sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Relato de parto da Emily - pela mãe Nathaly

Deixo aqui o Relato de parto assim como a mãe escreveu:


O Relato de Parto da Emily (08/07/13)

“Deus me deu a fórmula de um amor que só cresceu dentro de mim
amar alguém me deu princípio e meio, mas não me revelou o fim
e dividir meus sonhos com alguém só fez somar
a ideia de amanhã ser mais feliz
multipliquei minha força de vontade com a coragem de uma mulher
e o resultado disso tudo foi os grãos de fé
um edifício de amor resistindo aos vendavais
o amor me trouxe coisas sobrenaturais”.



Nunca imaginei que a letra dessa música, que cantei para Emily no dia 11 de maio, no chá de fraldas, pudesse se tornar tão real em minha vida.




A descoberta da gravidez

Emily foi uma filha planejada. Cerca de 6 meses antes de engravidar, 
eu comecei a fazer atividade física intensa e acompanhamento nutricional para emagrecer, já na expectativa de engravidarmos estando no “peso saudável”. Dentre os desafios do emagrecimento, eu me preparei para a minha primeira corrida no dia 21 de outubro (5km McDonalds). Na corrida, eu senti que meu corpo estava diferente; resolvi, então, na segunda-feira, dia seguinte, comprar um teste de farmácia.  

Fiz o teste e... buum!!! a novidade! estava grávida, "para nooooossa alegria"! Engravidamos na primeira tentativa. Fiz o teste de sangue para confirmar; depois disso era só festa. Entrei em contato com a GO fofa que já me atendia há mais de 5 anos, e fizemos nossa primeira consulta pré natal.
Depois disso, tudo foi correndo normalmente: consultas mensais, exames de sangue e ecografias; nossa bebê estava crescendo e se desenvolvendo perfeitamente. Nós seguimos comprando as coisas do enxoval e planejando a chegada da nossa princesa. 



Estudando o assunto: tipo de parto e assuntos correlatos

Desde o início eu queria o Parto Normal, pois sabia que seria a melhor opção para mim e para minha filha. 
A GO, durante as consultas, nunca abordou o tipo de parto que eu queria. Assim, por volta da 30ª semana, resolvi perguntar se ela fazia parto normal; ela me respondeu sutilmente que só faria parto normal se fosse particular. 
Eu pensei: “como assim??".
Quer dizer que a cesárea o meu plano de saúde cobre, mas o parto normal não?
Isso me deixou com a pulga atrás da orelha. 
Comecei então a pesquisar sobre o parto normal: como seria, quais intervenções existem. Fui a fundo em minhas pesquisas, comecei a ler muitos artigos, acompanhar vários blogs. 
Foi então que descobri a existência da DOULA, um tipo de profissional que, com suas experiências, com apoio físico e emocional, ajudava as mulheres mulheres antes, durante e após o parto, algo que muitas vezes um parente com boa vontade não conseguiria suprir. 
Li sobre o papel da doula no trabalho de parto e comecei a compartilhar essas novas informações com meu marido (Tiago), que desde o primeiro momento me apoiava na decisão do parto normal. 
No primeiro momento que falei com ele sobre a doula, ele foi resistente; pediu que eu me informasse mais a respeito, pois, segundo ele, a profissão de doula poderia ser apenas uma forma de ganhar dinheiro, em vez de ajudar as pessoas.
Por meio de várias leituras, fixei na ideia da doula, pois, de acordo com vários relatos, a doula era uma peça fundamental de apoio à mulher, pois a presença da doula reduzia em torno de 50% a chance de cair em uma (desne)cesárea. 
Pesquisei as doulas em Brasília, dentre as quais contatei a Érica de Paula, criadora do grupo de Gestantes “Renascimento do Parto”, bem como do documentário que está sendo exibido nos cinemas desde o dia 09 de Agosto, o "Renascimento do Parto".  A partir desse contato, fui inserida num fórum de debate sobre questões de gestação, parto e maternidade num grupo de email. Meus conhecimentos foram enriquecidos neste grupo.
No começo queríamos apenas o parto normal, contudo descobrimos que havia muitas diferenças entre o parto normal hospitalar e o parto humanizado. Diferenças que envolviam a mim e minha filha, as chamadas intervenções desnecessárias, como a episiotomia, a ocitocina sintética,  a anestesia, a manobra de Kristeller, e todo o restante do “pacote” do parto hospitalar.


Primeiro encontro com a doula

Nos debates do fórum (o grupo de email), conheci a Alaya, também doula e coordenadora  do Grupo Renascimento do Parto, juntamente com a Érica.
Depois de ler suas respostas e seus artigos de blog, resolvi contatá-la.
Assim, Tiago e eu fomos nos encontrar com ela no dia 23/05. A empatia foi instantânea. Ela foi muito atenciosa; conversamos bastante sobre as minhas expectativas em relação ao parto. Levei para ela o meu Plano de Parto; ela foi abordando cada item do plano e esclarecendo as dúvidas.
Falamos também sobre a minha GO; ela foi bem clara comigo dizendo que a GO que estava me acompanhando dificilmente toparia o meu plano de parto; que, se eventualmente ela fizesse o Parto Normal, seria com todas as intervenções que os médicos costumam fazer.
Enfim nossa conversa foi muito esclarecedora; naquele momento tive a certeza de que era ela quem eu queria ter ao meu lado na hora parto.



A mudança de obstetra

Destaco aqui o grupo fechado do facebook “Cesárea? Não, Obrigada!”, que me ajudou a ter a convicção de que eu não teria o meu esperado “Parto Humanizado” com a GO que estava me acompanhando, pois identifiquei claramente nas consultas que ela era cesarista e que na última hora ela inventaria alguma coisa para me empurrar uma cesárea.
Ainda na sala de espera, aguardando uma consulta, perguntei à secretária dela quantos partos normais ela havia feito nos últimos meses. A secretária respondeu que nenhum, pois a médica só fazia cesárea. 
Na 35ª semana, quando levei minha ecografia à GO, ela disse que minha Emily já estava em posição cefálica (o que facilitaria o Parto Normal), porém estava com circular de cordão, o que para ela era indicação para uma cesárea.
Como eu já havia lido sobre as REAIS indicações de cesárea, dentre as quais não consta o caso da circular de cordão, resolvi mudar de obstetra (que por sinal nem me ligou até hoje! afinal, com agenda cheia dificilmente ela se lembraria de mim, né?!) 
Decidi procurar uma médica obstetra humanizada, a Dra Caren Cupertino, da qual eu já havia obtido boas referências em vários relatos de parto. Além disso, uma colega do meu marido teve uma ótima experiência com ela.  
Ufa! Marquei a minha primeira consulta com ela, dia 29 de maio.
Nesse intervalo, houve um encontro do grupo de Gestantes Renascimento do Parto cujo tema foi "Tipos de Parto" (parto hospitalar, domiciliar, casa de parto). Também abordaram-se as diferentes formas que a mulher pode escolher para parir. O encontro foi muito bom e esclarecedor. Encontrei várias gestantes que também estavam sendo acompanhada pela Dra Caren.


Primeira consulta com a nova GO

Na primeira consulta com a Dra Caren, dia 29/05, a empatia foi inevitável. Ela é doce, muito atenciosa e receptiva. Conversamos sobre o plano de parto. Embora eu houvesse esquecido em casa, ela parecia já o conhecer totalmente. 
Por exemplo:
- Enfatizou os procedimentos que ela não indica, como episiotomia, tricotomia, manobra de Kristeller;
- a posição de parir era segundo a conveniência da gestante;
- não usa ocitocina como rotina;
- a gestante teria liberdade para se levantar e se movimentar no trabalho de parto;
- o exame de toque só seria feito se realmente necessário;
- o cordão umbilical só seria cortado após parar de pulsar. 
Na hora eu pensei que nem precisaria trazer o plano de parto, pois ela havia lido meus pensamentos. 
Então se iniciou o laço de amizade. A cada novo retorno, a Dra Caren se fez mais presente em nossas vidas e clareava as nossas dúvidas e medos.
Já nas primeiras conversas comentamos sobre as intervenções que o recém nascido poderia sofrer em um Parto Hospitalar, algo que muitas vezes fugia da alçada dela, pois dependeria do pediatra responsável pelo plantão. 
Eu não queria que minha filha sofresse com os procedimentos usados como rotina pelos pediatras nos hospitais; por exemplo, não queria que fosse aspirada, nem que aplicassem nitrato de prata no olho dela, muito menos que fosse tirada do meu colo de imediato. Eu queria amamentá-la já nos primeiros minutos de vida.
Essa questão foi um dos motivos que me fez aceitar a possibilidade do parto domiciliar.


A Escolha pelo Parto Domiciliar Planejado (PDP)

A ideia de PDP já tinha sido aprovada pelo meu marido, que desde o início dava todo apoio. Eu ainda tinha dúvidas, pois pensava que o hospital me daria mais segurança caso ocorresse alguma situação emergencial.
A lista de motivos e motivações que nos levaram ao PDP é extensa. Há artigos por aí que tratam sobre isso. Relatarei, porém, um evento particular que favoreceu fortemente minha decisão.
Na palestra do grupo Renascimento do Parto, encontrei uma amiga gestante que fazia academia comigo. Na saída, conversamos, e ela me apoiou na escolha do PDP, que também era a opção dela. Ela disse: "Nathaly, vamos parir em casa, é a melhor opção!". Eu pensei: "se ela e o marido, que são médicos, querem fugir do ambiente frio hospitalar, por que eu ainda estava em dúvida?".
Depois dessa reflexão, tive a certeza de que eu queria o PDP.
Resolvemos, porém, não comentar nossa decisão com ninguém, pois era algo muito novo; e entendemos que as pessoas não estavam prontas para entender e aceitar sem questionamentos, comentários e palpites desnecessários. Afinal, os comentários de amigos e de familiares eram sempre voltados para o "status quo" do parto hospitalar, principalmente a cirurgia cesariana. Muitos duvidavam que eu fosse capaz de parir! Qual não seria o desespero se soubessem de um PDP? 
Decididos, acordados com a Dra Caren, contatamos a enfermeira obstétrica que comporia a equipe no PDP: Melissa Martinelli, da Equipe Humaniza.
Marcado um dia, ela veio me visitar no meu apartamento.
Na visita, ela me explicou tudo sobre o PDP, sobre seu papel no dia do parto, sobre os equipamentos que ela traria, assim como quais os materiais eu precisaria adquirir. Também me perguntou se eu estava preparada para o parto natural, para a dor.  Mas... quem está? Eu não estava... porém, desde quando decidi parir, sabia que a dor seria inevitável. A satisfação de conseguir parir eu levaria por toda a vida! 
Respondi que estava trabalhando o meu psicológico para lidar com as dores em seu devido momento. Em pelo menos uns 30 relatos de parto que li, busquei saber como as outras mulheres lidaram com o trabalho de parto. Isso me deu mais experiência teórica e preparo para encarar o que viria a acontecer no meu parto, pois saber o que outras mulheres conseguiram e suportaram me dava forças para acreditar que eu também conseguiria. 
Pronto! A equipe estava completa. Agora era esperar o tempo da Emily.


A espera... 37, 38, 39, 40, 41 semanas e 3 dias

Eu já estava me preparando para Emily vir depois de 40 semanas, pois sabia que, de alguma forma, Deus iria trabalhar a minha ansiedade. Assim, descansei. 
Com 37 semanas, eu me afastei do trabalho. Pensei que ficar em casa seria um desafio, pois eu ficaria mais ansiosa por conta do ócio e consequentemente descontaria na comida. Graças a Deus, porém, não foi bem assim! 
Aproveitei para descansar, dormir bastante. Eu dormia quase o dia inteiro, já imaginando em um banco de horas de sono! rs! Quando a bebê nascesse, eu imaginava que não conseguiria ter mais o sono regular. 
Continuei fazendo atividade física 3 vezes por semana (hidroginástica e ginástica solo).
Terminamos de organizar o quartinho. 
Compramos todo o material do PDP, incluindo a piscina inflável, a qual já deixamos inflada algumas semanas antes. Deixávamos a casa sempre limpa e organizada e a geladeira abastecida.
Preparei também a mala da maternidade, com coisas para mim e para a bebê, caso fosse necessária a transferência para hospital.
A data provável do parto (DPP) era dia 28/06/2013. Eu conversava com a Emily para ela vir depois do dia 25/06, pois não queria que ela nascesse no meu aniversário. Eu queria que ela tivesse uma data só dela.



Reta final

No meu aniversário, dia 25/06, conseguimos sair pra jantar e comemorar. 
No dia seguinte, dia 26/06, comecei a perder o tampão mucoso. Fiquei feliz pois era um indicativo de que Emily já já estaria prontinha para vir ao mundo. O tampão continuou saindo nos dias seguintes. 
Na DPP, nada da Emily. 
Na consulta obstétrica, o tempo era aguardar até 41 semanas, para então fazer alguns métodos naturais de indução, como acupuntura. Também me foi pedida duas ecografias, a de 40 semanas e a de 41 semanas. 
Na ecografia de 40 semanas e 5 dias, a médica (ecografista) afirmou que a neném estava ótima, que a placenta estava grau III de maturidade, que estava tudo pronto para Emily nascer. Ela enfatizou que era a última ecografia. Todavia, poderia não ser, pois o prazo do bebê é até 42 semanas, ou seja eu ainda poderia fazer mais uma ou duas ecografias.
Alguns ecografistas fazem terrorismo quando uma grávida aparece com mais de 40 semanas. Não foi bem o meu caso, mas eu estava preparada caso passasse por isso. No meu exame, por exemplo, a médica se admirou de eu querer parto normal, mesmo com o prazo de gestação e da circular do cordão.
Na minha última consulta obstétrica com a Dra Caren, ela me esclareceu quais seriam os passos para a indução a partir de 41 semanas. Depois da sessão de acupuntura, haveria um toque (seria o meu primeiro toque em toda a gravidez, isso sim é uma médica humanizada! No meu plano de parto eu disse que só queria exame de toque quando fosse realmente necessário), o descolamento de membrana seria feito no dia 08/07, com 41 semanas e 3 dias, entre outros métodos, para só em último caso usar pequenas doses de ocitocina sintética. Quanto ao meu receio de deixar de ter um PDP por conta de induções, não havia impedimento, em caso geral. Isso me deixou bastante tranquila.
Um dia antes de completar 41 semanas, marquei uma sessão de acupuntura com minha doula, Alaya, para induzir o parto. 
Eu nunca tinha feito acupuntura; gostei bastante da experiência. A Alaya também fez um chá forte estimulante. Eu me senti muito bem depois disso. 
No dia seguinte, 41 semanas, dia 05/07, sexta-feira, fui à academia fazer minha última aula e me despedir das minhas colegas. Malhamos, conversamos, nos despedimos.

A véspera do trabalho de parto

Sábado, dia 06/07, foi um dia bem tranquilo. Pela manhã, houve "slingada" na academia, que é um evento que fala sobre "wrap sling". Muito bom! Embora eu já tivesse um sling, ainda não sabia bem como utilizá-lo.
Saí com o Tiago para comprar uma ou outra coisinha para o enxoval. 
À tarde, ficamos  à toa, quando senti involuntariamente sair o resto do tampão juntamente com um líquido transparente. Provavelmente era a bolsa, com seu respectivo cheiro de água sanitária. Mas era tão pouco, que cheguei a duvidar. Eu gostaria que fosse tudo de uma vez, mas não foi! 
Fiquei muito feliz, pois sabia que eu me tornaria mãe logo logo.
Para relaxar, fui assistir filme com o maridão.
Senti mais intensamente as contrações de treinamento (eu as tinha desde a 35ª semana). 
Baixei o aplicativo "Contraction Timer" para Android. Ele me auxiliou na contagem das contrações. Inicialmente estava tranquilo, indolor, com espaçamento de 30 e 40 minutos. Depois, fomos dormir.

Domingo, dia 07/07, que data bonita. "Emily pode até nascer hoje", pensei. 
Continuei perdendo líquido em pequena quantidade. 
    Prossegui o dia normalmente, organizei o que eu podia, chequei se a dispensa e a geladeira estavam abastecidas. 
Por volta das 14h, desabafei com meu marido: “Por que as coisas não podem ser normais comigo? Por que o líquido está saindo aos poucos? Geralmente nas outras mulheres sai tudo de uma vez. Como vou ter certeza de que é líquido da bolsa mesmo?” 
Não demorou muito, por volta das 15h, senti forte vontade de ir ao banheiro. Já no caminho, senti um jato de água escorrer, que molhou todo o chão. Depois disso tive certeza de que era a bolsa mesmo.  Ainda assim, continuou vazando líquido durante o restante da tarde e da noite, de modo que fui orientada a usar absorvente noturno. 
Contatei a Alaya para relatar o ocorrido. Fiquei de comunicá-la assim que a situação evoluísse para constrações regulares. Também comuniquei a Dr. Caren, que me orientou a observar a movimentação da bebê e seu ritmo. A consulta do dia seguinte continuava confirmada, caso o trabalho de parto não evoluísse.
Também comuniquei a Melissa, enfermeira obstétrica, que eu desejava fazer caminhada para acelerar o trabalho de parto. Ela me aconselhou a descansar para guardar as energias para quando o trabalho de parto ativo iniciasse. 
Para relaxar, tomei um banho e saí com o marido para fazer um lanche noturno fora, por volta de 19h. Eu estava com vontade de tomar cappuccino e comer biscoito de queijo. Mesmo com a bolsa rota, fomos andando para a lanchonete. 
Feliz e satisfeita, eu já poderia descansar e esperar pelas contrações.
Eram 21h45 quando tomei um chá de canela; comecei a sentir algumas contrações mais fortes, mas nada absurdo. Estavam com intervalo entre 8 a 10 minutos, durando cerca de 1 minuto. 
Contatei a Alaya, que se prontificou a vir na hora que eu quisesse. Decidi controlar a ansiedade, relaxar e dormir.  "Maravilha! minha pequena logo logo estará em meus braços".

O Trabalho de Parto

Durante a madrugada, as contrações foram aumentando.
Consegui descansar pouco. Fui para o chuveiro e tomei uns 3 banhos. Fiz exercícios na bola. A dor era completamente suportável e contornável com os exercícios, mas por volta de 4h30 acordei meu marido para decidir se chamaríamos logo a doula, já que as contrações estavam de 5 em 5 minutos. E o medo de não dar tempo de ela chegar? Após mais um banho, sem aumento do intervalo das contrações, decidimos ligar para ela, afinal eu havia sonhado que a neném nascia antes da equipe chegar! Era o medo aparecendo no sonho!  Liguei para Alaya, que chegou por volta de 5h30. Sua companhia trouxe a segurança e o calento necessários para que eu conseguisse relaxar, tanto que o intervalo das contrações aumentou um pouco.
Iniciamos a preparação das coisas.
Por volta das 6h30, tomei meu café da manhã. A piscina começou a ser enchida. Tiago ajustou a filmadora. Conversamos e aguardamos. As dores foram aumentando, a Alaya me fez massagens e acupuntura.
Cerca de 11h30, a Melissa chegou, quando as contrações já estavam bem intensas,  eu já estava gemendo o tão típico "ahmmmmmmm". Ela então fez o primeiro exame de toque da gravidez, para ver o progresso do TP.  Segundo ela, eu já estava com 6 cm de dilatação, mas a bolsa estava intacta. A dedução então foi que a rotura da bolsa ocorreu na parte de cima. Nestes casos, o risco de infecção é mínimo, é como se não houvesse rompimento da bolsa. 
O melhor de estar em casa é que eu podia me movimentar, ficar na minha cama, no sofá, tomar quantos banhos quisesse, beber água, comer, ver televisão, ouvir música, estar na internet, e tantas outras coisas que faço em casa. 
Nas horas que se passaram, a dor aumentava, e fui testando qual lugar era mais confortável. Fui para o chuveiro e fiquei um tempo sentada na banqueta, sob a água quente, que caía nas minhas costas. Eu já não conseguia comer nada há horas, porque tudo que eu comia eu punha para fora de enjoada.
As massagens da Alaya eram consoladoras, bem como o apoio do meu marido, foram coisas que naquele momento me deram mais forças. 
E olha que ainda havia muita coisa por vir. 
Com as contrações cada vez mais intensas, gemendo cada vez mais alto, a equipe pediu para que eu tentasse dormir, pois eu já estava exausta, com fome (sem almoçar nem comer há muitas horas). 
Deitei num sofá, sozinha num quarto, e consegui ficar em silêncio lá durante uns 15 minutos.  
A cada contração eu pedia forças a Deus para aguentar o que estava por vir. Foi um momento de completa introspecção; sozinha eu orava. Escutava minhas músicas, da trilha sonora que eu havia de antemão preparado. Uma música que me ajudou muito “Forever", do grupo Hillsong Music Australia. Este hino de louvor entrou na minha alma e me fez refletir o quanto Deus havia sido bom comigo, em toda a maravilhosa gestação, em todos os momentos que eu estava passando. Ele estava me preparando para ser uma pessoa melhor, para ser a mãe que Emily precisa ter.
Sim, consegui conter os gemidos só pra mim; fiquei por uns 15 minutos assim, calada. Nada de descanso, apenas eu e Deus. Um momento só nosso. 
Por conta desse tempo calada, todos pensaram que eu havia conseguido dormir e relaxar... mas não era assim.
Novamente, por volta das 14h30, a Melissa fez um outro toque; eu continuava com 6 cm. Eu não entendia por que estava demorando tanto. Nesse momento, a Alaya, minha irmã e o Tiago já estavam esquentando a água da piscina, pois eu já queria muito entrar.  Eu sabia que a piscina seria meu refúgio, mas demorou a esquentar. Pelas contas do meu marido, para esquentar 500 litros de água, a partir 400 litros de água na piscina, seriam necessárias umas 25 a 30 panelas de água fervendo. Até lá, fiquei entre chuveiradas e massagens para aguentar as contrações.
Finalmente, por volta de 15h50, entrei na piscina. Já estava no final da fase de transição, no início do expulsivo. Foi nesse momento que eu conheci a tão comentada “partolândia”. Eu estava completamente fora desta dimensão. rsrs 
Eu não entendia direito o que conversavam comigo, não consegui perceber quase nada do que estava acontecendo fora da piscina. Só pensava em mim e na chegada da Emily, e em como controlar e suportar a dor. 
A cada contração, eu clamava forças a Deus. 
Então eu comecei a sentir uma vontade de fazer força em cada contração. Quando eu pensei em desistir, pois achava que não aguentaria a dor e dizia “eu não aguento mais", eu não tenho força”, Melissa me disse "o que não falta em você neste momento é força". Alaya confirmou “Nathaly, você é forte, você consegue, se entrega pra dor!" Eu pensei: "como me entregar pra dor mais do que já me entreguei?"
Melissa pediu para fazer mais um toque. Foi quando se constatou que eu já estava com 10cm de dilatação, que já dava para sentir a cabeça da neném. Ela então comentou que a neném estava nascendo. Neste ínterim, o interfone já havia tocado umas duas vezes, e o porteiro já havia batido na porta para saber se estava tudo bem, pois alguma(s) vizinha(s) se assustou(aram) com os meus gritos.
Mais uns 2 gritos, e eu estava no expulsivo (SIM! a leoa que existia dentro de mim havia despertado; eu gritava muito). 
Tamanha era minha dor que meu marido, que não fazia a menor questão de entrar na piscina, se ofereceu para entrar. Mesmo sem esboçar reação objetiva, ele entendeu claramente que eu queria sim. 
Meu amor entrou e me apoiou bastante. A cada contração, ele segurava minha mão e dizia que eu era forte, que eu aguentaria. Ele perguntava se eu queria mudar de posição, se eu estava confortável. Em alguns momentos, mudei de posição, até que encontrei a posição mais confortável. Eu já havia perdido a noção do tempo; cada minuto era uma eternidade, pois a dor já estava no ápice. Cada vez que eu pensava em desistir, eu lembrava do que a Dra Caren me disse “Quando a dor estiver tão intensa a ponto de querer desistir, o neném já está nascendo". 
Assim aconteceu: a Melissa já estava arrumando todo o material para receber a Emily; toalhas e touca na borda da piscina. 
Às 16h35, senti queimando a região pélvica. "Tá pegando fogo!" (o tão comentado círculo de fogo que algumas mulheres relatam). 
Forçaaaa! 
Arrrrrrrrhhhh!
A cabeça saiu. Veio-me à mente que ela estava com circular de cordão umbilical. Avisei a Melissa, e ela logo que pôde desenrolou o cordãozinho do pescoço. 
Consegui lembrar que eu não deveria fazer força fora das contrações (as mulheres que não sabem disso geralmente continuam fazendo força, mas isso aumenta as lacerações). Aguardei as próximas contrações para fazer força. 
Arrrggggggg!  
Às 16h44 do dia 08/07/2013 saiu de mim o corpinho quentinho que logo veio para os meus braços.
Naquele momento, o mundo parou! Só emoção, lágrimas e alegria. 
Eu chorei muito e disse “oi, princesa! princesa linda da mamãe! como vc é linda! tão gordinha!". Eu disse a meu marido: "olha, amor, nossa filhinha!" Ele me disse: "Amor, você conseguiu! parabéns! você foi muito forte! conseguiu o que muitas desistem de tentar!".
Emily nasceu muito atenta. Já de olhos bem abertos, tossiu, espirrou, sorriu, chorou. Que choro lindo, tão fino, tão meigo! Logo tentou mamar.
Ficamos ainda uns 20 minutos em êxtase total; papai, mamãe e filha. Ambos muito emocionados, curtindo cada segundo daquele momento. 
A Grazielle e a Alaya também estavam muito emocionadas.
Naquele momento, eu me senti a mulher super poderosa. Pari! Sim, pari uma menina linda, com 50cm com 3,74kg, muito esperta.
Emoção sem limites, todas as dores foram anestesiadas ao ver minha filha.
Depois que o cordão parou de pulsar, o papai cortou. 
Mais um pouco, pequenas contrações vieram, eu me levantei da piscina, e a placenta saiu.
Tive uma pequena laceração de 1º Grau. Levei 3 pontinhos para a cicatrização ser mais rápida (os pontos caíram em 4 dias).  A recuperação foi bem melhor do que eu imaginava. 
E assim nasceu o maior amor do mundo: em casa, por um trabalhoso, porém maravilhoso, Parto Domiciliar Planejado, sem intervenções desnecessárias e totalmente natural.




Agradecimentos

- Agradeço a Deus por nos proporcionar um momento tão lindo e marcante; por me dar forças quando eu mais precisei;
- ao amor da minha vida, Tiago Ramos; sem o seu apoio nada disso teria acontecido; é um companheiro em todos os momentos; juntos nós gestamos, juntos nós parimos. Te amo, príncipe.
- à minha irmã Grazielle Rodrigues, que esteve presente em toda minha gestação e no parto; ela deu-me suporte emocional e físico.

Agradeço à equipe linda que esteve comigo:
- minha doula, minha "fada", Alaya Dullius; o que seria de mim, se não fosse você ao meu lado? ajudou-me a lidar com a dor de forma natural; você foi especial em cada momento;
- à enfermeira obstétrica Melissa Martinelli, que também não me deixou desistir, mas acreditou no meu parto, ao passo que deu todo o suporte profissional necessário;
- à Dra. Caren Cupertino, que foi essencial em cada fase da gestação, que me orientou e deu a segurança necessária no melhor caminho para conseguir realizar o sonho do PDP.

Enfim, eu renasci! sou uma pessoa mais forte!
Hoje eu posso dizer: eu pari! Foi difícil, mas eu consegui!

Emily, te amo incondicionalmente!


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A Armadilha da Mulher Maravilha

(ou, "Uma mulher amamentando não é um exército de uma mulher só" - Alaya)

Por Maiana Rappaport, psicóloga pela PUC SP, psicanalista pelo Sedes Sapientiae, especializada no atendimento às gestantes e pós-parto.





A Armadilha da Mulher Maravilha 



- Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio.
- Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados.
- Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir...

Mas essa onipotência (culturalmente induzida, claro - e muitas vezes socialmente exigida...) só dura até o 5o dia, quando muito. Na segunda semana a mulher percebe que um bebê demanda demais. Precisa de atenção 24 horas, permanente. Que os intervalos do sono não são suficientes para que ela viva: descanse, almoce, tome um banho, respire, olhe pela janela, durma meia hora, atenda ao telefone, responda um email. E os cuidados muitas vezes exigem duas pessoas. Sem ajuda, é virtualmente impossível. A amamentação facilita e muito o cuidado, já que não é preciso tratar de mamadeiras, latas, esterilizadores e bicos. Mas é preciso tempo e descanso para produzir leite. É o clássico bordão, muitas vezes ignorado: um bebê só ficará bem se sua mãe estiver bem. Em alguns momentos, é crucial que a mãe volte a ser mulher – um individuo separado de sua filha, que precisa descansar, se cuidar, relaxar, pensar em outras coisas. Ela precisa desses momentos como o bebê precisa do seu leite. 



Por isso, é preciso que tenhamos menos onipotência, e que reconheçamos que vamos sim precisar de ajuda. Para isso, é necessário planejamento: quem vai ajudar, como, quando. O pai vai segurar a onda nas noites? Até quando? A avó pode mesmo ajudar? E os conflitos que tantas vezes surgem nesse momento? Uma coisa é apoiar, acolher; outra, se intrometer ou criticar – fronteira sutil e muitas vezes rompida de forma inconsciente e perversa. A empregada vai cuidar de casa? Vai ter comida pronta? O patrão vai respeitar e não ligar para falar de trabalho?

Nos dias de hoje, a situação se complica ainda mais. Em nossos tempos hiper-conectados, de distrações múltiplas e permanentes e com enorme apelo, é dificílimo estarmos concentrados em uma tarefa. Muitas vezes a futura mãe se ilude e acha que vai amamentar, trocar fraldas, ver a novela, passar email de trabalho, estudar para o concurso e postar no Facebook, ao mesmo tempo, já nos primeiros dias de vida do recém nascido.

E como se a situação em si já não fosse complicada o suficiente, aparecem outros obstáculos: o marido quer ensinar a colocar o bebê no seio (com a melhor das intenções), dizendo que ela está fazendo errado; a mãe (avó do bebê) diz “mas o que custa dar uma mamadeirinha, ela chora tanto”; as amigas dizendo que pra elas foi muito simples, que fizeram assim ou assado e que você está fazendo tudo errado; a prima exibicionista cujo bebê dorme bem, mama bem e “não dá nenhum trabalho”.... e a sociedade toda dizendo que se você não consegue amamentar seu bebê e cuidar dele integralmente, é porque não tem competência.

Reproduzo aqui um depoimento da Chris Nicklas em seu site “Amamentar é” que descreve essa situação de forma muito concreta e emocionante:
“Tantas pessoas entraram na minha casa com a intenção de ajudar! Nossa, nem sei dizer… Quantas realmente me ajudaram? Conto nos dedos!
Qual será o problema? Por que é tão difícil se abrir para enxergar o que o outro precisa?
Me recordo de uma situação em específico. Eu com o mamilo esquerdo inflamado sofrendo por ainda sentir dores no aleitamento materno, apesar dos meus filhos já estarem com três meses. As pessoas passando por mim dizendo barbaridades do tipo:
- É assim mesmo, vai calejar…
- Dê a mamadeira! Olha o que você está fazendo com você mesma, pra quê?
- Dê o peito assim mesmo! Não pode estar doendo tanto assim!
As horas passando e o meu desespero aumentando. Minha consulta médica já estava marcada. Mal eu sabia que estava com sapinho e por isso voltava a ser dolorido amamentar. Meu estado emocional não me permitia enxergar um palmo na frente do nariz!
Muito bem, numa certa altura chega minha sogra em casa. Me olha e fica devastada com o meu estado. Minha cara era de puro desconsolo. De repente ela me lança a seguinte pergunta:
- Minha filha, o que você precisa? Me diga o que fazer para te ajudar…
Meus olhos se encheram de lágrimas. Uma pergunta tão simples e tão rara de se ouvir.
Ficamos ali nos olhando, enquanto meu coração transbordava de tantos sentimentos e emoções.

O que a mulher precisa no momento da amamentação é apoio de verdade. Apoio aberto, honesto e atento. Ela não precisa de crítica, ensinamentos verticais, lições de moral ou prescrições autoritárias. Muito menos de conselhos sobre mamadeiras. Ela precisa de espaço psíquico, tempo e um mínimo de estrutura para se dedicar ao bebê. E de apoio técnico, prático, de que falaremos mais adiante. 



Aliás, esse é um importante papel que o pai pode exercer nesse momento da vida familiar, o nascimento de um filho. Tão ou mais importante quanto trocar fraldas, ninar e dar banho, é garantir que o binômio mãe-bebê vai ter paz e tranqüilidade para se conhecer, se conectar, evoluir em direção a um bom desenvolvimento e a uma amamentação bacana. Para isso, cuidar da casa, e garantir que esteja em ordem; comida na geladeira e contas em dia; atender o telefone e dar conta dos palpiteiros; receber as visitas e oferecer as desculpas pois a mamãe agora está descansando... e estar atento às necessidades da sua mulher.

Gosto de comparar a família neste momento do ciclo vital com o átomo: no núcleo central, mãe e bebê recém nascido - próton e nêutron - numa relação de simbiose e magnetismo. Em torno deles, o elétron, não diretamente envolvido na troca nutritiva mas fundamental no equilíbrio de energias, nas trocas afetivas, no cuidado com a família.

sábado, 6 de julho de 2013

ESCOLHA SUA EQUIPE! Onde seu obstetra se encaixa?

Aprenda a identificar onde seu obstetra se encaixa (e fuja se for o caso!)

ESCOLHA SUA EQUIPE! (Por Érica de Paula - acupunturista, doula, educadora perinatal e co-autora do documentário "O Renascimento do Parto".)

Ao longo de alguns anos trabalhando com gestantes e partos, aprendi que no mundo dos nascimentos é assim: 

- EXISTE O OBSTETRA CESARISTA 171

Aquele que engana deliberadamente as pacientes com indicações estapafúrdias de cesariana. Esse profissional marca cesáreas eletivas com 40 semanas ou menos porque “não pode correr riscos”. Possui “o dia de operar” (toda segunda feira, por exemplo, que é pro pai ter os 5 dias da licença paternidade emendando com o final de semana) e adoram frases de impacto com nuances de terror psicológico como: “o meu objetivo é te entregar um bebê saudável”. Ele diz que faz parto normal, mas gasta metade da consulta para te convencer que o parto é um evento muito arriscado e o corpo humano é uma bomba prestes a explodir. Ele adora contar casos escabrosos de partos normais, mas omite sua estatística pessoal de intercorrências derivadas de uma cirurgia desnecessária de grande porte (e a quantidade de bebês internados na UTIn que nasceram antes de estarem preparados). As pacientes juram que ele também faz parto normal, porque ouviram dizer que a vizinha da prima chegou com o bebê coroando no hospital e ele não empurrou de volta pra fazer a cesárea. Ou então, sabem que com ele só rolam cesáreas, mas pensa que com ela (paciente de muitos anos) será diferente. Infelizmente, a indicação da desnecesárea provavelmente vai acontecer quando a paciente está com a gestação avançada demais para ter coragem de trocar de obstetra. 


Adicionar legenda

- EXISTE O OBSTETRA ASSUMIDAMENTE CESARISTA

Aquele que fala na lata que não faz parto normal (seja por que não acredita, não gosta ou não ganha o suficiente pra isso) e manda você procurar outro médico caso insista na idéia de "parir como índia".

- EXISTE O OBSTETRA DESATUALIZADO

Aquele que se formou há 2 ou 3 décadas e até hoje não descobriu que o cordão umbilical não é assassino e que episiotomia não protege o períneo coisa nenhuma. Esse coitado acredita de verdade que está fazendo o melhor para a paciente. Ah, eu falei que ele se formou há 3 décadas? Não, existem muitos recém formados nessa categoria também, que em vez de terem o site da Biblioteca Cochrane nos seus favoritos ainda estão se baseando no bom (?) e velho Rezendão pra basear suas práticas.

- EXISTE O OBSTETRA BEM INTENCIONADO

Aquele que até sabe que parto normal é melhor pra mulher e pro bebê, que até "faz" alguns partos normais (não passa de 50% da sua estatística), mas que na prática deixa muito a desejar para mulheres e casais mais empoderados e exigentes. É aquele que fala: “SE estiver tudo bem podemos TENTAR um parto normal” (como se estar tudo bem fosse uma exceção, e não a regra – frase muito comum para os médicos das categorias anteriores também). 


- EXISTE O OBSTETRA "TIPO HUMANIZADO"

Aquele que você podia jurar que é humanizado e altamente radical porque topa alguns parto de cócoras, com doula, às vezes até na água, mas que ainda escorrega em muitos preceitos da humanização, sobretudo no protagonismo da mulher e na Medicina Baseada em Evidências. Por exemplo: não deixa passar de 41 semanas mesmo estando tudo bem e sendo esta a vontade da gestante, interna com poucas horas de bolsa rota, usa muito mais ocitocina sintética ou faz muito mais episiotomias do que deveria, adora fazer um descolamento de membranas ou colocar um “comprimidinho” na vagina para induzir o parto, faz toques excessivos e desnecessários durante a gravidez e o trabalho de parto, manda a mulher prender a respiração e fazer força compriiiiiida, pede um monte de USG desnecessária no final da gestação, diz que a bacia da mulher pode não ser tão boa ou que o bebê está grande demais, etc e tal.

*** Existem os médicos que estão na transição entre a categoria anterior e a próxima ***

- EXISTEM OS OBSTETRAS HUMANIZADOS PRA VALER



Aqueles que realmente acreditam, gostam e bancam o que estão fazendo, estão atualizadíssimos com as evidências científicas mais recentes (e por isso mesmo incentivam que a mulher tenha uma doula), permitem que as gestantes escolham qualquer posição que se sintam confortáveis para parir (nem que pra isso eles tenham que se sentar ou deitar no chão pra pegar o bebê, ou se molhem todos num parto na água) e respeitam o local de parto escolhido pela gestante com gravidez de baixo risco (seja em casa, no hospital ou numa casa de parto). Em geral, esses raros e preciosos profissionais não aceitam fazer cesariana eletiva sem indicação (o que significa que suas taxas de parto normal estão por volta de 80 a 85%), peitando a resistência dos hospitais e o deboche dos colegas médicos, pois seu compromisso é com a mulher, e não com o sistema. Eles informam o casal sobre todos os procedimentos realizados e estão dispostos a extrapolar alguns limites dentro do pressuposto de responsabilidade compartilhada e respeito às escolhas da gestante. Confiam e sabem que a natureza é sábia, que a mulher é poderosa e que o médico só deveria intervir quando necessário. Ou seja, eles possuem a humildade de simplesmente não fazer nada a maior parte do tempo, além de aguardar pacientemente. Para esses, toda a minha admiração e gratidão!


Nesse universo do parto, também existem DOULAS e doulas, PARTEIRAS e parteiras (falo das parteiras formadas e urbanas), PEDIATRAS e pediatras, sem esquecer das parteiras tradicionais (que cuidam de uma parcela específica e significativa da população) e de uma nova categoria que está surgindo agora, que são as parteiras “tipo tradicionais” (!!!). Mas esse é assunto para uma próxima conversa (em breve!).

quinta-feira, 28 de março de 2013

Medicina Baseada em Evidência Científica!!

      Tenho visto muitos profissionais da saúde usarem  a "carteirada" como argumento para perpetuarem más práticas médicas. "Sou médico a 30 anos e sempre fiz isso, não é agora que vou fazer o contrário", diz um... "A 10 anos faço tal procedimento, eu sei o que estou fazendo, quem é você para questionar isso".
     O pior (e mais vergonhoso ainda) é quando vemos estudantes de medicina contradizerem evidências científicas por que seus professores não ensinaram de tal forma. Estudantes de medicina dando "carteirada" ("estudo medicina e quem é você, leiga, pra achar que sabe alguma coisa")  em obstetras experientes e conceituados, como as PhDs Dra. Melania Amorin (obstetra) e Dra. Simone Grilo Diniz (obstetra) e obstetrizes extremamente experientes e atualizadas como Ana Cristina Duarte. Sim, tem estudante de medicina mandando essas pessoas "irem estudar", irem ler o "Rezende" (um livro de obstetrícia super desatualizado da década de 70) ou lerem no PubMed (como se tivessem descoberto o Brasil e o PubMed só tivesse artigos de altíssima qualidade - tem bons e ruins). E claro, as "carteiradas" se estendem aos profissionais não médicos, leigos, mulheres empoderadas etc.. ignorando que qualquer pessoa inteligente capaz de ler um artigo científico e compreender o uso da estatística é capaz de questionar prática arcaicas e congeladas com inteligência!
     Quando, como doula, eu afirmo que procuro seguir a medicina baseada em evidência, e questiono junto às gestantes que estou acompanhando a conduta de certos médicos, estou me referindo às revisões sistemáticas da Biblioteca Cochrane e às recomendações da Organização Mundial de Saúde. Pouco me importa se o médico fofinho e querido disse que vai fazer episiotomia (corte na vagina durante o parto) em você pra proteger o seu períneo, ou se ele disse que não se aguarda  o parto depois de 40 semanas pois é "perigoso" (e outras tantas recomendações absurdas que ouvimos por aí). Eu vou, cara gestante, sempre te incentivar a questionar quando a evidência apontada por estudos científicos é outra!
     Infelizmente nossas faculdades brasileiras seguem desatualizadas, e a grande maioria dos alunos saem de lá como macacos de imitação. Fazem episiotomia (ou qualquer outra intervenção inadequada no parto) por que aprenderam a fazer assim com seus professores, e estes com os seus, e assim por diante! Protocolos decorados e padrões rígidos não questionados, e a qualidade da assistência obstétrica no Brasil segue sua lamentável trajetória!
     Quando uma gestante chega me dizendo "Mas o meu médico disse que..." eu replico "questione!!" Chega de basearmos tudo que fazemos em uma obediência cega de "o meu médico disse que.." e chega de médicos desatualizados que seguem desrespeitando o protagonismo feminino no parto, seguem praticando violência obstétrica travestida de "eu sempre fiz assim e assim que é o certo". Queremos ser atendidas por profissionais atualizados, humanizados, questionadores, antenados com as evidências! E esses profissionais existem! Existem médicos/médicas obstetras humanizados, atualizados! Você não está presa ao seu médico de sempre só porque "ele disse que...", lute pelo seu parto, procure outras opiniões, certifique-se!
     Transcrevo abaixo um explicativo capítulo do livro "Parto Normal ou Cesárea" pra que todos/as possam entender melhor o que queremos dizer com medicina baseada em evidências! Se seu médico não sabe o que é MBE, e está desatualizado em relação as recomendações da OMS, então cara Gestante, corra dele!! Pois com esse aí você não vai parir!



A medicina baseada em evidências
(paginas 10 a 16 do livro "Parto Normal ou Cesárea" de Ana Cristina Duarte e Simone Diniz, editora UNESP)

        Para a maioria de nós, mesmo os profissionais de saúde, o assunto provoca grande susto. Todos aprendemos as nossas práticas profissionais com base na melhor ciência, e as exercemos seguros de seus benefícios.
A medicina Baseada em Evidências (MBE) é um movimento internacional criado na segunda metade da década de 1980 e em poucos anos se estendeu ao mundo inteiro. Nasce do reconhecimento de que boa parte da prática médica não é respaldada por estudos de qualidade sobre a segurança e eficácia dos procedimentos utilizados, quer sejam os medicamentos, os exames, as cirurgias, entre outros. Constatou se que, dependendo da região geográfica onde alguém morasse, a prática médica "correta" poderia ser completante diferente (Enkin, 1996). Por exemplo, em alguns lugares o "certo" era sempre usar fórceps no primeiro parto (ainda é assim em muitos lugares do Brasil), enquanto, em outros países, só se encontravam registros de tal procedimento em museus. 
Verificou-se que a medicina se baseia em muitos tipos de pesquisa tendenciosos (Chamados de viés pelos cientistas) que às vezes favorecem práticas inúteis, arriscadas ou danosas. Com isso, foi organizada uma iniciativa internacional para sistematizar o conhecimento científico "menos tendencioso" a respeito de cada procedimento médico, por especialidade.

Essa iniciativa foi denominada Colaboração Cochrane, em homenagem ao médico britânico Archie Cochrane. Formaram-se dezenas de grupos de pesquisadores e profissionais para avaliar a qualidade das pesquisas em suas áreas, dando prioridade às pesquisas que apresentavam menos vieses, os chamados ensaios clínicos randomizados (Jadad, 1998).
Randomizado significa que as pessoas participantes do estudo são sorteadas para receber ou não o recurso médico (medicamente, exame, cirurgia etc.), o que torna mais fácil verificar se ele é de fato seguro e eficaz. Muitos estudos não-randomizados mostram que é um recurso benéfico apenas porque os pacientes envolvidos na análises estavam, entre outras razões, em condições mais favoráveis de saúde, ou eram mais bem atendidos, ou se cuidavam melhor, e não pelo recurso em si. Quando os pacientes são sorteados pode-se diminuir esse viés. Isso não quer dizer que os pesquisadores eram ou são desonestos  apenas que, em geral, quando pesquisamos, enxergamos mais aquilo que esperamos, o que acreditamos, o que queremos ver.
Quando se lida com muitos ensaios clínicos, em que há um numero muito pequeno de participantes, existe o risco de que o resultado se deva ao acaso (outro tipo de viés) e não ao procedimento estudado. Isso, às vezes, leva a resultados contraditórios sobre a eficácia ou a segurança de um procedimento. Nesses casos, pode-se fazer uma revisão sistemática das diversas análises e realizar um "tratamento estatístico" de seu conjunto, chamado metanálise. Assim, define-se melhor se aquele procedimento é de fato seguro e eficiente, reunindo grande número de pacientes e reduzindo o viés do acaso.
Hoje em dia, em vez de pesquisar em centenas de artigos sobre um recurso médico, é mais adequado começar lendo a revisão sistemática, que sintetiza o conjunto de estudos. 
Mesmo a definição das prioridades - o que escolhemos pesquisar, a pergunta que nos fazemos, e onde investir os recursos de pesquisa - é um tipo de viés. Por exemplo, durante a segunda metade do século XX, em boa parte do mundo ocidental se realizou a EPISIOTOMIA (corte da vulva e da vagina no momento do parto) em praticamente todas as mulheres, pois se acreditava que era benéfíco para mães e bebês. Hoje, sabemos que nunca houve evidência sólida para recomendar tal prática como rotina. Na realidade, a evidência encontrada foi muito desfavorável. Quando os pesquisadores fizeram uma revisão sistemática sobre SE deveriam fazer episiotomia, constataram que os estudos eram centrados sobre o melhor local do corte, o momento de cortar, se o instrumento adequado era o bisturi ou a tesoura, o tipo de fio de sutura, o analgésico mais indicado para a dor que provocava, como combater ou prevenir as infecções da ferida etc. Uma vez que os pesquisadores tinham certeza de que sempre deveriam fazer episiotomia, as pesquisas não colocaram em dúvida a eficácia ou segurança do procedimento (Enkin, 2000). Enquanto isso, centenas de milhões de mulheres tiveram suas vulvas e vaginas cortadas e costuradas no momento da dar à luz, na grande maioria das vezes sem necessidade.
Na área de assistência ao parto, comprovou-se, já na década de 1980, que "a distância entre a prática e as evidências era alarmante". Apesar disso, o ritmo de mudança nas práticas tem sido muito lento, e estima-se que atualmente na América Latina apenas 15% dos procedimentos utilizados sejam baseados em evidências sólidas (CLAP, 2003).
O Grupo da Colaboração Cochrane de Gravidez e Parto foi um dos que primeiro se organizaram e desenvolveram pesquisas acerca do tema, tendo se tornado referência para os demais. Em 1989, o grupo publicou exaustiva revisão dos procedimentos, e, em 1993, um de seus resultados mais importantes foi a publicação da revisão sistemática de cerca de 40.000 estudos sobre 275 práticas de assistência perinatal, classificados quanto à efetividade e à segurança.
Este trabalho de uma década contou com o esforço de mais de 400 pesquisadores (incluindo obstetras, pediatras, enfermeiras, estatísticos, epidemiologistas, cientistas sociais, parteiras e até mesmo mulheres usuárias), que realizaram uma revisão completa de todos os estudos publicados sobre o tema desde 1950, cujo resultado inteiro está a disponível em publicações eletrônicas a partir da segunda metade da década de 1990. Periodicamente é atualizado no site da Colaboração Cochrane.
Em termos de importância, as revisões sistemáticas e metanálises publicadas pela Biblioteca Cochrane são a melhor fonte para evidências. A opinião de 1 médico isoladamente, o relato de 1 caso etc, tem menos valor científico.


Uma síntese desse trabalho foi publicada primeiramente pela Orgnização Mundial da Saúde (OMS) em 1996, e desde aquele momento conhecida como as "recomendações da OMS" (a lista encontra-se aqui http://alaya77.blogspot.com.br/2012/02/recomendacoes-da-oms-organizacao.html). Uma coletânea bastante completa dessas revisões, em uma versão popular dirigida a profissionais e usuárias, foi organizada pelo pesquisador canadense Murray Enkin e colaboradores. O "Livro do Enkin" tornou-se grande referência para os defensores de um PARTO BASEADO NA EVIDÊNCIA.

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Espero que o trecho desse ótimo livro ajude a demonstrar porque devemos questionar certos protocolos e afirmações (mesmo quando vindas do médico). Um médico atualizado e seguro do que está fazendo não terá problemas em explicar o procedimento e justificar suas indicações. Mas médicos desatualizados podem se esconder atrás de sua figura de autoridade e submeter mulheres a intervenções que elas não precisam. Seja ativa em seu processo gestacional! Estude, questione! E procure um profissional (obstetra, obstetriz, enfermeira obstetra) que seja realmente de confiança! São poucos mas existem!


domingo, 24 de março de 2013

Será que não faz mesmo diferença?! Cesárea x Parto vaginal x Parto Humanizado

Um post no estilo "uma imagem vale mais que mil palavras"
Fiz essas montagens para tentar mostrar a diferença no tratamento com as mães e os bebês.
Enfatizo que a Cesárea é uma cirurgia MARAVILHOSA quando usada para salvar vidas. A cesárea é para emergências, para gestações de alto risco. A Organização Mundial da Saúde preconiza que 15% das mulheres vão precisar de uma cesárea, portanto, é ótimo que ela exista!! Contudo, se sua gestação é de baixo risco, saudável.. não faz muito sentido escolher passar por uma cirurgia ao invés de ter uma experiência transformadora de parto!
Há grandes diferenças, como podem ver, quanto a liberdade de posição/movimentação da mãe, presença do pai apoiando, de familiares. O ambiente em um parto humanizado é muito mais acolhedor, o bebê ao nascer vai direto para o colo da mãe.. tudo isso faz diferença em nossa percepção do parto como algo violento ou prazeroso.
Cesáreas mal indicadas (baseadas em mitos e terrorismo médico) e os partos vaginais Anormais (frankenstein, isto é, cheio de intervenções desnecessárias e desrespeito à integridade física e emocional da mulher) possuem diferenças gritantes em relação à beleza que pode existir em um parto natural humanizado.

Em um parto humanizado a mulher é protagonista! Dela é o parto! Dela é o bebê! Ela decide como fica mais confortável, quem ela quer junto dela, se quer parir de cócoras, na água. Ela confia em sua capacidade, acredita na fisiologia do seu corpo, e junto com seu bebê trabalha ativamente para dar nascimento a ele.
Já nos outros ela é uma expectadora passiva, amarrada a uma maca, presa a perneiras, impedida de se movimentar, cerceada em seus desejos, seu corpo tratado como uma "fábrica", que deve ser aberta, cortada, e remendada, e o bebê é um trófeu a ser exibido, acolhido sem carinho, e levado para longe da mãe.

Esse post não é para quem precisou de fato de uma cesárea bem indicada, esse post não é para aquela mulher vítima do sistema que queria ter um parto normal mas foi aterrorizada por um médico e enganada com um pretexto falso de cesariana (tipo "passou do tempo", "não dilatou", "cordão enrolado no pescoço" e outros motivos estapafúrdios). Esse post não é para fazer quem teve uma cesárea se sentir mal, nem para gerar uma frustração em quem lutou por um atendimento respeitoso mas acabou num parto vaginal mais violento! Não, nós sabemos o quanto é difícil conseguir parir com respeito e dignidade no Brasil! Nós lutamos para que as mulheres tenham cada vez mais acesso a informações de qualidade e um atendimento humanizado!
Esse post é para quem não quer saber, quem fecha os olhos e ri e diz que "tanto faz", "é tudo a mesma coisa". É pra quem prega aos 4 ventos sua cesárea "limpinha e cheirosa" e fala que tem nojinho de parto, que isso é coisa pra índia. É pra quem ignora a diferença no atendimento, no tratamento ao bebê, é pra quem não ta nem aí pra se conscientizar.

Há diferença sim! Ser protagonista ativa do seu parto, em um ambiente acolhedor, aconchegante e respeitoso, é outra coisa!! Poder pegar o próprio bebê e trazer ele para o colo, ser tratada como uma mulher forte, uma mulher inteligente, que sabe o que é melhor para si, sabe que posição quer ficar..  ter liberdade, ter participação, poder estar cercada de pessoas familiares (o pai poder participar, pois no atendimento padrão muitas vezes o pai ainda é barrado, apesar de ser lei, e quando pode entrar é mero espectador), cercada de sorrisos e olhares de incentivo (ao invés de máscaras estéreis que escondem pessoas sem rosto, que fazem aquilo por protocolo, por rotina, te tratando como "a paciente do quarto X"..) Trazer o bebê sem uma luz forte na cara dele o cegando, sem um ar condicionado frio, sem ele ser exibido como um troféu e passado de mãos em mãos, esfregado e submetido a procedimentos desnecessários enquanto a mãe permanece passiva, amarrada a uma maca, como mero produto onde seu bebê é o subproduto...

É muito diferente!! E duvido que alguém ao compreender todas essas diferenças escolha não ser protagonista, escolha não ser ativa, escolha não estar em um ambiente aconchegante e respeitoso (e o parto humanizado pode ocorrer tanto em casa quanto no hospital, o importante é a equipe!) . A "escolha" da cesárea em nossa sociedade é uma grande falácia, é uma mentira baseada em terrorismo psicológico e falta de apoio real e acesso a informação de verdade.
Havendo possibilidade de escolha (isto é, se sua gestação não indica um motivo real para a necessidade de uma cesárea), por que não escolher um nascimento mais humano?! Não é "tanto faz", é muito diferente; Ser tratada com carinho, e receber o bebê com amor, com calor humano, isso é nascer sorrindo!













































quarta-feira, 20 de março de 2013

Meu bebê é grande, mas eu sou um mulherão!



Bebê grande não é indicação de cesariana.Quer dizer então que a natureza preparou um bebê dentro do útero de uma mãe que não tem como sair? Mais ou menos como um marceneiro montar um armário dentro da oficina que não tem como sair pela porta? Bom, o marceneiro burro pode até perder o armário, paciência. Mas a natureza não é burra, e não tem caché energético para bancar bebês que são feitos por 9 meses e depois não podem sair, matando a si mesmos e às suas mães.

Na natureza, nos últimos 100 mil anos, cada vez que uma mutação genética fazia um bebê ser gigantesco para sua mãe, o que acontecia era o óbito de ambos. Esses genes malucos de bebês gigantes jamais puderam se reproduzir e perpetuar em nossa espécie. O tamanho dos nossos bebês não é fruto do acaso, do sorteio. Ele foi moldado pela seleção natural ao lonto desse longo período. Curiosamente nos últimos 40 anos, que é aproximadamente a idade da indústria da cesárea no Brasil, começaram a pipocar os incontáveis casos de bebês que não podem nascer por serem enormes.



Vamos aos fatos:

1) Não há como saber o peso dos bebês no útero. A ultrassonografia é uma tecnologia absolutamente inapropriada para cálculo de peso. Aparelho de ultrassom transforma onda sonora em imagem, e a imagem é medida por um computador, que joga tudo numa tabela internacional e dá um peso estimado. Não é de se surpreender que o erro chegue a 20% e que albuns bebês nasçam com até 1 kg de diferença entre o estimado e o real.

2) A bacia das mulheres têm flexibilidade através de seus ligamentos, que é aumentada pela relaxina, um hormônio que tem níveis elevados durante a gestação. A bacia interna (que é por onde o bebê passa) não tem como ser medida com precisão. Tamanho de nádega materna não é tamanho de bacia. Uma mulher pode ter um bumbum bem grande (como essa que vos escreve) e uma bacia pequena internamente (não é o meu caso). Outra pode ser magérrima, tipo Gisele Bundchen com fome, e ter uma bacia interna muito grande.

3) Os ossos da cabeça do bebê são soldos (a famosa "moleira" é justamente um dos espaços entre esses ossos). Durante o trajeto do canal de parto, os ossos se sobrepõem, formando um cone. Quando o bebê nasce, sua cabeça tem quase o formato de um ovo. Em poucas horas esse cone se desfaz e a cabeça fica redonda. Por isso também, as medidas do crânio do bebê calculadas pelo ultrassonografista não servem para absolutamente nada. Só servem para diagnosticar possíveis patologias fetais e predizer problemas de saúde do recém nascido. Essas medidas podem até ser úteis a um neonatologista, mas nunca a um obstetra.

4) Existe a possibilidade do bebê adentrar a bacia pélvica de forma inadequada e não passar. É a chamada desproporção céfalo-pélvica (DCP). Esses são os bebês que poderiam morrer se não fosse pela cesariana. Porém o único modo de de diagnosticar uma desproporção é aguardando a mulher entrar em trabalho de parto, aguardando toda a dilatação do colo do útero (total, ou praticamente total), aguardar algumas horas (por volta de quatro ou mais, se o bebê estiver bem), sem que ele desça pelo canal de parto. Ainda assim é importante se tentar pelo menos uma analgesia por algumas horas antes de se decidir por uma cesariana por DCP.

5) Já assisti desproporção em bebês de 2500g e já vi bebês de 4700g nascerem em partos muito rápidos. Em outras palavras, o peso não tem NADA A VER com passar ou não passar. Já vi mulher de 1,80m ter desproporção e mulher de 1,40m ter parto muito rápido e fácil. Em outras palavras, tamanho de mulher não tem NADA A VER com passar ou não passar. O tamanho do marido também não tem qualquer importância nessa equação.

6) A altura uterina não tem qualquer utilidade para se determinar se um bebê vai passar ou não, pois ela depende de muitos outros fatores que não o peso do bebê.7) Bebês grandes não tem maiores chances de "rasgar" os tecidos da mulher durante seu nascimento. O risco de laceração ocorre principalmente pelas intervenções (ocitocina, Valsalva, litotomia, Kristeler) e pela velocidade da saída do bebê. Técnicas de preparação do períneo durante a gestação têm sido promissoras no sentido de evitar lacerações de períneo e devem ser empregadas não importa o tamanho estimado do bebê.

8) Distócia de ombros, quando o ombro fica preso depois do nascimento da cabeça do bebê, é um evento muito raro, que fica um pouco mais provável com o uso de manobras como o fórceps e kristeler.  Mais da metade dos raros casos de distócia acontece em bebês que não são considerados grandes. Seriam necessárias mais de 300 cirurgias cesarianas em gestações de bebês supostamente grandes, para evitar um único caso de distócia de ombros. Essas 300 cirurgias certamente fariam muito mais mal a essas 300 mães e 300 bebês do que as consequências em geral passageiras de uma distócia de ombros.

9) Tamanho de vagina não tem nada a ver com essa questão. Se a mulher tiver algum problema nesse sentido, pode até solicitar a possibilidade de uma analgesia para o final do parto, para não sentir a passagem do bebê, caso entre em pânico durante o período expulsivo. De toda forma, a vagina é composta por tecidos musculares, que são muito flexíveis. A DCP se refere aos ossos da pelve materna, e não aos tecidos moles.

10) Não existe bebê tão grande que pode "entalar". O ponto mais estreito da bacia é uma linha imaginária que passa pelas duas espinhas isquiaticas. Ou o bebê passa ou ele não passa por esse ponto. Se o bebê não passar pela linha, ele nasce por cima. Se passar, nasce por baixo. Não existe um "purgatório" na bacia, de onde a criança jamais poderá sair. Sempre dá para nascer, por baixo ou por cima.

Em resumo, eu considero prática de má fé qualquer indicação de cesariana baseada em medidas, seja de altura uterina, tamanho de cabeça, peso calculado pelo ultrassom, medida da bacia por raio X, tamanho do bumbum, número de calçado ou tamanho dos ombros do marido estivador.

E o cordão enrolado no pescoço?!!

Circular de cordão? Veja aqui! Textos informativos escritos por quem entende do assunto! E vídeos de partos em que os bebês nasceram com 1, 2, 5 circulares de cordão!!

Me amarrei no seu cordão! - por Ana Cristina Duarte (obstetriz)
texto original no facebook https://www.facebook.com/notes/ana-cristina-duarte/me-amarrei-no-seu-cord%C3%A3o/498390133543170

Poucas coisas causam mais terror no imaginário do brasileiro do que o cordão umbilical. Enquanto em outros países as mulheres e médicos nem pensem no assunto, no Brasil esse é o maior hit nas paradas jornalísticas, midiáticas e pseudo-médicas. Quem nunca ouviu essa frase:
- Daí o médico fez a cesárea e o bebê tinha duas circulares no pescoço, e ele disse "ainda bem que foi cesárea, pois se fosse parto normal seu bebê teria morrido". 
Que lorota feia, doutor!
Ou a outra não menos clássica:
- Meu médico é super a favor do parto normal, mas ele não arrisca. Se tiver algum exame que mostre alguma coisa errada, cordão enrolado no pescoço, por exemplo, ele opera.

O cordão umbilical pode medir desde alguns poucos centímetros (é isso mesmo, não existe "cordão curto") até quase 1 metro de comprimento e está sempre enrolado em alguma(s) parte(s) do bebê. Falar em circular de cordão é quase redundância. Como assim um cordão sem circular, num espaço exíguo, com um bebê em constante movimento? Não faz nem sentido. Os bebês interagem com o cordão, seguram, soltam, mexem. Enrolam-se, passam por dentro, fazem nós e voltas. Macramê do bebê. Ele é preenchido por uma substância gelatinosa que dá volume e protege os vasos sanguíneos internos.

Acidentes verdadeiros de cordão são situações raríssimas, que podem ocorrer durante a gravidez, por exemplo quando o bebê faz um nó verdadeiro e estica o cordão com seus movimentos, interrompmento assim o fluxo sanguíneo que o mantém. Porém esses eventos são mais raros do que um gêmeo surpresa na hora do parto, um acidente importante de trânsito, é um tipo de loteria ao contrário que atinge 1 a cada 5 mil gestações. Se isso fosse algo de fato constante em nossa espécie, os bebês não se mexeriam loucamente no útero, interagindo com um cordão de 80 cm de comprimento. Se acidentes de cordão fossem algo fácil de ocorrer, nossos cordões teriam 20 cm, e nossos bebês ficariam quietos numa só posição. A natureza teria cuidado de selecionar essas características.

O famoso prolapso de cordão - quando o mesmo desce pelo colo do útero e vagina antes da cabeça do bebê, interrompendo fatalmente o fluxo de sangue - é um evento igualmente raro, que ocorre principalmente quando o profissional de saúde rompe a bolsa artificialmente, e já há dilatação do colo do útero porém o bebê está alto. É nessa hora que o cordão pode vir com o líquido. Se não provocarmos a catástrofe artificialmente, na natureza ela é ainda mais rara.

As circulares de cordão no pescoço do bebê não representam risco adicional no parto, porque o bebê se movimenta muito menos no final da gestação e já não faz voltas incríveis e absurdas. O cordão sempre está enrolado no braço, no tronco, no pescoço. Uma grande vantagem da circular no pescoço é que o cordão não tem como descer abaixo da cabeça do bebê. Alguns chegam a ter até três ou quatro circulares, os babalorixás intrauterinos. Cerca de um terço dos bebês nascerá com pelo menos uma volta de cordão umbilical ao redor do pescoço.

Durante o trabalho de parto o útero contrai e empurra o bebê pelo canal de parto e conforme ele desce, o útero todo desce junto, inclusive placenta e cordão. Não há um aumento de tensão no cordão durante o parto. Tudo vem junto. A grande descida final acontece quando a cabeça do bebê finalmente sai de dentro de sua mãe, mas nesse momento é possível inclusive cortar o cordão, se for necessário. Em dez anos de prática, nunca fiz, nem nunca vi um(a) colega cortar um cordão nesse momento. Se o cordão chegou até ali, dá para o bebê nascer.

O mito do cordão que segura o bebê e que não permita que ele desça no canal de parto é outro que precisamos desafazer. O cordão não tem força para segurar um bebê que desce através da bacia pélvica. Se assim fosse, cedo ou tarde um cordão se romperia com o bebê ainda no meio do caminho e isso não existe. Como foi dito, o cordão está descendo junto com o bebê. O problema é que muitos profissionais de saúde incrivelmente não sabem que o trabalho de parto é caracterizado por esse vai e vem do bebê. Contração vem, bebê desce, contração vai, bebê sobe. Cada vez ele desce mais um pouquinho.

No momento em que o bebê nasce, o útero desce quase até a altura do umbigo, com a placenta colada e acompanhando o movimento de descida. ou seja, tudo vem junto, não se trata de um bebê bungee jumping. Em nível de curiosidade, sabia que o Brasil é um dos únicos países do mundo em que aparece "circular cervical de cordão" no laudo da ultrassonografia? Será que é por acaso que estamos com 52% de cesarianas?

Hoje em dia, entre as parteiras profissionais, já se discute inclusive a necessidade de se sentir se há ou não circular de cordão no momento em que a cabeça sai, e se há qualquer necessidade de se retirar essas alças por cima da cabeça. Pessoalmente penso que não e cada vez intervenho menos. Se a cabeça saiu, o resto vai sair por si só. Deixemos as mulheres e os bebês em paz, eles sabem o que estão fazendo. O monitoramento pode ser feito acessando batimentos, cor e aspecto do bebê.




Depois que o bebê nasce, o cordão não deve ser cortado antes de parar de pulsar. O sangue que está lá dentro pertence ao bebê. Aquele sangue é cheio de células T e hemoglobina, sendo muito importante para o primeiro ano de vida. O ideal é que deixemos esses cordões ligados o quanto for necessário. Podemos deixar até a placenta sair, se for o caso. Não há pressa em se cortar o cordão. O bebê não perde sangue por ali, ele só ganha. Em partos emergenciais a ordem é: não mexa no cordão. Tem até alguns grupos que deixam o bebê ligado no cordão (e portanto na placenta) durante horas e alguns durante dias. Cortar o cordão é apenas um ritual, não importa quando e como o façamos, desde que esperemos que ele pare de funcionar e passar sangue para o bebê.

Cordões umbilicais são fortes, são protegidos e protegem o bebê. Confiemos um pouco mais na natureza, que vem há cem mil anos filtrando os ajustes, montando um processo de parto que seja o mais seguro possível.





E pra quebrar ainda mais esse mito, segue um vídeo de uma mulher que teve um bebê que nasceu com 5 voltas do cordão no pescoço! CINCO!!! Cordão não enforca, cordão não impede o bebê de descer. 



Não importa se é 1, 3, 5 circulares de cordão, isso NÃO é justificativa pra uma cesárea!

Outro vídeo que o bebê nasce com 1 circular de cordão:



Vídeo com 2 circulares de cordão:




Vídeo de parto com 1 circular de cordão:


Outro vídeo com 2 voltas no pescoço


  • E se os vídeos não convencerem ainda, segue um texto do médico obstetra Ricardo Jones
Dr. Ricardo Herbert Jones:

"Minha experiência com circulares de cordão é razoável. Muitas pacientes me procuravam com medo de uma cesariana porque o seu médico falava que o cordão esta enrolado no pescoço, portanto uma cesariana era mandatária, sob pena do nenê entrar em sofrimento.

Circulares de cordão são banalidades na nossa espécie. Um número muito grande de crianças nasce assim. Eu tinha a informação que a incidência era de 30%, mas talvez seja um número antigo ou inadequado. De qualquer sorte, uma quantia considerável de crianças vem ao mundo desta forma. Já tive partos com 3 voltas bem firmes no pescoço, e com apgar 9/10.

É engraçado ver a expressão das pacientes quando conto pra elas que o que me preocupa não é o pescoço, mas o cordão. O fato do pescoço estar sendo pressionado é pouco importante se comparado com a compressão do cordão. A fantasia da imensa maioria das mulheres (mas também dos homens) é que a criança está se ""enforcando"" no cordão. Elas ficam surpresas quando explico que o bebê não está respirando, então porque o medo da asfixia? Acontece que existe espaço suficiente para o sangue transitar pela estrutura do cordão, protegida pela geléia de Warthon que o recobre, mesmo com voltas em torno do pescocinho. Além disso, se houver uma diminuição na taxa de passagem de oxigênio pelo cordão isso será percebido pela avaliação intermitente durante o trabalho de parto (e não antes). E esse evento NUNCA é abrupto. DIPs de cordão, como os chamamos, ficam dando avisos durante horas, e são diminuições fortes apenas durante as contrações, com o retorno para um batimento normal logo após. Marcar uma cesariana por um cordão enrolado no pescoço é um erro.

Sei como é simples e fácil apavorar uma mãe fragilizada contando histórias macabras a esse respeito, mas a verdade é que não se justifica nenhuma conduta intervencionista em virtude deste achado. Por outro lado, a presença deste diagnóstico tão disseminado nos consultórios e nas conversas entre pacientes nos chama a atenção porque, se não é um problema médico, é uma questão sociológica.

Esse exame parece funcionar como um acordo subliminar entre dois personagens escondidos no inconsciente dos participantes da trama, médico e paciente.

De um lado temos uma paciente amedrontada, desempoderada diante de uma tarefa que parece ser muito maior do que ela. Acredita piamente no que o ""representante do patriarcado" lhe diz. Não retruca, não critica; sequer pergunta. Nada sabe, mas precisa do auxílio daquele que detém um saber fundamental aos seus olhos. Diante das incertezas, da culpa, do medo e da angústia ela se entrega, aliena-se. Fecha os olhos e coloca o "anel", que faz com que ela mesma desapareça, entregando-se docilmente aos desígnios dos que detém o poder sobre seu destino. Oferece seu corpo para que dele se faça o que for necessário.

Na outra ponta está o médico. Sofre em silêncio a dor da sua incapacidade. Pensa baixinho para que ninguém leia seus pensamentos. Sabe que pouco sabe, mas também tem plena noção do valor cultural que desempenha. Nada entende do milagre do nascimento, mas percebe seus rituais, muitas vezes ridículos, outras vezes absurdos e perigosos, produzem uma espécie de tranquilização nas mulheres. Não se encoraja a parar de encenar, porque teme que não lhe entendam. Continua então repetindo mentiras, esperando que não descubram o quão falsas e frágeis elas são. É muitas vezes tomado pelo ""pânico consciencial"", que é o medo diante de uma tomada de consciência.Muitas vezes age como um sacerdote primitivo que, por uma iluminação divina ou por conhecimento adquirido, percebeu que suas rezas e ritos de nada influenciam as colheitas, e que o que governa estes fenômenos está muito além de suas capacidades. Entretanto, sabe que os nativos precisam dos rituais, que ele percebe agora como inúteis, porque assim se dissemina a confiança e a esperança. Mente, mas de uma forma tão brilhante, sofisticada e tecnológica, que deveras acredita no engodo que produz.

Ambos, mulher e médico, precisam aliviar suas angústias diante de algo poderoso, imprevisível e incontrolável. Olham-se e tramam o golpe.

O plano que deixará ambos aliviados diante do enfrentamento. Mentem-se com os olhos. Eu finjo saber; você finge acreditar. Peço os exames. Todos. E mais um pouco. Procuro até encontrar aquilo que nos fornecerá a chave. A minúscula desculpa. Eu, com ela nas mãos, posso realizar os rituais que me desafogam da necessidade de suportar a angústia de olhar e nada fazer. Você, poderá escapar da dor de aguardar e fazer o trabalho por si. Poderá dizer que ""tentou"", mas, foi melhor assim. O nenê poderia correr perigo. O cordão poderia deixar meu filho com problemas mentais, etc.

Feito. Pedido o exame, lá estava: O cordão, mas poderia ser o líquido, a posição, a placenta, a ossatura, as parafusetas protodiastólicas. Quem se importa? O carneiro, a virgem, o milho, todos são sacrificados. Quem se importa? Livramo-nos da dor. Anestesiamos nossas fragilidades e angústias. Ritualizamos, encenamos e todos acreditam.

Nem todos! Alguns acordam, mesmo que leve muito, muito tempo."
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