame gentil!

Mais de 2 anos amamentando, 6 meses tentando desmamar. Um desmame gradual que deu certo!


Quando meu parto domiciliar terminou em transferência e cesárea, eu me apeguei à amamentação como uma forma de me assegurar que “sim meu corpo funciona”, e deixar a frustração da cesárea pra elaborar depois. Sempre achei que ia parir e amamentar – minha mãe me amamentou até 2 anos e meio e eu não tinha dúvidas dos enormes benefícios do leite materno!


Estava munida de todas as informações, e zero experiência prática pessoal. Mas tudo bem, entre idas e vindas me entreguei por completo à livre demanda, sem crises de “mamou muito tempo”, “mamou rápido demais”, “tirou soneca longa”, “mamou de hora em hora”, eu aceitei que cada dia seria um dia, e cada dia eu ia conhecer o que minha filha precisava e o que ela estava se tornando. Amamentação foi cura para mim, de uma cesárea indesejada virou uma hiperlactação, com peitos jorrando leite e doações de 2 litros por semana para o banco de leite da cidade.


A amamentação seguiu tranquila durante todo o primeiro ano, exclusiva até o 6º mês e em livre demanda até 18 meses. Foi aos poucos que fui percebendo que eu demorei demais pra regular a livre demanda, não por ela, mas por mim, que estava ficando muito cansada das mamações constantes, bicadinhas de segundos, interrupções a toda hora, agarramentos da rua, no ônibus, no consultório, toda hora. Eu estava cansando: mandei ela pra escola, 4h por dia.


Quando a buscava ela queria mamar, loucamente, na porta da escola, dentro do carro antes de voltar pra casa, no ônibus, sentada na calçada com minha bicicleta encostada no meio da rua. Era adaptação, fui deixando. Em casa continuava aquela ‘mamação’ de cafezinho da tarde, toda hora, self-service.

O Fim da Livre demanda

Resolvi começar a regular, primeiro com a mamada pós escola “só quando chegar em casa”. Não foi fácil. Foi muito difícil na verdade, levou dias, semanas, mas “pegou”. Ela não pedia mais pra mamar assim que me via, aceitava esperar. Mas era botar o pé em casa que eu não podia fazer mais nada, nem ir ao banheiro, era sentar no sofá, e amamentarrrrrrrrr. Era nosso momento, eu amava aquele carinho, aqueles olhinhos felizes dela me observando enquanto mamava.


Ela já tinha 20 meses e eu começava a cogitar o desmame noturno (método gordon, gentil), eu já começava a pensar em desmame total. As vezes parecia que ela voltava a ser bebezinho, acordava toda hora, dormia grudada no peito, não me soltava por nada. E tinha o troca troca de peito, uma bicadinha em um, uma bicadinha no outro, em um, no outro, toda hora, eu entortava as costas pra me torcer por cima dela pra ela alcançar o peito “de cima” (amamentando deitada de madrugada na cama). Não há costas e sono que aguentem.

Eu já estava tentando há meses a técnica do dedinho, de soltar o peito da boca, de sair, de voltar, de sair, voltar, até a criança desassociar dormir com o peito na boca, pelo menos.

22 meses, perturbação da amamentação. Eu estava um caco de sono, exausta de amamentar, dormir picado. Irritação para amamentar a noite, irritação com as bicadinhas durante o dia, as mamadas sem motivo. A noite era pior, eu queria fugir, arrancar meu peito dela, sair correndo. Eu aguentava, eu sofria, eu mordia a almofada, eu ficava agoniada, angustiada, querendo ser largada, com “gastura” dela ali me sugando, não me deixando sair. Era muita irritação, era sofrimento, sentimentos ruins, vontade de chorar. Isso tem nome: perturbação da amamentação. Eu era aquela cadela que foge dos cachorrinhos que correm atrás dela pra mamar. (vídeo com maiores detalhes https://youtu.be/xfqZSeYQ4wY)

Tentativas de desmame diurno e noturno - Frustração

Não estava dando conta de recusar o peito a noite, decidi regular o do dia. Desabafei, conversei, pedi ajuda pras amigas. Vamos acabar com a livre demanda, antes tarde do que nunca! E assim começou “Quero mamar” – “ah não vem cá vamos tomar esse suco olha que gostoso!”; “quero mamar” – “opa opa to levantando, vem aqui brincar com esses bloquinhos vamos montar uma torre”; “quero mamar” – “ta com fome filha? Vamos comer tal coisa? Hmm olha que gostoso”; “quero mamar” – “quero mamar” – “quer mamar é? Ahh vem cá que eu vou te fazer cosquinha kkkk” .. e ela caia na gargalhada. Claro eu intercalava tudo isso com momentos que eu aceitava oferecer o peito. Comecei aos poucos a regular os horários, foi tudo muito experimental, natural, não forçado, foi rolando, com altos e baixos. Eu conversava muito, dizia que não estava na hora de mamar. Às vezes ela aceitava, às vezes ficava furiosa e tentava arrancar minha roupa. Tive momentos de desespero, muitos. Tive momentos de “dá esse leite com toddy pra ela mesmo e dane-se minhas convicções, contanto que ela não queira mamar, aceito qualquer coisa, faço qualquer negócio, me salva desse martírio!”.

Aos 2 anos de idade ela já não pedia mais para mamar durante o dia. Apenas ao acordar e para dormir (e de madrugada, as vezes mais de 1x). Ter tirado a livre demanda me fez sentir que estava voltando a ser dona do meu corpo, a perturbação passou, amamentar não era mais sofrido a noite, pois não me sentia sem autonomia durante o dia. Aliviou demais! Mas o sono picado persistia.

Então depois de 2 meses de sucesso da retirada da amamentação diurna eu tentei fazer um desmame noturno gentil (Livro “soluções para noites sem choro” -- consolando o bebê e oferecendo outras formas dele pegar no sono, conversando, indo aos poucos, explicando, mas retirando a mamada de quando ele acorda de madrugada). Eu amamentava ela para dormir e quando acordasse eu explicaria que o mamá está dormindo, que não tem mais, mas assim que voltasse a ser dia ela poderia mamar ao acordar. Não deu certo, foi horrível, teve muito sofrimento, teve choro inconsolável (no meu colo, mas partiu meu coração e passei a pensar que estava errado fazer aquilo com ela, que se haveria sacrifício, seria meu, eu podia aguentar mais um pouco). Eu tinha escutado e lido muitas historias de sucesso de desmame noturno, eu precisava dormir, eu tinha atingido um limite. Mas após 2 noites praticamente em claro, dando apoio físico e emocional pra minha filha, sofrendo, eu não aguentei a exaustão e na terceira noite eu sucumbi e cedi à facilidade de amamentar ; chorando desisti do desmame e pedi perdão pelo que eu tinha feito ela passar em vão. Tinha dado errado. Ela me agarrou como um pirata que vê um pote de ouro. Ela mamou loucamente, soltou o peito e falou “agora estou feliz”, como que me agradecendo por deixá-la mamar. Foi horrível!  (relato detalhado do desmame noturno em vídeo https://youtu.be/L_yceGTUNxE)


Após a tentativa frustrada de desmame noturno ela “regrediu”. O desmame diurno que estava um sucesso foi por água abaixo. Pareceu-me que ela sentiu tanto medo de perder seu precioso mamá que ela voltou a pedir para mamar durante o dia, como que para se assegurar que ele ainda estaria ali. Ela voltou a mamar toda hora, eu estava me convencendo que não ia conseguir nunca.
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O Início da era “Minha filha dorme a noite toda”

Impressionantemente após 1 mês da tentativa de desmame noturno ela passou a dormir a noite toda, espontaneamente. Um dia dormiu, e no seguinte, e no seguinte, sem eu ter feito nada. Mas agora eu tinha voltado a amamentar durante o dia, poucas vezes, reguladas, mas ela voltou a pedir com mais insistência. Um passo para frente, dois para trás.

2 anos e 5 meses, viagem de férias, calor, mudança de ambiente. SOCORRO! Ela quer mamar toda hora, sou um peito ambulante novamente, ela não pode me ver que me agarra, ela não quer comer, ela não quer dormir, ela só mama, vou definhar amamentando!


2 anos e 6 meses: agora chega! Que venha o desmame diurno novamente! Ela já dorme a noite, perfeito então, vai mamar antes de dormir e ao acordar, é tudo que eu quero! É fácil por ela pra dormir amamentando, é cômodo, assim será, agora só preciso conseguir tirar durante o dia novamente.

Não deu certo. Ela não vai mais pra escola, ela passa o dia comigo, o dia todo, o dia inteiro. E a soneca diurna? E agora? Ela quer mamar, eu aceito, ela não me solta. Não me solta por nada, grudou, cerrou os dentes, não deixa eu sair, “to presa!!”, 1h presa na cama, as vezes sem almoçar, centenas de coisa pra fazer, minha única horinha sem ouvir “mamãe” a cada 2minutos, sem ser interrompida em tudo que preciso fazer, eu só queria essa horinha, a única do dia que é só minha... (se você que está lendo é mãe de bebezinho e ainda AMA amamentar, lembre que eu era apaixonada por esses momentos também, mas o bebê cresce e a gente muda!) Ela não me larga, nem com reza braba, não larga. Se tento levantar ela acorda, começa tudo de novo. Dorme, tento levantar, acorda, dorme, dedinho na boca, não solta o peito, não soltaaa.. ME SOLTAAAAA! Angústia.... não aguento mais. Chorei, amamentei chorando, primeira e última vez. Decidi que ela ia tirar a soneca do dia balançando na rede, vendo TV que fosse, mas eu não ia mais deitar pra amamentar de dia.

“Mas e agora, vou amamentar até a faculdade? É isso, não tenho mais esperança.” Quando me falavam em criança que largou o peito sozinha, que aceitou facilmente parar de mamar, eu ria por dentro “isso não existe, não é possível!”. Eu comecei a achar mesmo que ia ser aquelas lutas difíceis, aquelas coisas complicadas de ‘tirar’. Aquele hábito que se eu deixar vai perdurar até os 5 anos! Eu estava muito cansada, e com o fim do puerpério estava precisando me ‘devolver’ pra mim mesma um pouco.

Adoeci, fiquei doente mesmo, fui parar no hospital. Passei o dia internada, marido precisou me ajudar, a bebê-criança ficou com a avó. E assim foi! Primeira noite dormindo na casa da avó, primeira da vida, primeira sem mim (e sem ter sido por escolha minha)! Dormiu, dormiu bem, entendeu o que foi explicado, aceitou a situação. Abriu o precedente. Meu deus ela dorme sem peito! 2 dias depois a doença deu rebote, cai de cama de novo, e lá foi a criança-bebê dormir longe de mim, agora na outra avó. Genteeeee, ela consegue, ela dorme! (relato detalhado em vídeo https://youtu.be/hH-ITSPvmQ8)


O Começo do fim

A partir desse momento ela passou a dormir 1 noite por semana na casa de uma das avós.  Minha produção de leite foi decaindo, e eu ia sentindo que tinha menos leite (o peito esteve ‘murcho’ desde os 12 meses dela, mas agora estava diferente). Tinha leite, ela mamava antes de dormir e ao acordar (vale lembrar que a maior parte do leite é produzida durante a mamada, o peito não precisa ficar cheio) mas a sensação não era mais de murcho, era de estar secando mesmo, não sei explicar.

Fui conversando com ela que o mamá estava acabando, que só tinha um pouquinho. Ela pedia “quero mamar só um pouquinho”, e ficava feliz que eu permitia, mas foi aprendendo a soltar. Eu conversava “vou te dar, mas o mamá está acabando filha, mama um pouquinho e depois solta tá”. Ela mesma notou que não saia mais tanto leite, trocava mais rapidamente de um peito pro outro. Às vezes ela pedia para ver, para fazer carinho no meu peito ou dar um beijinho. Às vezes ela pedia “colinho” e não mais “mamá”. Eu notei que ela foi mudando. Achava graça quando ela pedia “deixa eu ver que o mamá ta acabando?” E pedia para eu apertar como se estivesse ordenhando, e não saia mais gotinhas brancas (pois eu apertava errado de propósito). Ela foi se convencendo.

Então certa ocasião, quando ela já estava bem acostumada com a noite nas avós, ela dormiu duas noites seguidas lá, longe de mim. Depois de umas 40 horas sem amamentar meus peitos encheram! Encheu, começou a empedrar. Eu nem acreditava! Não sentia isso a mais de um ano e meio! Fiz uma ordenha de alívio e fui dormir. Busquei-a na manhã seguinte, e apesar dela ter dormido bem a segunda noite, acordou mal humorada, perguntando por mim e querendo mamar. Ao chegar lá, eu deixei. Continuamos com a rotina de mamadas diurnas ausentes ou super espaçadas , e eu continuei sem saber como desmamar, imaginando por quanto tempo isso ia durar.

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O desmame

Minha filha estava com o costume de acordar as 6 da manhã, vir para minha cama (ela dorme no quarto dela), e pedir para mamar. Ela ficava me “mamando e mastigando” até as 7h e eu não conseguia voltar a dormir. Até que num sábado, 3 de março de 2017, isso me incomodou tanto que chegou a doer. Parecia-me que ela sugava um peito sem leite. Ainda saia umas gotas se eu apertava, mas estava me machucando. Eu não aguentava mais. Foi ali, sendo mastigada, sem conseguir voltar a dormir, em posição torta, com o peito doendo, foi ali que eu bati meu martelo interno “CHEGA!”.

Não teve planejamento de desmame, ele já vinha sendo orquestrado a 6 meses lembra! Eu não desmamei por nenhum “motivo” – desses que a gente inventa que é motivo, minha filha sempre mamou muito e comeu muito bem (desmamar não faz a criança comer melhor gente!); eu não vejo nada de errado em amamentar uma criança de 3 anos; eu não tinha que tomar nenhuma medicação proibida (a maioria dos remédios são compatíveis com amamentação, pesquisem e não caiam em desmames furados!). Meu motivo foi amor próprio, fui eu. Eu cansei, eu cheguei ao meu limite. Eu queria abrir as asas e voar pra longe do puerpério, só faltava desmamar.

Eu estava a meio ano ensaiando um desmame gradual. A meio ano esperando o momento certo, e foi, assim, no impulso daquela manhã. Ela dormiu na avó a primeira noite e me preparei para a segunda noite. Agora contarei como foram as noites, pois até o 8º dia notei fatos relevantes para comentar, afinal é um processo o desmame, e não um corte. Se você está ensaiando o desmame gradual e quer saber como foi, pode ser válido ler. Mas lembre que essa foi nossa vivência, cada família encontrará suas formas de lidar e suas próprias estratégias!

1ª noite dormindo em casa, com a mãe, sem mamar: Fizemos nosso ritual de sono de sempre: Leitinho, dar um beijo no papai, escovar os dentes, pijama, ler o livrinho de dormir deitar e... sem mamá! Falei “Filha, lembra que o mamá tava acabando? Pois é! Agora acabou mesmo! Não tem mais leitinho, você tomou tudo! Mas tudo bem né, mamãe vai fazer um carinho especial em você pra te ajudar a relaxar”. (Me veio na hora essa ideia). Peguei um creme hidratante e fui passando por todo o corpinho dela, fiz uma massagem relaxante, meio intuitiva, usando algumas técnicas que eu sabia de shantala e de tuiná (massagem da medicina chinesa). Ela aceitou, ela gostou!

Então deitei ao lado dela, como sempre deitava para amamentar, e falei que agora ela ia fechar os olhos e dormir e eu ia ficar ali com ela. Eu havia posto uma blusa de gola alta, bem fechada, pra evitar puxações de blusa. Ela pediu pra mamar, eu repeti o que já havia dito. Ela choramingou, não foi um choro desesperado, foi apenas sentido. Apenas de algo que ela queria e não tinha. Ela estava lidando com a perda, e eu respeitava isso. Conversei com uma voz calma e baixa, deitada junto dela. Contei que ela já sabia usar a privadinha, que ela tinha calcinhas muito bonitinhas e que não era mais bebê, e bebês usam fralda. Contei que ela já sabia correr e pular e subir nas coisas, e bebês ficam no colo, não sabem andar... ela não era mais bebê. Comentei todas as coisas que ela pode comer e beber, todos os sucos, leitinhos, sorvetes, iogurtes que ela gosta, e disse que bebês mamam no peito mas não tomam todas essas coisas, e ela não precisava mais mamar. Reforcei que acabou, e que ela havia tomado bastante, e que eu sabia que ela gostava muito, mas que não tinha mais e que estava tudo bem. Ela alternava chorinhos sentidos de protesto “eu quero...” com escutar atentamente minha conversa e ir se acalmando. Até que uma hora se acalmou de vez, virou de lado, enfiou a cara no meu peito e não fez mais nada, simplesmente dormiu. Foram 20minutos de conversa pra ela se acalmar, 20minutos de chorinho leve. Ela dormiu a noite toda e veio para minha cama as 6h. “Quero mamar” – Novamente a lembrei que o leite da mamãe havia acabado, mas que eu poderia fazer um leitinho pra ela no copinho. Ela aceitou, tomou e voltou a dormir com facilidade (só fiquei junto). E dormiu até as 7h (e me deixou dormir!)

2º dia – Ao nos dirigirmos para a cama ela perguntou se teria o “carinho especial” novamente. Achei uma graça! Fiz a massagem com creme, repeti a frase explicativa sobre o mamá ter acabado, mas que ela teria a mamãe ali, o colinho e o carinho. Ela deitou e em 10min dormiu. Pediu que eu ficasse com a mão fazendo peso em cima da coxa dela, e só. Porém acordou as 1h da manhã, pediu para ir ao andar de baixo, pediu leitinho, pediu para ver desenho. Como estava tudo diferente pra ela, eu decidi acatar, e botei um desenho bem calmo, baixo e com pouco brilho e falei que ia deixar um pouquinho. Ela não parecia que ia aceitar voltar pra cama e se acalmar sozinha. Ela pediu que eu sentasse ao lado dela, e fiquei, ela se recostou em mim e logo estava ‘piscando’ de sono. Convidei-a para voltar para sua cama, ela aceitou na hora. Subimos as 2h, ela deitou e dormiu (comigo ao lado, que sai logo depois) Acordou as 6h, pediu mamá, aceitou a negativa numa boa, pediu o leitinho. Tomou, dormiu.

3º dia – Igual ao segundo. Novamente pediu para ver desenho por volta da 1h, novamente solicitou o mamá, mas aceitou a negativa e aceitou a proposta de tomar o leitinho. Novamente acordou cedo

4º dia – Pediu carinho antes de dormir. Ficou deitada de lado e fiz carinho nas costas dela até ela adormecer. Se eu parava ela pedia pra fazer mais. Dormiu facilmente, a noite toda, mas levantou as 5h querendo leitinho e despertou totalmente as 6h

5º dia – dia de sonho materno cor de rosa com direito a fogos de artifícios. Ela dormiu bem, sempre solicitando que meu corpo estivesse encostando-se ao dela, mas pegou no sono em 5min. Entrou no meu quarto as 6h da manhã, subiu na minha cama e disse que queria deitar comigo. Aninhou-se entre nós no maior chamego e voltou a dormir, sem mais nem menos. Não pediu nada. Apenas queria estar conosco. Cheirei o cabelinho dela encostado em mim e dormimos mais um pouco todos juntos.

6º dia, caiu a ficha! – Ela pegou no sono com facilidade. Acordou às 5h, veio para minha cama. PEDIU o mamá! Quando repeti que ele acabou ela começou a chorar desesperadamente. Tentei abraçar, acalmar, conversar. Ela chorava, chorava. Pedia novamente, ouvia a negativa, chorava. Chorou mais do que no primeiro dia. Levamos cerca de meia hora pra acalma-la. Senti que foi esse dia que a ficha caiu que eu estava falando sério que havia acabado. Decerto ela achava que era só uma pausa momentânea. Foi o processo de Luto dela, teve tristeza, choro, raiva. Meu marido ficou até com receio de eu voltar atrás. Mas não, o passo havia dado. Conseguimos acalma-la e começamos o dia mais cedo que o previsto.

7º dia – Pediu massagem com hidratante antes de dormir, dormiu de conchinha comigo, pegou logo no sono e dormiu a noite toda até as 7h

8º dia – Ela acordou a 1h da manhã e disse exatamente o seguinte: “Mamãe, quero um leitinho no meu copinho rosa. Mamá não, o mamá acabou. Eu tomei tudo, ta na minha barriguinha”. E fomos lá pegar o copinho dela, que logo voltou a dormir. Chegamos à aceitação!

Considerações finais

Hoje estamos quase fechando duas semanas sem amamentar. Estamos ótimas. Continuo deitando ao lado dela com blusa fechada, mas ela não pede mais, e dorme com facilidade. Ela já tomou banho comigo e se limitou a fazer carinho, não pediu. Meu peito não encheu, nem ficou dolorido. Está tudo normal. Sinto-me feliz pelos 2 anos e 8 meses de amamentação. De muita nutrição, de muito afeto. Não tenho dúvidas que ela se beneficiou muito desses 32 meses de leite materno, é uma garota muito saudável, nunca fica doente. Estou super satisfeita em ter conseguido desmamar de forma gentil e gradual, sem métodos bruscos, sem mentiras. Eu vejo o benefício disso na compreensão dela. E ao contrário do que dizem certas crenças, amamentar por tanto tempo não a tornou uma criança dependente e ‘apegada’ (no mau sentido), pelo contrário, se adapta muito bem à novas situações. No amamentar ela pôde criar a confiança de ter um porto seguro, de poder avançar quando queria explorar e se refugiar quando precisava acolhimento.

Ela assimilou e aceitou que o mamá, tão precioso para ela, acabou. Não houve nenhuma ruptura com a amamentação. Não foi um corte, uma separação. Foi uma transposição do leite dentro de mim para o leite-amor dentro dela. O meu leite não desapareceu, ele apenas se transformou em uma memória de afeto na barriguinha dela, ela tomou tudo!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Fralda de Pano Moderna - Já pensou em usar?!

"Deus  me livre lavar fralda de cocô na mão"
"Imagina ter que cuidar de recém nascido e ainda ficar passando fralda a ferro e aprendendo dobras!"
"Quero ver na hora que nascer se você vai usar essas fraldas mesmo"
"Fralda descartável é evolução, voltar pro pano é retrocesso!"
"E a água que gasta pra lavar?!"
"No meu tempo tinha igualzinho, era calça plástica e deixava você toda assada"

 


Quantas de nós que já pensamos em usar as fraldas de pano em nossos bebês já não ouvimos essas frases e tantas outras?
Aqui eu encarei o "desafio". Meu chá de bebê foi um chá de fralda de pano. Usei de diversas marcas, nacionais, chinesas, estadunidenses. Testei em diversas situações. Fui pegando o jeito.
Foram práticas? Sim!
Economicas, ecológicas, a pele da minha filha nunca sofreu!
Valeu a pena? MUITO!
Mas sim, teve momentos que me irritei (até pegar a mão do ajuste de algumas marcas), teve momentos que fiquei perdida com as 10mil recomendações diferentes de lavagem nos grupos de fralda de pano, houveram momentos que quis usar a descartável.
Porém me apaixonei pelas fraldas de pano, era ótimo não encher sacos e sacos de lixo diariamente com fraldas. Era ótimo não gastar dinheiro com fralda, era ótimo minha filha nunca ficar assada.
Eram lindas, fofas, deixavam o bumbum lindinho! Fui me adaptando e posso dizer que usei EXCLUSIVAMENTE as fraldas de pano por mais de 1 ano e meio
Sim, até pra dormir a noite, até pra sair na rua.

É possivel! É prático.
Conto tudinho como foi no vídeo abaixo! As alegrias e desafios. Lavagens, ajustes, marcas (usei chikita bacana, nós e o davi, fio da terra, babyland, dipano, bumgenious, fuzzybuns)

 - e no video seguinte eu mostro na prática como é usar as de marcas diferentes, como usar o recheio, fechar, tirar etc. Coisa simples, pra quem ainda tem dúvida de como funcionam


Como usar na prática




Quer tentar usar?! Teste!! Veja marcas diferentes, você se adapta!
Economizei cerca de 2mil reais em fraldas!
Compartilhe essa experiência!

domingo, 16 de outubro de 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

3 vídeos sobre DESMAME! Criança grande mamando - Não aguento mais amamentar - Desmame Noturno

1 - Como saber a hora de parar de amamentar? Amamentação prolongada é só depois dos 2 anos, e tudo bem! Como fica a livre demanda? Quem define a hora de desmamar?



2 - Não aguento mais amamentar! Perturbação da amamentação, saiba o que é isso e quais os sintomas. Sensação de angústia ao amamentar, por que poucas falam disso?


3 - Relato pessoal e bem sincero de como foram as tentativas de desmame noturno aqui (quando ela tinha 2 anos) o que deu certo e o que deu errado! Dicas sobre desmame gradual e respeitoso e como estou levando atualmente esse desmame aos poucos


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Já pensou em ter uma DOULA no seu PARTO?

PRA QUE SERVE UMA DOULA? Vídeo pra quem não gosta de texto ;)

1 - O que é uma doula?

A doula é uma figura feminina que preenche a lacuna criada no ambiente hospitalar da presença de uma mulher apoiando outra mulher. O papel da doula é servir a mulher em trabalho de parto, ela fornece apoio informativo -- considerando que o conhecimento e o acesso a boas informações traz uma forma mais segura e consciente de fazer escolhas -- tirando dúvidas e ajudando a mulher no decorrer do prenatal a entender seus desejos e o que fazer para alcança-los. Durante o parto a douladá suporte físico e emocional e se faz disponível para a gestante sempre que ela precisar. É aquele ombro amigo que entende do assunto, que não vai assustar com histórias nem mitos, que vai acolher e explicar, respeitar e abraçar. Enquanto estão todos preocupados com procedimentos técnicos e com o bebê, a doula tem foco na mãe. E sendo uma profissional treinada ela tem um olhar acostumado com o parto, e isso acalma inclusive os pais presentes, pois a doula age como uma guia etapa após etapa acolhendo as emoções da mulher, sugerindo posições, servindo-a no que ela necessitar, seja uma toalha fria na testa para secar o suor, seja alcançar um copo d'água, ou massagens durante as contrações. A doula é como uma personal trainner de parto, ela está ali para a mulher, e acredita profundamente na força dessa mulher, e dá força verbal para que ela siga em frente, mesmo quando tudo parece difícil, e tem braços fortes para apoiar a mulher físicamente. É alguém que está ali para o que você precisa, mas com um olhar treinado e atento às etapas do trabalho de parto.

 2 - O que uma doula não faz? 
A doula não faz procedimentos médicos ou da enfermagem como exame de toque, aferição da pressão arterial, verificação dos batimentos cardíacos do bebê. Não é papel da doula executar nenhum procedimento técnico nem aplicar nenhum tipo de medicação. A doula também não toma nenhuma decisão pela parturiente, mas acolhe as vontades desta e encoraja a mulher em suas escolhas, auxiliando ela a receber as informações necessárias para fazer escolhas conscientes. A doula também não substitui o acompanhante de escolha da parturiente.

3 - Quais são as vantagens de ter uma doula para auxiliar a vinda do bebê?

As pesquisas têm mostrado que a atuação da doula no parto pode:
diminuir em 50% as taxas de cesárea
diminuir em 20% a duração do trabalho de parto
diminuir em 60% os pedidos de anestesia
diminuir em 40% o uso da oxitocina
diminuir em 40% o uso de forceps.

Há uma frase por John Kennell que diz que "Se a doula fosse um remédio seria antiético não receitar"
A presença de uma doula no parto pode tornar a experiência mais satisfatória pra mulher.


4 - Qual a diferença entre doula e parteira?
Muita gente confunde a figura da doula com a da parteira, porém são papeis extremamente diferentes. A doula não tem nenhuma responsabilidade legal e técnica em relação ao parto. Ela não presta assistência ao parto, ela não é necessariamente um profissional da saúde. Ela auxilia e apoia a mulher em trabalho de parto, dando apoio físico e emocional. Podemos dizer que quem "faz" o parto, é a própria mulher, pois depende dela e acontece no corpo dela, enquanto a parteira (seja ela uma parteira tradicional, uma enfermeira obstetra, obstetriz ou obstetra) assiste o parto (preservando a saúde da mãe e do bebê), e a doula assiste a mulher (provendo tudo que ela necessita no momento). Enquanto a equipe está ocupada com o monitoramento da mãe e do bebê, as avaliações e o cuidado com a saúde, a doula está ocupada com a mãe.



5 - Qual é o papel da doula no parto humanizado?

Antes do parto a doula orienta a gestante sobre o que esperar, explica como acontece o trabalho de parto, e a prepara para os detalhes dessa jornada. Explica os procedimentos, auxilia na escolha da equipe, tira dúvidas, como uma guia que dá um "mapa" do caminho, para que a gestante possa preparar sua "mochila" e saber por onde irá pisar. Durante o parto a doula é a pessoa que muitas vezes vai "adivinhar" o que a mulher necessita, vai procurar garantir seu bem estar físico e emocional, seu conforto térmico, sua alimentação e hidratação, e principalmente dar apoio nas posições, sorrisos nas dores, palavras de incentivo, e vai "traduzir" o que está acontecendo, funcionando como uma interface entre os termos médicos e a parturiente. A doula vai ambientar o local pra que se torne mais aconchegante, ou ajudar a mulher a relaxar com respirações e propor medidas não farmacológicas para alívio das dores, seja sugestões de ir ao chuveiro, posturas ou massagens. No pós parto a doula costuma visitar a família e auxiliar na amamentação e primeiros cuidados com o bebê.

6 - Como encontrar uma doula? 
A melhor forma de encontrar uma doula é procurando grupos de apoio à gestação e parto humanizado na sua cidade. Geralmente são grupos coordenados por doulas, que conhecem outras doulas. Grupos na internet e alguns sites também reúnem o contato de algumas doulas, experientes ou iniciantes. A maioria das pessoas contrata adoula por indicação, o velho boca-a-boca. Muitas doulas começam atuando de forma voluntária, para ganhar experiência, seja auxiliando amigas ou voluntariando em hospitais públicos. Cada doula irá atuar a sua própria maneira e ter seus "pacotes" de atendimento (as visitas e encontros pré e pós parto, o atendimento no parto), o importante é encontrar uma com quem você tenha afinidade e sinta confiança, afinal ela estará lá para você em um momento fundamental na sua vida. Os valores variam de R$500 a R$2.000 reais, dependendo da região do país, da experiência da doula e do que ela agrega em seu atendimento, é uma atenção muito personalizada.

7 - Quem pode se tornar uma doula? Existe curso de doula?

Qualquer mulher com um profundo desejo de ajudar outras mulheres, e total confiança na fisiologia do parto, de que é possivel para as mulheres parirem de forma transformadora, pode se tornar uma doula. Para se tornar doula é importante compreender que a gestante é a protagonista de seu parto, e nós somos apenas coadjuvantes dipostas a nos entregar a uma ação de profundo cuidado e carinho, que pode levar poucas horas, ou muitas, que pode exigir que fiquemos acordadas a madrugada inteira, nos molhemos no chuveiro e sejamos testadas física e emocionalmente. Uma doula não precisa ser necessariamente uma ativista, mas ela não deve aceitar em seu íntimo as injustiças e tudo de errado e violento que ela vê no sistema obstétrico vigente. O compromisso da doula é com a mulher, e apenas com esta. Existem cursos de doulas em diversas cidades brasileiras, e eles dão um preparo inicial, mas a mulher deve procurar também estudar muito por si mesma, e buscar estar sempre se melhorando. No final das contas, a doula é apenas uma serva, mas até para isso é preciso saber servir bem, e isso inclui respeitar as decisões da mulher mesmo quando elas não são as que você tomaria para si, e inclui saber explicar os fatos mesmo quando estes podem desagradar a gestante, pois o que queremos é ajudar as mulheres a fazerem suas próprias escolhas de forma consciente.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Amamentação Prolongada - Depois de 2 anos vira água?!

Ainda existem benefícios no leite materno quando a criança completa 2 anos de amamentação.
Amamentar é uma relação delicada entre mãe e bebê e apenas eles podem juntos decidir a hora de parar. Não há nada de errado em amamentar uma criança de mais de 2 anos, a OMS recomenda pelo menos 2 anos de amamentação, e não no máximo.



Acompanhe mais sobre o assunto no vídeo abaixo!


sábado, 3 de setembro de 2016

Relato de Parto da Juliana Santini Racca - Nascimento do Filipe

Parto Humanizado e Natural em São José dos Campos

Atendendo a alguns pedidos, gostaria de dividir com vocês o meu relato de parto.
Queria deixar claro que jamais criticaria as mulheres que escolheram (e escolherão) caminhos diferentes na hora do parto. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e por isso todas têm o direito de fazer a sua opção. Decidi dividir esse relato porque acredito que ele poderá fazer algumas mulheres buscarem mais informações sobre o assunto, e quem sabe ajudá-las a fazer suas escolhas com um olhar diferente a respeito dos tipos de parto. De qualquer forma, independente da forma que se dá, acredito que a maternidade por si só já é suficiente para transformar – e melhorar – qualquer mulher.


17 horas.
De entrega.
De espera.
De medo.
De coragem.
De concentração.
De dor - muita dor.

As contrações começaram às 3h04 da manhã, já de 4 em 4 minutos, oscilando algumas vezes de 10 em 10, 9 em 9 minutos... Relutei em acreditar que estava em trabalho de parto, então comecei a anotar a hora em que vinham, e voltava a dormir. Porém, uma hora depois, foi inevitável sair da cama.
Aguardei até às 7h00 para ligar para a Flavia, nossa doula, e ter a certeza de que chegava a hora... E então, às 9h00 da manhã, após perder o tampão, eu tive a certeza: Filipe estava cada vez mais próximo!
Um pouco depois, a bolsa estourou, e então a Flávia, que estava acompanhando outro trabalho de parto, mandou sua back up, a Debora.
Entre uma contração e outra, ainda aguentava conversar, ainda ria com as piadas, conseguia pensar em outras coisas.
Meu marido, Raphael, preparou o almoço – eu tinha em meus planos deixar algo pronto para o dia “P”, mas estava esperando que isso acontecesse apenas depois das 40 semanas! E ainda eram 39 semanas e 2 dias!
Seu macarrão ao molho branco ficou uma super “gororoba”, mas ele e a Debora conseguiram comer! Eu não tinha vontade nem forças para isso! Para mim, ele preparou uma deliciosa salada de frutas, que comi bem devagar...
Perdi completamente a noção do tempo, as horas os minutos... Ao mesmo tempo em que minha lembrança me diz que cada contração demorava uma eternidade para passar, me parece que o dia voou!
Por volta das 16h00 a enfermeira Patrícia veio me examinar e então senti um grande gelo no estômago: já estava com 7 cm de dilatação! Era hora de ir para o hospital!
Que mistura de sentimentos... quanto medo...
.
Foram meses estudando, pesquisando, tentando entender que diferença haveria entre um parto normal e um parto natural.
Dentre os inúmeros relatos de parto natural que li, o trecho de um deles me chamou muito a atenção:
“A enfermeira que havia ficado na sala com os olhos estatelados de horror me viu passar sozinha de uma maca para outra. Me elogiou muito, disse que nunca viu nada parecido e admitiu que não teria coragem de enfrentar isso... ...Se privar do prazer de parir é o maior crime que uma mulher pode cometer contra si própria. É absolutamente incompreensível que as mulheres aceitem sentir dor para fazer depilação, para tirar a sobrancelha, para se submeter a uma lipoaspiração, para injetar toxina botulínica, para usar salto agulha, tudo em nome da vaidade e da beleza, e fujam da dor mais libertadora que existe no mundo.
Eu jamais seria hipócrita de dizer que parir sem anestesia não dói. Dói sim! Mas é a dor mais prazerosa que existe, mais transformadora. Clichês à parte, dar à luz um filho de forma natural, fisiológica, sem nenhum tipo de intervenção, é uma força tão transformadora que equivale a nascer novamente. Desde o meu parto me sinto tão poderosa, tão forte, tão mulher, segura e determinada que quase mais nada me amedronta. Me sinto pronta para viver de verdade.”
http://www.maternidadeativa.com.br/relato13.html

Fiquei tão emocionada e ao mesmo tempo intrigada com esse depoimento, que o lia quase todos os dias, de forma a me motivar a manter minha decisão até o fim. Nunca havia pensado na dor do parto desta forma, e, como mulher vaidosa – e muito – que sou, não pude deixar de pensar e repensar em todas as coisas que faço em nome da beleza, e que me causam tanto sofrimento e dor: andar naquele sapato de salto alto super desconfortável, mas bonito; depilação de 3 em 3 semanas com cera quente (já me dá calafrios só de pensar na próxima!); malhar pesado na academia; entre outros procedimentos dolorosos aos quais me submeti e me submeto pela beleza... Acho que me senti desafiada, e tive vontade de ir até o fim!

Ao ser apresentada a esse novo mundo de diferenças entre os tipos de parto, nesse processo de conhecimento e descobertas, algumas pessoas foram fundamentais, e sem elas eu não teria alcançado meu “Everest”:

O meu muito obrigada ao meu marido, Raphael, que não só entendeu minha vontade, como se prontificou a estar ao meu lado em todos os momentos. E assim foi: leu vários livros, vários relatos, assistiu a vários vídeos comigo, acompanhou minhas consultas de pré-natal sempre muito curioso, buscando as respostas para as dúvidas que nos atormentavam, participou de palestras e cursos comigo, juntos encontramos nossa doula...
Mas, mais importante, esteve ao meu lado desde a primeira contração, às 3h04 da manhã, daquele lindo dia 16 de agosto de 2012. Aguentou firme a ansiedade e o nervosismo, não me deixando perceber nada, sempre demonstrando muita calma e principalmente muito carinho.
E me agüentou também – literalmente – pendurada em seus ombros durante 1h30 na fase de transição. Devo essa conquista a muitas pessoas, mas se tivesse que escolher apenas uma delas para passar por tudo novamente, essa pessoa seria você.
Meu lindo, minha vida, meu amor... A você, meu muito obrigada por estar ao meu lado, recebendo em nossos braços o nosso maior presente, nosso filho Filipe.

Agradeço imensamente à minha GO Dra. JulianaPaola Melhado Lima.
Fiquei surpresa ao descobrir, já na primeira consulta, sua preferência pelo parto normal – uma escolha um tanto quanto rara entre os profissionais da área.
Mas me surpreendi mesmo ao ver seu sorriso se abrir ao auscultar o coraçãozinho do Filipe pela primeira vez. Seus olhos cheios de emoção e seu sorriso cheio de alegria fariam qualquer um acreditar que era a primeira vez na vida que ela fazia aquilo. Mas não, ela faz isso todos os dias, e ainda assim consegue se emocionar a cada batida de coração que ausculta, pois, acreditem, foi assim durante os 9 meses de consultas.
Quando agradecia a ela por tudo, ainda na maternidade, e fiz esse comentário, sua resposta foi um tanto óbvia: “é sempre assim, Ju, e vou te dizer o porquê: porque eu amo o que eu faço.”
A mim, não restam dúvidas!
Quando perguntei, aos 5 meses de gestação, sobre a possibilidade do parto natural, nunca me recriminou, e disse que o faria sim, desde que eu e o Filipe estivéssemos bem. E assim foi: segurou minha mão quando preciso e me motivou até o fim; sabendo da minha decisão pelo parto sem intervenções, em momento algum me ofereceu qualquer tipo de alívio para dor. Quanto respeito pela minha escolha!
Ainda no quarto, enquanto aguardávamos o período final, pediu meu Plano de Parto – como ela poderia se lembrar? Em uma consulta, que nem me lembro quando, eu disse que faria um plano... e nunca mais falamos sobre isso!
Elaborei meu Plano de Parto da maneira que sonhava, mas jamais imaginei que ele pudesse ser seguido. Pedia um nascimento suave – parto Leboyer – o que implicaria em um ambiente calmo, luzes bem suaves, temperatura ambiente, aguardar o cordão umbilical parar de bater antes de cortá-lo, entre outros procedimentos que eu jamais acreditaria que pudessem ser realizados dentro de um hospital.
Além disso, ela foi atrás do pediatra neonatal para garantir também que o pós-parto fosse do jeito que eu queria: Filipe direto no meu colo depois do nascimento, amamentar, aquecê-lo em meu colo, tê-lo no quarto comigo logo após o seu banho... enfim, criar o vínculo mãe-bebê o mais rápido possível.
Às 20h07 do dia 16 de agosto de 2012, pesando 2.960kg e com 48 cm, Filipe veio ao mundo numa sala obstétrica onde todas as luzes estavam apagadas (a iluminação vinha apenas de fora da sala, pelo vidro da porta) e o ar condicionado estava desligado - o mais próximo possivel das condições em que se encontrava aqui dentro de mim. Sei que existem formas muito mais naturais e suaves de transição, mas dentro das minhas possibilidades (leia-se: total falta de coragem/vontade para um parto domiciliar), eu acredito que tenha sido, sim, um parto muito humanizado.
Obrigada, Dra Juliana, muito obrigada por me proporcionar algo que eu jamais imaginei ser possível! Você é muito especial!

À queridíssima Renata Machado, professora, mestra, amiga...
Rê, você foi luz na minha gestação e sei que continuará sendo luz no meu caminho.
Quanto carinho, quanta entrega, e quanto prazer você tem em ajudar suas “barrigudinhas” a caminhar na gestação de uma forma tranquila, positiva!
Obrigada por me apresentar esse mundo novo do parto natural, e me motivar a procurar respostas para todas as minhas perguntas, por me apresentar a Roda Bebedubem, por me acolher em seu grupo com tanto carinho, por me fazer entender o tal “empoderamento”!
Sem sombra de dúvidas, sem minhas aulas de yoga e as seções de “yogaterapia” eu jamais teria conseguido!
Minha respiração me sustentou e me garantiu forças até o fim, e sem seus ensinamentos teria sido muito, muito mais difícil... Saiba que lembrei de você em muitos momentos do meu trabalho de parto! O mantra “entrego, confio, aceito e agradeço”, ficou na minha cabeça o tempo todo - enquanto conseguia raciocinar.
Não tenho palavras suficientes para agradecer por tudo que me ensinou; levarei todas as lições comigo para o resto da vida!
Namastê!

Às minhas queridas doulas Flavia Penido e Debora Regina Magalhães Diniz.
Flavia por “doular” minha cabeça e meu coração, me preparando com tanto carinho e doçura para este momento. A cada reunião descobríamos algo novo, tirávamos nossas dúvidas, e crescia nossa esperança em conseguir chegar lá.
Obrigada por me tranquilizar tanto em relação a não conseguir chegar até o final sem intervenções. Quando te falei sobre o meu medo da dor, achei tão legal você me dizer que era ótimo não só ter esse medo, mas assumí-lo... Pra mim era inevitável pensar em tudo e não sentir esse medo horrível do desconhecido. Obrigada por me mostrar que sou humana, e por isso existia a possibilidade de não conseguir mesmo. Mas o fato de ter você – que já passou por essa experiência e acompanhou tantas outras mulheres e seus partos – me dizendo que é normal sim não conseguir, tirou um peso e tanto dos meus ombros. Acredito que essa leveza na minha alma tenha me deixado mais segura e tranquila...
Infelizmente, durante meu trabalho de parto você estava acompanhando outra gestante, por isso enviou a Debora em seu lugar. Graças a Deus você tinha um back up!
Debora, nem tenho como agradecer por todo carinho com que cuidou de mim... Obrigada pelas massagens – quanto alívio!!! – pelas palavras de motivação e incentivo...
Como era bom ter você ao meu lado me lembrando de não lutar contra a próxima onda, mas de me entregar a ela, de pensar em todas que já haviam passado, no tanto que eu já tinha sido forte... Como foi importante ter alguém me apoiando fisica e psicologicamente, como foi bom ter alguém que sabia exatamente o que estava acontecendo comigo e com meu corpo...
Não faz idéia da mistura de alegria, medo (mais medo? rs) e alívio que senti ao te ouvir dizer “bem-vinda ao expulsivo!” Seu incentivo, sua voz doce e baixinha, e sua mão pra me apoiar fizeram toda a diferença e eu garanto: sem as doulas também não teria conseguido chegar lá!
Que trabalho lindo vocês realizam! Que privilégio deve ser acompanhar e ajudar tantas mulheres a realizarem seus sonhos!
Obrigada, obrigada e obrigada!

Amiga Teca, era pra você estar lá com a gente... Mas tudo aconteceu um pouco antes do que imaginávamos e foi assim... Você ali, na porta do centro obstétrico ouvindo sua amiga e o choro de boas-vindas do Filipe... Você estava do lado de fora da sala, mas seu coração estava lá dentro com a gente, eu tenho certeza disso!

Hoje, 18 dias após o nascimento do Filipe, agradeço também todo apoio e carinho dos meus familiares e amigos neste pós-parto... Não compartilhei minha escolha com todos vocês, mas tinha meus motivos. Saber que estão tão orgulhosos quanto eu por ter conseguido me deixa muito, muito feliz!
Agradeço em especial meus pais e minhas irmãs, pela acolhida, pelo carinho, pela dedicação com o primeiro neto/sobrinho... Com vocês este começo está sendo muito mais fácil!

Enfim, foi uma grande jornada... De 39 semanas, 2 dias e 17 horas.
E receber em meus braços como recompensa o maior amor do mundo, faz tudo não só valer a pena, mas ter a certeza de que faria tudo de novo mais 100 vezes se preciso fosse.
Porque, depois de passar por tudo, hoje entendo e faço minhas as palavras da minha querida tia Ana Sá: “eu pude experimentar, na Terra, um pedacinho do Céu...”
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