Uma doula ao atender um parto
está o tempo todo fazendo escolhas. Como ajudar mais? Como atrapalhar menos? Na
maioria das vezes a gente sente, está no ar, está no silêncio, nas expressões
faciais, nos murmúrios e gestos. Não está nas palavras.
Optamos por apagar uma luz, por
sugerir ou não uma posição, por massagear ou não durante uma contração. Estamos
o tempo todo sentindo e avaliando, observando amorosamente como deixar a
gestante mais confortável, ou diminuir alguma interferência. Um suor na testa
para secar; um gole de água para ajudar a tomar; um sorriso, um gesto ou
simplesmente cuidar do “resto” para a mulher poder ficar em paz em seu trabalho
de parto, sem ter que atender outras demandas, responder perguntas, se preocupar.


Doula é apoio, é apoio quando
aquela mulher, de pé, se depara com uma contração que toma todo o seu corpo, e
estando de pé às vezes não consegue uma posição a tempo -- antes da contração a
preencher por inteiro. A doula dá a si mesma, seu corpo de apoio, sua mão para
manter o foco, seus ombros para segurar. “Aqui estou”, e a mulher pode se
entregar à onda que a atravessa.
As vezes queremos ajudar, e na ânsia
de incentivar atrapalhamos. O que dizemos marca, pode tirar o foco, gerar
culpas. É um comentário mal colocado que remete a uma memória ruim, uma palavra
mal usada que lembra sentimentos de fraqueza; ou o contrário. Palavras são
carregadas! Também podem gerar presença, conforto. Incentivo alegre pode dar
força, torcemos e rimos a cada contração mais dolorosa... ôoo dorzinha boa! “Era
isso que queríamos não é mesmo”? E um sorriso lembra a mulher que sim, era
aquilo mesmo que ela queria, sim que dor boa e bem vinda!
Difícil é calar, é permitir dar
vazão pra tudo aquilo fluir sem interferência -- não apenas das intervenções do
médico, mas até mesmo das interferências de “vamos fazer isso” “vamos fazer
aquilo”. Perguntam-me se faço acupuntura durante um trabalho de parto: raramente. Uma mulher parindo não precisa de tratamentos, ela só precisa ser
deixada parir.
Trabalho de parto é muito
delicado. Podemos dizer palavras de incentivo, podemos ser leves e tirar
algumas risadas e ajudar a descontrair o ambiente, podemos ser firmes na hora
que bate aquele medo. Mas muitas vezes somos silêncio que abraça. E ao não
fazer nada, permitimos que a mulher possa ser tudo, pois o parto não é sobre
nós, é sobre elas, é sobre aquele bebê, aquela família. É muito mais sobre saber ouvir do que sobre saber falar...
Somos, as doulas, vela acessa na
escuridão. Não somos sol. Sol é a mulher parindo, ela só precisa descobrir-se
sol. A doula é vela, tímida, ilumina mas não aponta o caminho igual lanterna,
não fala “é por aqui”, apenas sugestiona, dá a mão, pergunta “quer ir junto?”.
A doula é vento que sopra as nuvens pro sol brilhar. E como brilha! E Raia o dia,
chega a luz, vem o bebê iluminar. E a doula se recolhe, e continua apoiando.
Texto belíssimo. Toda minha admiração e respeito por essa profissão tão desafiadora.
ResponderExcluirAbraços sororais,
Giovana, Brasília