A Maternidade que você consome
[esse texto não é uma intenção de julgar ou atacar ninguém, é só uma caricatura]
Custa 450 reais um exame pra saber o
sexo do bebê dois meses antes do que o ultrassom de rotina mostraria (o sexo do
bebê não vai mudar ou sair correndo). Se paga pela ansiedade.
Enxoval feito em Miami (ou comprado
novinho em qualquer loja) com direito a mil apetrechos, cacarecos e firulas
inúteis. Convenceram-te que você será uma mãe melhor se tiver tudo isso. Convenceram-te
que você será uma péssima mãe se não comprar tudo isso. Seu bebê precisa!
Quarto reformado, papel de parede de
200 reais. Berço americano, Mobile importado. Kit berço (não recomendado por
pediatras) devidamente comprado, bordado a mão, cheio de laços: 600 reais.
(poeira acumulada e risco de sufocamento pro bebê). Saída de maternidade,
vermelha, claro! O pacote completo, caro!
Carrinho de marca, super trambolho, vira pra frente e pra trás, tração de offroad, encaixa o bebê conforto, capota conversível! 2 mil reais!
A melhor banheira, a babá eletrônica
com câmera, aspirador nasal, capa de chuva pro carrinho, lixeira que disfarça o
cheiro das fraldas (sim, existe!) kit higiene decorado personalizado, enfeite
de porta encomendado, toda a parafernália de mamadeiras (até kit de
esterilização!)
Encomendou pomada importada (à base
de petróleo, mas todo mundo diz que é ótima), comprou mil remédios, termômetro
de banheira modelo infantil e uma colônia para bebês, pra ficar cheiroso! E
você até encomendou saquinhos para separar os conjuntinhos de roupa com a
costureira. Jura que é super necessário!
O bebê que não anda tem sapatos,
caros. Cadeirinha que balança sozinha. Até aquecedor de lenço umedecido você
comprou (você não acreditou que algodão com água morna era melhor). Tudo para
dar o melhor para o seu bebê.
A poltrona de amamentação foi devidamente comprada combinando com a decoração do quarto. (você não contava que ia se sentir solitária lá e ia preferir ficar acompanhada de outras pessoas no sofá da sala). Pagou curso pra aprender a dar banho e trocar fralda. Fez chá de bebê, chá revelação, chá recepção. Tirou fotos com sapatinhos na barriga, paetês, pai ajoelhado beijando sua barriga. Pacote completo!
Pagou o plano de saúde, fez questão de usar o plano de saúde (afinal está pagando né). Visitou o hospital e adorou os quartos, tudo confortável. Confiou no seu médico de convênio (ele estudou pra isso né). Pesquisou mais a fundo quando comprou sua televisão do que quando escolheu o médico que ia estar no dia mais importante da sua vida. Mas o convênio é seguro não é mesmo?! SUS de jeito nenhum! Pagar particular? “Imagina! Meu médico é um fofo!”
Falou com aquela sua amiga que já tem
filhos, mas achou ela muito “radical”. Foi convidada pra frequentar uma roda de
gestantes gratuita onde dizem teria muitas boas informações, mas é gratuita,
deve ser ruim, deve ser coisa de bicho grilo, pro seu filho você só quer dar do
melhor!
Comprou os livros de “adestramento” de bebês, aqueles da moda, como fazer o seu bebê entrar na rotina e não afetar sua vida! Entrou num grupo de gestantes no whatsap mas achou todas muito exageradas no pós parto, fazendo o maior drama, até parece que maternidade é complicado, você já está se preparando com tudo! Saiu do grupo...
A barriga cresce e você tenta ouvir o
coração do bebê com aquele sonar que comprou lá no início. Complicado se
conectar ao bebê assim né? Dependendo de um som, de um aparelho externo... É
medo de olhar pra dentro, de sentir os movimentos, de confiar e acreditar no
bebê que ali está? Às vezes é bom procurar terapia, maternidade é muita
transformação. Olhar pra dentro é importante!
A barriga cresce e você compra creme
especial pras estrias. A barriga cresce e o medo cresce junto, você não quer
nem ouvir falar em parto, em puerpério... que gente chata! E se concentra nos
últimos detalhes do seu bolo de fraldas para o chá...
38 semanas de gestação, ansiedade lá
em cima. Doula? Nah... bobagem, cara...
Alívio quando seu médico dá qualquer desculpa pra agendar sua cesárea (é cômodo pra ele e pra todo o sistema, mas não é o mais seguro) -- o mais importante é conhecer seu bebê -- que venha com muita saúde! (o médico não informou que na cesárea o bebê corre 3x mais riscos do que no parto normal). Cesárea feita, sem necessidade. Bebê não estava pronto pra nascer, ficou ‘cansadinho’, mas “tudo bem”, só um diazinho na UTI. Você preferiu o hospital que tinha UTI ao que era adaptado ao parto humanizado, o importante é ter o melhor pro seu bebê não é mesmo?! (Melhor seria se não precisasse de UTI por causa de uma intervenção desnecessária).
Alívio quando seu médico dá qualquer desculpa pra agendar sua cesárea (é cômodo pra ele e pra todo o sistema, mas não é o mais seguro) -- o mais importante é conhecer seu bebê -- que venha com muita saúde! (o médico não informou que na cesárea o bebê corre 3x mais riscos do que no parto normal). Cesárea feita, sem necessidade. Bebê não estava pronto pra nascer, ficou ‘cansadinho’, mas “tudo bem”, só um diazinho na UTI. Você preferiu o hospital que tinha UTI ao que era adaptado ao parto humanizado, o importante é ter o melhor pro seu bebê não é mesmo?! (Melhor seria se não precisasse de UTI por causa de uma intervenção desnecessária).
Bebê recebeu alta, você nem se
lembrou da saída de maternidade especial, era tão mais importante tê-lo nos
braços não é mesmo!?
Como amamentar está sendo difícil,
você achava que era só oferecer e pronto. Eu sei, dói, eu sei, chora... Procura
uma consultora de amamentação, vai te ajudar! (Ah não? É caro? Poxa... podia
resolver seus problemas.. custa menos que 1 mês de latas de fórmula). Bebê chora,
você chora. Quem disse mesmo que RN dorme o tempo todo? Dorme, mas só no colo.
Como era aquele negócio que sua amiga ‘bicho grilo’ usava? Sling né...
O quartinho todo enfeitado -- você só entra pra usar o trocador, mas daqui a pouco já está trocando em cima da sua cama mesmo. O berço? Virou depósito de roupas lavadas empilhadas esperando que alguém as passe. Você está cansada demais, decidiu manter o bebê com você na sua cama, só assim ele não chora, só assim, no colo, do seu lado, grudado na sua cama -
O móbile importado que toca Mozart você
jogou pela janela, seu bebê chora quando o vê, ele quer seu colo. O carrinho de
bebê, dobrado na lavanderia, já faz um mês que o bebê nasceu e você nem usou,
tem medo de sair de casa.
O pediatra (desatualizado) conta as
gramas que seu bebê ganha toda semana, você se sente pressionada. Como
amamentar é difícil. Aquela sua amiga que já teve filho te falou sobre
consultora de amamentação, que salvou a amamentação dela, nunca mais doeu, o
bebê cresceu que foi uma beleza! Mas agora você já está complementando com
fórmula mesmo né, o pediatra mandou. 40 reais por semana...
Como era mesmo aquele grupo de mães
onde se podia desabafar sobre como era difícil sem ser julgada?! Pede pra
aquela sua amiga te colocar lá de volta!
Um dia você se dá conta. No próximo filho vai fazer diferente! Se dá conta que foi enganada pelo marketing (gestantes e mães são considerados o mais lucrativo publico alvo, compram tudo pela ideia de estar dando o melhor pro seu filho).
Um dia você se dá conta que seu
médico te enganou e não priorizou nem sua saúde nem a do seu bebê, que aquele
GO particular estava mais alinhado com boas práticas em medicina e ia te
atender com mais ética. Se dá conta que aquela doula poderia ter te ajudado a
ter tido uma boa experiência de nascimento! Que o sistema é cruel e que todas
aquelas compras não te ajudaram a lidar melhor com o bebê quando ele nasceu.
A informação está disponível! Mais
importante que o enxoval é você perceber que não está fazendo uma escolha
quando não te deram a informação completa! No setor privado no Brasil 9 a cada
10 mulheres passam por cesarianas, 7 dessas poderiam ter sido evitadas! No
Brasil mulheres procuram cesáreas por medo de partos violentos, mas o parto
(bem assistido) não precisa ser um sofrimento!
No próximo filho você pode viver uma maternidade mais leve. Pode tentar dar mais chances à sua experiência de parto, à saúde do seu filho (que nasce melhor e mais pronto de parto normal se for possível). Pode se prevenir pra acertar com a amamentação, pode priorizar onde investir, e rever o que é realmente importante no fim das contas.
No próximo filho você pode viver uma maternidade mais leve. Pode tentar dar mais chances à sua experiência de parto, à saúde do seu filho (que nasce melhor e mais pronto de parto normal se for possível). Pode se prevenir pra acertar com a amamentação, pode priorizar onde investir, e rever o que é realmente importante no fim das contas.
A oportunidade de nascimento que você
dá ao seu filho e a si mesma, é um dia único na sua vida, que todos os anos
você vai reviver e ressignificar. As coisas que você comprou, tão ‘essenciais’,
seguem acumulando poeira.
Quando a gente segue olhando a
maternidade como bem de consumo, a gente segue desconectada do bebê,
desconectada de nós mesmas, alheias às nossas emoções mais profundas, não
vivendo a maternidade, mas sendo CONSUMIDA por ela.
Dê uma chance a si mesma e ao seu
bebê, repense, se informe, questione! Pense no seu plano de parto, reveja a
equipe que vai te atender. Aprenda sobre as intervenções no parto, as
intervenções feitas com o bebê, faça escolhas, aí sim, conscientes, informadas,
SUAS! Estude sobre amamentação, não rejeite aquela amiga que quer te estender a
mão por que sabe como pode ser difícil e não queria ver você chorar perdida.
Não transforme a maternidade em algo
a ser consumido, mas numa linda e transformadora EXPERIÊNCIA de vida. Dar o
melhor ao seu bebê não está no que você compra ou no plano de saúde que você
paga, às vezes está em abrir mão dessas coisas, por outras!
Depois que o bebê nasce, são as
impressões sutis e emocionais que ficarão marcadas em você, as impressões do
nascimento, das primeiras semanas. Do amor e do cuidado. O resto perde a
importância.
É claro que é gostoso o carinho com
que a gente cuida de tudo e monta o ‘ninho’. É claro que algumas mulheres
precisarão de intervenções médicas mais drásticas, cirurgias. Eu mesma precisei de uma cesariana! Algumas mulheres
terão problemas reais com amamentação, precisarão de fórmula. Agradecemos à
existência da cesárea, da fórmula, e até dos apetrechos que facilitam às vezes
(nem sempre) nossa vida.
Esse texto não é para julgar as mães, ou trazer culpa. Mas para sacudir e dizer “olha tem outras coisas mais importantes!”
Se você se sentiu atingida, olhe pra dentro, e se perdoe no que você sentiu que errou, e tente novamente, e siga em frente. Vai ficar tudo bem!
A maioria das mulheres sofre
cesarianas no Brasil não por que “escolheram”, mas foram induzidas a pensar
assim, por quem deveriam poder confiar, e pela cultura que vivemos, pelo
sistema falho de saúde que temos, por medo, por desinformação...
Sou a favor de livre escolha, mas só há escolha quando há acesso real à informação fidedigna e clara sobre todas as nuances de nossas escolhas, sem isso estamos apenas sendo levadas...
Quando aquela sua amiga te convidar pra uma roda de gestantes, sugerir um documentário, um vídeo, um livro, saiba que ela só está querendo com carinho te estender a mão, pois ela sabe com o é ‘punk’ passar por tudo isso, e ela sabe como pode ser diferente!
Viva sua maternidade como achar
melhor, mas saiba que há outras escolhas, e nem sempre o “melhor pro bebê” está
em algo que você comprou...
To falando com carinho ;)


















