segunda-feira, 15 de junho de 2015

Nunca dê alimentos para uma criança sem consultar os pais antes - nem de brinde!

Costumo gostar bastante das reflexões da Fernanda, a convidei para postar aqui no blog. Penso que as pessoas tem que parar de dar coisas pras crianças alheias. A mãe passa todo o trabalho de planejar a educação, a alimentação, leva na nutricionista, toma todo cuidado na escolha e preparo, ai vem alguém que se acha no direito de estragar tudo e passar por cima da vontade da mãe, isso é uma desautorização da mãe, e um tremendo desrespeito. Educação alimentar é uma parte muito importante na vida emocional e na saúde física daquela criança/futuro adulto. Aproveitem o texto da Fernanda!


Nunca dê alimentos para uma criança sem consultar os pais antes - nem de brinde!

(Guest Post de Fernanda Rezende Silva)

Em poucas semanas aconteceu quatro vezes: comerciantes tentaram nos "agradar" oferecendo guloseimas ou outras porcarias para a minha filha, por isso resolvi escrever e explicar porque isso não é legal. A nova geração de pais e mães tem consciência dos malefícios da má alimentação mas oferecer alimentos a uma criança sem consultar os pais vai além disso - demonstra falta de educação e respeito com aquela família. 
Para começar: minha filha já come de tudo (inclusive doces) mas não é todo dia - isso é bem regulado de forma que não atrapalhe a alimentação saudável dela. Se vamos numa festinha, ela come brigadeiro? Pode comer sim, não vamos proibir, mas não faz parte da rotina alimentar - isso é uma escolha da família que deve ser respeitada.
A primeira vez que a cena aconteceu foi num restaurante onde fomos almoçar. Fizemos o pedido e o garçom aparece com TRÊS pirulitos e coloca sobre a mesa. Por sorte meu esposo conseguiu esconder os pirulitos antes que nossa filha os visse - se ela tivesse visto claro que ia querer comer pirulito e não iria almoçar (parece um bom motivo evitar doces na hora do almoço, certo?). 
A segunda vez foi num vôo - entramos e a aeromoça já veio dizendo "oi menininha bonitinha, aqui uma balinha". Eu me meti na frente e disse que ela já tinha escovado os dentes e não ia comer bala (no vôo ela iria dormir, ou seja, se comesse bala passaria a noite de dentes sujos). Higiene me parece ser mais um bom motivo para recusar doces. Além da higiene também lembrei dos casos de alergia - por exemplo, crianças alérgicas a leite (a bala era de doce de leite). E se minha filha tivesse alergia? Imagine se a mãe pisca e a criança coloca uma bala dessas na boca - não seria nada legal presenciar uma reação alérgica em pleno vôo. 
A terceira vez foi em outro restaurante, na hora do jantar. Pedimos peixe com arroz e salada e daí mandam batata frita de brinde só porque viram que tinha criança na mesa, sem nos perguntar antes se podiam fazer isso. Se minha filha comesse batatas fritas não iria jantar, e nós escolhemos o prato com todo cuidado para não vir batata frita - não foi nada agradável ter que devolver a batata frita nesse restaurante. Ainda sobre restaurantes: não entendo porque todo prato kids dos menus vem com batata frita - já está passando da hora dos chefs revisarem esses cardápios e pelo menos incluírem uma opção mais saudável como alternativa à batata frita. 
A quarta vez que o fato aconteceu foi em uma loja de roupas infantis. Sem falar nada comigo antes, a vendedora coloca um pirulito na mão da minha filha. Naquele dia não era hora de almoçar, nem tinha acabado de escovar os dentes, mas eu tinha um motivo para não gostar da cena: não quero que minha filha cresça achando que é normal aceitar qualquer alimento de um estranho. Isso não é normal, não é saudável, não é seguro. Logo que as crianças entram na escola começam as recomendações do tipo "não aceite bala nem qualquer alimento de gente estranha". Porque os pais dizem isso? Porque sabem que tem gente mal intencionada em todo lugar. Trocar meia dúzia de palavras não faz um vendedor deixar de ser estranho, então na cabeça de uma criança ela estaria sim aceitando doce de um estranho e eu não quero que minha filha veja isso como algo normal. 

Acho que deu para perceber que meus motivos vão muito além de ser "fresca" com a alimentação da minha filha, mas mesmo se o motivo fosse só esse ainda assim deveria ser respeitado. A quantidade de crianças obesas e diabéticas em nosso país só aumenta - se bons hábitos alimentares começassem na infância seria muito mais fácil evitar essas doenças (e muitas outras).
As pessoas deveriam então parar de oferecer qualquer alimento para crianças? Seria o ideal, mas para começar tem algo mais simples que todos já podem fazer e agrada todos os tipos de pais: SEMPRE consulte os pais antes de oferecer qualquer coisa a uma criança - uma medida simples como essa evita muitos problemas, demonstra bom senso e pode ser o detalhe que realmente fideliza um cliente Leitura complementar: "Sem açucar, com afeto - por que não dar açucar para o bebê" http://nutricionistainfantil.blogspot.com.br/2012/07/sem-acucar-com-afeto-ou-porque-nao-dar.html?spref=fb

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Enxoval consciente e minimalista para o bebê que chega

NA VISÃO DA ALAYA

Gravei 2 vídeos comentando cada um desses itens, mostrando e falando de como foi o uso pra mim. Os vídeos são esses:
ENXOVAL parte 1

ENXOVAL parte 2

(Segue abaixo uma lista organizada dos itens)

Itens de extrema necessidade

- colo

- peito
- carinho e disponibilidade

          “Ser carregadas, embaladas, acariciadas, tocadas, massageadas, cada uma dessas coisas é alimento para as crianças pequenas. Tão indispensáveis, se não mais, que vitaminas, sais minerais e proteínas. Quando são privadas de tudo isso e do cheiro e do calor e da voz que tão bem conhecem, as crianças, ainda que estejam fartas de leite, se deixam morrer de fome” – Fréderique  Leboyer, Shantala.

(Economizar um $ pra contratar um obstetra humanizado, uma enfermeira obstetra, e uma doula! Isso sim faz toda a diferença!)

Itens de primeira necessidade (a medida que vai usando e sentindo falta dá pra sair com o bebê e comprar mais):

-  ROUPAS
      - pelo menos 6 bodies de manga curta + 6 manga longa (eu teria pelo menos 2 de cada tamanho RN,)
      - 6 calças (pode ser tipo mijão com pezinho ou não)
      - 3 macacões de algodão
      - 3 macacões mais quentinhos (plush, fleece etc)
      - 6 pares de meia
      - 2 casaquinhos
      - 2 mantas algodão
      - 6 fraldas de pano tipo cremer
      - 6 toalhas fralda (uma fralda de pano maior)
      - 6 paninhos de boca
      - 2 toalhas com capuz
      - 2 lençois de baixo pra berço (caso for usar)
      - 2 cobertores quentinhos

( o resto varia pela estação, macacãozinho curto pra tomar sol nas pernas ou um short, um casaquinho diferente, touquinha pra cabeça se for inverno, mas o que mais usa mesmo é body, calça, macacão, meia. O resto é enfeite, vestido, etc)

- HIGIENE

      - kit cortar unha (tesourinha romba, lixa, trim)
      - cotonete para o coto do cordão umbilical
      - algodão
      - potinho ou copo comum usado pra colocar água morna
      - álcool 70% (vai usar pouco)
      - soro fisiológico (é bom ter caso o bebê fique com nariz entupido)
      - lenço umedecido (pra usar na rua e em emergências)
      - maizena
      - pomada de calêndula da Weleda pra usar apenas quando estiver vermelho (e não a cada troca)
      - sabonete neutro de glicerina
      - pente
      - 1 lixeira com pedal (12-15L)
      - 1 porta roupa suja (usei um baratinho dobravel que achei por uns 8 reais)
      - 1 potinho plastico com tampa pra colocar o algodão e cotonete sujos na hora da troca
      - 1 balde de banho (ofurô)
      - 1 banheira
      - 1 trocador portátil
   
- QUARTO que o bebê vai dormir
     - abajour
     - berço colado na cama / ou moisés ao lado da cama / ou cama compartilhada direto
     - babá eletrônica (eu não tive e não senti falta, mas teria se morasse numa casa grande ou já tivesse 1 filho, pois é preciso ouvir o bebê nas sonecas do dia também)

- PASSEIO E BRINCADEIRAS
     - SLING (wrap, ou de argola - tive 1 de cada pois foi um item que usei todos os dias!)
     - carrinho de passeio SIMPLES, leve, fácil de dobrar e transportar (praticamente não usei)
     - bebechila (mochila para carregar as coisas do bebê)
     - bebê conforto (obrigatório para usar no carro)
     - mei-tai ou ergobaby (somente após o 6º mês!)
     - tapete emborrachado (ou aqueles tapetes de vinil que da pra comprar em metro na leroy)
     - 2 mordedores
     - 1 chocalho
     - 1 penduricalho pro carrinho ou bebê conforto

- ALIMENTAÇÂO
     - PEITO
     - peito
     - peito
     - telefone de uma consultora de amamentação e do banco de leite do hospital da cidade
     - absorvente de seio (pelo menos 1 caixa, depois pode precisar mais/ ou lavável, reutilizável)
     - copinho daqueles tipo de cachaça (ou mamadeira de colher dosadora)
     - 4 sutiãs de amamentação (achei os cruzados que é só abaixar melhores do que os que tem fivela pra desencaixar na frente)
     - potes de vidro com tampa plástica para armazenar leite materno congelado
     - tira-leite (bomba de extração - me adaptei bem com a elétrica matern-milk, nacional, barata, e foi usada todos os dias durante meses)
     - 4 babadores (após 6º mês). Gostei muito dos de silicone com uma aba 'cata comida', e dos de tecido plastico de manga comprida que cobrem mais a roupa
     - copinho de bico rígido sem válvula para usar após o 6º mês





sobre FRALDAS

- se for usar a fralda de PANO MODERNA, tenha pelo menos 20 (lembrando que as de tamanho único só começam a servir bem após certo peso do bebê, 4 ou 5kg - eu usei 2 pacotes de fralda descartável RN)
- no caso das descartáveis, lembre que o recém nascido troca muita fralda (umas 8 por dia), e as tamanho RN costumam durar apenas um mês e o bebê já passa pra P.
 

NÃO USEI, não usaria, e não recomendo o uso

- Mamadeiras , de qualquer tipo de bico e modelo! (e seus acessórios, limpadores, dosadores, aquecedores etc etc)
- Chupetas
- Andador (proibido e perigoso)
- Canguru tradicional (faz mal pro bebê, a postura não é ergonomica, aposte no sling)
- Bolsa do bebê de pendurar no ombro
- Garrafa térmica
- Enfeite de Porta
- Protetor de berço (kit berço não é recomendado)
- móbile de berço (o bebê estava comigo quando estava acordado)
- Sapatos
- Roupas tipo pagão ou com botões atrás e enfeites demais, nada práticas.
- Saída de maternidade (caro e desnecessário, um macacão bonitinho resolve)
- colônia pra bebê
- Firulas!








segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tudo (ou quase tudo) que você precisa entender sobre o que é parto humanizado!

Em 2013, no meu canal do Youtube, eu postei um vídeo explicando o que é o Parto Humanizado, pois muitas pessoas acham que isso é um tipo de parto, uma modalidade, um estilo, e não um conceito que envolve tantas coisas importantes para as mulheres! É muito estranho cada vez que vejo alguem dizendo que "quer um parto normal mas não esses humanizados" (me pergunto, "como assim, você quer ser maltratada e não ter voz de decisão?!") Então tive a ideia de gravar esse vídeo pra ajudar as pessoas a entenderem o que é isso que está tão em voga hoje em dia.


Uma jornalista viu meu vídeo e me contactou para que eu respondesse algumas perguntas que ela transformaria em matéria para um site voltado a saúde da mulher. O resultado ficou bom e está aqui http://www.dicasdemulher.com.br/parto-humanizado/


Procurei desenvolver mais as respostas e transformei o questionário nesse post. 


- O que é um parto humanizado? (princípios)

      O conceito central do parto humanizado gira em torno da restituição do protagonismo da mulher. Ela deve ter acesso a informações verdadeiras e de qualidade, ser respeitada em sua individualidade enquanto sujeito emocional e cultural, e não deve ser feito nada com o corpo dela sem seu completo consentimento. No parto humanizado o profissional responsável pelo atendimento é um guia do processo, ele trabalha em parceria com a mulher e respeita as escolhas e vontades dela dentro do possível, orientando as decisões e não simplesmente impondo protocolos (muitas vezes estes desatualizados). 
     Esse profissional compreende que o parto é um evento fisiológico e natural e que a maior parte das mulheres (cerca de 85%) conseguirão parir sem nenhuma ou quase nenhuma intervenção, é um profissional que acredita na força e capacidade da mulher de dar à luz ao seu próprio filho e que não a diminui de forma alguma nem a aliena do processo e das decisões, muito menos trata a gestação como uma doença. 
     No parto humanizado a mulher costuma ser atendida por uma equipe multiprofissional, e esses profissionais estão alinhados com o que há de mais recente e atualizado em termos de evidência científica no atendimento obstétrico. É esse tripé - respeito as evidências científicas, atendimento multidisciplinar e respeito ao protagonismo da mulher - que forma o conceito de parto humanizado

- Como costuma ser feito? ( como costuma ser também o momento de preparação para o parto humanizado? E o pós parto?)

     É importante haver um bom pré-natal, de modo que haja segurança nas tomadas de decisões e possa-se determinar a condução correta do atendimento. A mulher que busca um atendimento humanizado sabe da importância de um bom acompanhamento da gestação. Um profissional humanizado não costuma pedir exames desnecessários (o excesso de exames sem necessidade, que só aumentam a ansiedade das mulheres, tem sido uma prática comum no Brasil), mas sabe avaliar quando um caso necessita de maior investigação. Muitas mulheres sentem que estão se preparando para um parto humanizado ao fazer yoga ou alguma atividade do tipo (que é ótima pra gestação), porém isso não basta para garantir umparto normal respeitoso. A preparação principal está na busca de informação, de grupos de apoio, de doulas e da escolha de um profissional alinhado com as evidências. É um preparar a si mesma internamente, pois as portas só se abrem de dentro para fora.
     Não há uma regra sobre como fazer um parto humanizado, ele não é uma técnica ou posição específica, não tem relação com o bebê nascer de cócoras ou na água, em casa ou no hospital, com o auxilio do pai ou de uma amiga. Diz mais a respeito de como o atendimento é feito a mulher. O profissional humanizado entende que está ali para ajudar a mulher, mas que ela é a personagem principal dessa história. Cabe a ela escolher a melhor posição, e decidir quem quer de acompanhante. Um profissional humanizado interfere apenas quando necessário, de acordo com seu conhecimento mais atualizado, e sempre em dialogo com a mulher, nunca de forma autoritária.
    Em uma gestação saudável o parto humanizado pressupõe respeitar o tempo do bebê (esperar a mulher entrar em trabalho de parto sem dar limites arbitrários para isto), respeitar o tempo da mãe em trabalho de parto (monitorar o bem estar fetal pelo tempo que for necessário, sem estipular um limite de horas em que o bebê precisa nascer), não usar medicações para interferir no processo fisiológico se não forem estritamente necessárias, não realizar episiotomia, não empurrar a barriga da mulher, permitir que coma, que ande, que vocalize, que grite, que se expresse como ela achar melhor. Parto humanizado é compreender que a mulher sabe parir, e usar os conhecimentos médicos apenas para dar suporte quando necessário.

      O pós parto de quem teve um parto humanizado não é necessariamente diferente de outro pós parto, porém é mais comum que essas mulheres, por já estarem em um movimento questionador e buscando informações diferenciadas, estejam mais engajadas em amamentar e muitas vezes façam escolhas que fogem do senso comum no que diz respeito a criação dos bebês.

- Um parto humanizado pode ser feito tanto em casa quanto no hospital?


      O que determina a humanização de um parto é a condução deste, e não o local, portanto ele pode ocorrer tanto em casa quanto no hospital. Se houver respeito à autonomia da mulher, tratamento acolhedor e não violento, e atendimento atualizado por parte do profissional, pode-se dizer via de regra que o parto foi humanizado. 
     Um parto humanizado não precisa ser em casa, não precisa ser na banheira ou ter música e luz de velas, ele diz respeito principalmente à permitir que a mulher possa parir da melhor forma possível para ela e que nenhuma intervenção seja feita no corpo dela sem que haja real necessidade e sem que ela compreenda e aceite. No parto humanizado há confiança e dialogo entre a gestante e o profissional que a atende.

- Todo parto normal é humanizado?

     Infelizmente no Brasil a maioria dos partos normais é cercado de violência obstétrica, isto é, agressões verbais, e emocionais (caras feias para a mulher, repreensões ao comportamento dela, trata-la como se fosse um objeto, ignorar seus desejos, medos e dúvidas, isola-la, não permitir acompanhante) e também agressões físicas na forma de impedir que a mulher tenha liberdade de movimentação, obriga-la a ficar em uma posição que não é a mais confortável para ela, e executar no corpo dela ações invasivas e dolorosas sendo estas obsoletas e inadequadas em termos de melhores práticas de acordo com a evidência científica, como empurrar sua barriga ou cortar seu períneo ou impedir que se alimente e beba água. Um parto normal pode ser humanizado ou ser extremamente violento. O movimento pelo parto humanizado busca que as mulheres sejam respeitadas em um dos momentos mais importantes de suas vidas, não é o parto normal de qualquer jeito.

- Uma cesárea pode ser humanizada?

      Humanização do parto pressupõe protagonismo da mulher, pressupõe que ela tenha voz ativa nas ações e escolhas sobre si e seu corpo; e também pressupôe respeito à ciência. Assim, uma mulher pode, mesmo com acesso a todas as informações, escolher para si uma cesárea, porém uma cesárea feita sem necessidade médica real, com todos os riscos inerentes a essa ação, não pode ser considerada uma ação humanizada. Em uma cesárea a mulher é passiva nas ações, ela não toma parte nos acontecimentos, ela é submetida a procedimentos dos quais não tem controle. Uma cesárea pode ser respeitosa quando feita com indicação, pode ser necessária, pode ser amorosa e humana. 
     Há procedimentos que o profissional pode fazer para minimizar os danos da cesárea, como permitir que a mãe tenha contato imediato com o bebê, ou baixar as luzes na hora do nascimento, mas uma cesárea não é um parto humanizado. Uma cesárea feita fora do trabalho de parto, agendada, não é humanizada, é contra  a ciência e submete a mãe e o bebê a maiores riscos. É importante lembrar que humanização não tem relação com ser meramente carinhoso com a gestante, mas respeitar as indicações com base em uma medicina atualizada e científica. Quando necessária (cerca de 15% das vezes) e bem indicada ela pode ser respeitosa, e salvar uma vida.

- Quais são, em sua opinião, as vantagens de apostar no parto humanizado?


  • É levar para o resto da vida, em cada aniversário do seu filho/a a lembrança de um dia que foi especial, sem sofrimento, cercado de amor e respeito. 
  • É dar o melhor de si, e buscar o melhor para o seu bebê; 
  • É se submeter a menos riscos e ter mais benefícios. 
  • É ter mais chance de um nascimento saudável, um bebê respeitado e trazido ao mundo cercado de carinho.  
  • É não ter seu corpo submetido a dores desnecessárias e procedimentos invasivos, e a confiança de que ofereceu o melhor (e que garante mais saúde) para seu filho e para si mesma. 

     Não se trata apenas de uma recuperação melhor, mais sucesso na amamentação, menos chances de sofrer com depressão pós parto, menos riscos numa próxima gestação ou um bebê com melhor sistema imunológico, é muito mais que isso! Qual seria a vantagem de um parto NÃO humanizado? Nenhuma! 
    Todo parto deveria ser humanizado, não deveriamos ter que lidar com a violência nesse momento tão especial e delicado. Todo parto deveria ser atualizado, com profissionais que visam a saúde, e estão bem fundamentados em suas práticas. Todo parto deveria ser celebrado com amor, e respeito à autonomia e individualidade de cada mulher. 


- No parto humanizado, que profissionais participam/podem participar do processo?



      No caso de gestações de baixo risco (ou risco habitual) é possível que o parto seja acompanhado por enfermeiras obstetras ou obstetrizes. Esse é o modelo de assistência na Austrália e em vários países europeus. Quando a gestação se torna de risco ou o parto pede intervenções mais invasivas, é importante que haja um médico obstetra. Em partos naturais tanto obstetras quanto enfermeiras obstetras e obstetrizes estão capacitados para efetuar o atendimento. Algumas mulheres escolhem contratar também pediatras humanizados, pois muitas vezes as intervenções feitas no bebê logo após o nascimento também são invasivas e desnecessárias, e os pais querem proteger seus bebês disso, por isso procuram pediatras atualizados. Além disso a presença de uma doula auxilia muito na diminuição da dor e na satisfação da mulher com seu parto. 

https://blogger.googleusercontent.com/img/proxy/AVvXsEgjqROa2D_FwBCrxsJcLtwNcX84QrcfNpbWFkHEUeiQF0MoY1R49uAeJF65mn9DcZVrY4FuanHT4E4lIk5ZiHySMyuMObOg8Vtih6-_fhwRJVUSS_nrOGhoCA2hr97_VGRG2xHZAyyq60a3iH04XHmXChW52g-h9QN3Q7R0=s0-d-e1-ft

terça-feira, 5 de maio de 2015

Relato de Parto do Arthur, por Simone Ritter

Eu não conheço a Simone, ela é amiga da Nathaly (cujo primeiro parto eu fui a doula), e a gente se 'esbarrou' por aí. A Simone pariu de um parto super parido, bem na época que eu estava super absorta no puerpério (meu pós parto). Eu idealizei que minha filha nascesse no chuveiro de casa, e uma foto da Simone me tocou la no fundo da alma, pedi autorização pra ela e usei a foto nesse post http://alaya77.blogspot.com.br/2015/02/o-bebe-que-nao-nasceu-no-chuveiro.html

E ai ela sugeriu que eu colocasse o relato de parto dela aqui no blog também, então aí vai!




“Quando você está em contato com sua força interior todo o Universo conspira a seu favor.”
“Calma, tudo vai dar certo, seja como for, será o melhor.”
“Não vim até aqui para desistir agora.”
“Bebês sabem nascer, mulheres sabem parir.”
“Arthur escolherá a data dele, só dele.”

Frases que entoava para me empoderar... um mantra de força e fé em meus propósitos.
Há 10 anos atrás decidi que queria um parto humanizado, tomei minha decisão depois de ver tantas mulheres parindo felizes (trabalhava na maternidade do HU de Florianópolis/SC), depois de participar da I Conferência de Humanização do Parto e Nascimento, depois de conhecer pessoalmente Michel Odent e apresentar meu primeiro trabalho científico sobre a importância do aleitamento materno para o vínculo mãe-bebê. Era minha decisão! 

Daí que vim para Brasília, daí que engravidei (uma feliz surpresa, pois teria deficiência de hormônios para engravidar) e daí que veio o susto: parir humanizado em BSB era caro demais e quase uma miragem! Relutei, passei por vários obstetras, alguns tentaram me enganar, outros foram sinceros avisando que só fazem cesárea... desespero! Mas eu sabia o que eu queria! Deixei claro para toda família, não admitia uma cirurgia para ter meu filho a não ser que fosse estritamente necessária (uns 5 casos reais).

Fiz todo meu pré natal com atenção, cuidei da alimentação, pratiquei atividades físicas, porque eu sabia que daria certo, que no final iria dar certo... só não sabia para onde correr, pois tive tantos “nãos”, tantas decepções com profissionais... massss sabia que bebês nascem sozinhos!

Conheci Nathaly Suellen, uma pessoa irradiante que me iluminou e em meio ao meu desespero por um parto respeitoso ela me deu as direções e tudo começou a acontecer! É meu anjo na Terra, minha madrinha de parto. Nathy e sua família para sempre farão parte de nossa história.

Com umas 36 semanas e sem obstetra que me respeitasse, meu marido também cansado da peregrinação, aceitou o parto domiciliar planejado. Contratamos equipe, fotografa, doula... compramos materiais do parto, tudo certo. Estava tranquila, sabia que tudo iria dar certo! Trabalhei minha psique para esperar até 42 semanas, para um trabalho de parto longo, para possíveis complicações, para hemorragias, para não aguentar a dor, enfim, pensei no que poderia ser complicador e buscava tranquilidade para lidar com qualquer situação. Afinal, “bebês nascem sozinhos... tudo vai dar certo, seja como for.”

Quarta, 21/01, com 39 semanas tive consulta, tudo perfeito, me sentia ótima, nada de tampão, nem pródromos, ainda tinha aula de hidro à noite... td indicava que Arthur esperaria mais um pouco... Ledo engano!

Na mesma noite, 21/01 umas 23h quando dançava na sala de minha casa, ao som de “Bailando” de Enrique Iglesias (sim, adorava dançar com minha barriga lindona), senti uma primeira cólica... hummm talvez eram os pródromos... vinha e passava rápido... Liguei para a enfermeira obstetra, fui orientada a descansar, pois poderia ser início de trabalho de parto e como era primípara poderia ser muito longo.

Fui tentar dormir... mandei zap para todos (enfermeiras, doula, obstetra, fotógrafa), que o Arthur poderia estar a caminho... contrações irregulares...
Tentei dormir, acordei umas 2h da madrugada e a “dorzinha” já havia aumentado e estava realmente incomodando... coloquei compressa quente no pé da barriga e não aliviava... comecei a me sentir fragilizada... acordei marido... e dizia que algo estava errado... não podia sentir aquela dor logo de início, eu ainda teria muito trabalho pela frente... Arthur poderia demorar dias ainda para nascer e eu estava reclamando das “cólicas”.

Por volta de umas 4h da madruga senti que poderiam ser as contrações... mas era uma dor estranha, pouco intervalo, eu ainda queria ficar bonitona para o parto (sim, parto humanizado pode ser com batom na boca, e daí?), mas cadê o intervalo para isso? Estava perdida ... e pensei “Como essa mulherada aguenta mais de um dia com essas dores?” fiquei com vergonha de mim... não sabia o que estava acontecendo, mas fiquei com vergonha de ser fraca, de começar a pensar na cesárea... a dor aumentava... eu só sabia que algo estava errado comigo, com meu corpo... o tampão não tinha saído, a bolsa não tinha estourado e eu com aquelas dores... E eu pensava “não acredito que não sou mulher pra isso”. “Será que estou sentindo mais dor porque comi feijão e deu gases?” “Algo está errado, isso não está certo” Enfim... lembrei de vocalizar... fui para chuveiro para acalmar a dor... mas ela não acalmava.

Madrugada avançou e disse ao marido para avisar ao povo porque estava com muita dor e não sabia o que era... eu achava que estava começando o trabalho de parto, sentia vontade de fazer força, embora sabia que era cedo demais, eu iria ficar muito cansada, mas não havia o que fazer, não podia controlar... os puxos vinham... fazia força. 

5:40h saiu o tampão, lembrei de guardar para mostrar para a Nascentia quando o dia amanhecesse e as profissionais chegassem... em minutos senti vontade de ficar de quatro e 6:04h “ploc” estourou a bolsa e alagou meu quarto... líquido clarinho, perfeito, alívio, não havia nada de estranho! Pensei: “começou mesmo o trabalho de parto”... preciso aguentar porque vai longe isso...

Senti algo me pressionando... e pensei “meu Deus, o que tenho de errado? Será que são meus órgãos saindo para fora? Será que tenho alguma deficiência?” “porque sou tão fraca?” Tentei sentir o que era, não senti os cabelinhos de meu filho, e fiquei atordoada, não podia ser meu bebê, estava cedo demais e então, fui para chuveiro, chamei o marido e senti pegar fogo... era ele... o Círculo de Fogo... senti queimando de felicidade e medo... não sentia os cabelinhos da cabecinha do Arthur, pensei “minha nossa senhora me ajuda que acho que o Arthur está vindo de bundinha Jesus nos acude”! Marido olhou e era mesmo, nosso bebê, mas estava com a cabecinha apontando, ufa, não estava pélvico! Era meu novo ser, meu pequeno, meu reizinho, menos cabeludinho do que pensei ehhehe”

Por instinto, fiquei de cócoras e senti os puxos denovo; 6:28h nosso filho deslizou suave, gostoso, Vicente, o pai, recebeu nosso filho de meu interior direto em seus braços e falava eufórico, muito emocionado: “é nosso bebê, é nosso Arthur amorzinha... tu é uma guerreira, tu é uma guerreira, tu aguentou tudo sozinha...” E eu pensando que não aguentava a dor… mal sabia que já estava era parindo mesmo!

Papai deu minha cria em meus braços, Arthur chorou um choro gostoso, de amor, de vida, de respeito, de luz e nós choramos juntos! Vicente correu, tirou foto e avisou a equipe: venham conhecer, Arthur nasceu. Eu estava em transe, não acreditava que era verdade... era mais que felicidade, era perfeito, era sim a força do Universo conspirando a nosso favor. O parto não foi o que eu pensava, nem o que tinha programado, foi imensamente melhor!

Choveu no instante que Arthur nasceu, após muita seca em pleno janeiro de Brasília, choveu quando nosso bebê nasceu... e Nathaly ligou, sem ninguém a avisar ela perguntou se o Arthur havia nascido... ela sabia tudo, ela sentia tudo e ela também havia sonhado que ele nasceria assim, ao amanhecer do dia. Nosso anjo na Terra, nossa madrinha de parto!

Nasceu! Arthur nasceu! Eu nasci, Vicente nasceu! Todos nascemos juntos! Em casa, em nosso banheiro! Um perfeito bonding. No aconchego do nosso lar, com calma, paz, amor, sem correrias... nasceu da melhor forma possível, não quis esperar ninguém, queria que fosse só nós três. 

E assim foi nossa história! Arthur nasceu quando ele quis, nasceu rapidinho, antes de todos chegarem... foi um parto desassistido de profissionais e iluminado pelos instintos, embalado pela natureza, só ela, que foi perfeita. Não teve massagem para as dores, não teve instruções do que fazer, não teve piscina com água quente, não teve aromaterapia, não teve cromoterapia, não teve profissional de fotografia, nada disso. Marido Vicente foi excelente, foi transformador, me ajudava dizendo que eu era forte, que eu sempre enfrentava tudo, que iria dar certo, que logo a equipe chegaria, fez eu acreditar que daria certo. Meu marido foi doula, obstetra, parteiro, um homem inteiro, completo, perfeito. 

Cinco minutos de nascimento do Arthur e chegou a Nascentia! Fiquei com meu bebê agarradinho em mim, Arthur com nota máxima: Apgar 10, veio com 3.100kg, 48cm, uma lindeza! Batimentos excelentes, bebê corado, tudo perfeito! Amém! Lembro da Lara olhando apavorada e dizendo: que lindo! Eu lembro que sorria, só sorria, era tudo alegria! 

Resumindo, pari feliz! Sou primípara, meu trabalho de parto total durou das 23h de 21/01 (cólicas suaves) até 6:28h do dia seguinte (nascimento), ou seja, 7h e 30 minutos totais; não tenho mínima noção de que fase começou uma coisa e terminou outra e tb não contei as contrações direito... mal sabia o que estava acontecendo, como eu contaria isso direito? Tive laceração superficial de mucosa, não tive hemorragia. E quer saber? Mal vejo a hora de parir denovo! Agora sim sinto-me uma mulher completa e muito, muito cheia de bençãos!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Mingau saudável e adocicado com aveia e fruta (sem lactose e sem açúcar)

Esse não é um blog de receitas mas é um blog para mães, e muitas amigas tem me pedido a receita que faço de mingau para a Lara que é um sucesso, ela adora!

Eu sou péssima com medidas e faço tudo "no olho", então tentei dar uma ideia das medidas na receita, mas sintam-se livres pra deixar mais grossinho ou mais molinho. A dica é ter liberdade para adaptar e inventar.


Muitas mães equivocadamente usam produtos industrializados na introdução alimentar de seus filhos que são cheios de açúcar. A industria vende aquelas embalagens coloridas e nos convencemos que é aquilo que precisamos dar para os bebês, quando na verdade são apenas farinhas açucaradas cheias de conservantes que mais fazem mal. O Mucilom por exemplo, vejamos os ingredientes:



  •    FARINHA DE ARROZ, AÇÚCAR, FARINHA DE AVEIA, EXTRATO DE MALTE, SAIS MINERAIS (CARBONATO DE CÁLCIO, FOSFATO DE SÓDIO DIBÁSICO, FUMARATO FERROSO, SULFATO DE ZINCO), VITAMINAS (VITAMINA C, NIACINA, VITAMINA E, ÁCIDO PANTOTÊNICO, VITAMINA A, VITAMINA B1, VITAMINA B6, ÁCIDO FÓLICO, VITAMINA D) E AROMATIZANTE VANILINA. CONTÉM GLÚTEN. CONTÉM TRAÇOS DE LEITE.

O açucar é o segundo maior ingrediente, tem mais açúcar do que farinha de aveia. O resto são vitaminas sintéticas e aromatizante.
O bebê precisa disso? Não! Vitaminas ele tira do leite materno, das frutas, dos legumes. E esse açucar todo apenas faz mal a saúde dele.
Então como fazer? Ora! Qual o ingrediente principal? Farinha de arroz e farinha de aveia (ou de milho). Compre essas farinhas, in natura, pronto! Sem açucar, sem embalagem colorida, sem a nestlé te enganando.

Eu nem sempre dou mingau pra minha filha pois aqui seguimos o método BLW em que ela guia a própria introdução alimentar e come em pedaços desde os 6 meses, (por isso eu mantive os pedaços das frutas e não amassei eles). Mas eu mesmo adulta gosto de um mingauzinho então faço pra ela e aproveito pra mim também!

Essa foi a receita que mais gostei até agora, mas vocês podem usar a criatividade e adaptar.  Vamos lá!

Você vai precisar

1 – ameixa preta / tâmaras / damasco / uva passas  -- escolha 1 desses ingredientes ou misture sabores se preferir (ah, sem caroço)

2 – fruta que possa cozinhar, sugestão: maçã, banana, pêra (escolha 1)

3 – aveia (tanto faz se for em forma de farinha, flocos finos ou flocos maiores)

4 – semente de chia

5 –  (opcional) maisena / fubá / farinha de arroz

Agora é só decidir o sabor, se você quer um mingau de maçã com damascos, ou pêra com ameixa etc. O ingrediente 1 por ser “seco” concentra açúcar natural da fruta e serve como adoçante.

Coloque 2 ameixas (tâmaras, damascos, ou uma colher de passas) de molho em  um pouco de água suficiente para bater depois, uns 100ml. Deixe de molho por cerca de 15 min. Enquanto elas ficam de molho escolha a fruta e pique em pedaços. Coloque os pedaços em 200ml de água e leve ao fogo até amolecerem um pouco (ou uns 2 a 3min no microondas).
Quando terminar a fruta, pegue uma colher de sobremesa de chia e coloque na água junto com a fruta picada e mexa para misturar as sementes. RESERVE

Com o mixer bata as ameixas. Misture a água de ameixas com + 100ml de água
acrescente 3 colheres de sopa de aveia (ou 2 de aveia e 1 de maisena)  e mexa até engrossar, quando estiver grosso jogue a água com frutas e chia, e misture. Apague o fogo e pronto! 
Fica muito gostoso, dei pra ela, estoquei um pouco em potes e comi o restinho

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O bebê que não nasceu no chuveiro

As vezes eu vejo uma foto de um parto que ocorreu como eu idealizei o meu, e ao olhar para aquela foto é como se eu estivesse em uma realidade paralela em que aquela cena ainda fosse acontecer comigo. Como se eu fosse acordar de um sonho e minha cesárea nunca tivesse acontecido, e eu ainda fosse parir ali no chuveiro, me agachar, pegar minha filha, sentir seu corpo quente colado no meu, sorrir...

Aquele bebê nunca nasceu, ele existiu como forma-pensamento, mais concreto que a imaginação. Ele esteve ali o tempo todo, o bebê parido. Foi no chuveiro que conversei com o bebê que ainda habitava dentro de mim, foi no chuveiro que me entreguei à força das contrações, foi no chuveiro que estive sozinha, mergulhada em mim mesma, foi no chuveiro que chorei e aceitei que eu precisava de uma transferência...

Mas o bebê do chuveiro, ele ainda existe em algum lugar, ele não nasceu, e às vezes ele habita minha consciência quando vou tomar banho.

Quando vejo uma foto assim de parto parido no chuveiro, preciso me dar uns petelecos internos e dizer “ela já nasceu”, ela não está mais aqui dentro de mim, se movendo e me preenchendo, ela não passou por mim, não me atravessou. Ela foi tirada de mim.

Mas esse outro bebê, o bebê astral, acho que ele vai me acompanhar, não nascido, pro resto da minha vida."

(Na foto Simone Ritter com seu Arthur - obrigada por ter cedido a foto que me emocionou)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Introdução alimentar pelo método BLW -- o bebê conduz sua alimentação

Depois de muita leitura decidi gravar um vídeo falando um pouco de como estou lidando com a introdução alimentar da minha filha, e como achei interessante esse método em que a criança tem autonomia para se alimentar. Nesse post colocarei o vídeo explicativo e alguns vídeos exemplificando o bebê comendo, e no fim deixarei alguns links de alguns dos melhores textos que achei sobre o assunto (tanto o BLW quanto a introdução alimentar em si), incluindo o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria.


Minha intenção é apenas compartilhar a experiência e ajudar outras mães que assim como eu buscam uma forma mais saudável de lidar com a alimentação do bebê

Sou super adepta de uma alimentação mais natural e saudável, mas gostaria de colocar também que penso que isso deve ser levado de forma leve, tranquila, para que não se alimentem também neuroses. As recomendações são formas de nos ajudar a ter uma vida mais saudável, não são prisões de conduta. Que cada uma reflita, a partir das informações que tem acesso, das recomendações de saúde que recebe, e de sua consciência, como se responsabilizará pela alimentação de seus filhos.

Buscamos o melhor pois nos importamos, sem intenções de "perfeição".  Mas se uma alimentação melhor é possível, e só traz benefícios, por que não tentar não é mesmo?!




Compartilhando minhas leituras e o que estou experimentando: 




EXEMPLO - Introdução alimentar - bebê de 6 meses comendo pelo método BLW
Nesse vídeo minha filha come 8 variedades de alimentos, e por volta dos 3:25min ela demonstra um desengasgo (gag reflex)


Minha filha comendo laranja em pedaço pela primeira vez na vida (6 meses e 1 dia)https://www.youtube.com/watch?v=s6QJFM8FL2A


Comendo papinha de colher pelo método BLW (ela controla a colher - 6 meses e 3 semanas)https://www.youtube.com/watch?v=GZiNbFozgyo


Gostaria de destacar alguns pontos:
  • Estudos científicos tem comprovado que fatores nutricionais e metabólicos em fases iniciais do desenvolvimento humano têm efeito em longo prazo para toda a vida adulta. Isso quer dizer que os primeiros anos de alimentação do bebê são absolutamente essênciais para determinar como o corpo dele vai funcionar, e como será sua saúde na vida adulta. Agressões alimentares nessa primeira fase de vida, tão suscetível, podem causar efeitos negativos no futuro. Melhor garantir um futuro saudável para nossos filhos.
  • O leite materno continua sendo a principal fonte de nutrientes para o bebê até 1 ano de vida. A alimentação a partir dos 6 meses é complementar. A introdução dos alimentos só deve ser iniciada aos 6 meses, antes disso o bebê possui mais chances de desenvolver alergias alimentares e eczemas, pois o sistema digestivo da criança não está pronto para receber outros tipos de alimentos ainda. A partir do sexto mês o bebê começa a produzir enzimas digestivas em quantidades suficiente que permitem que ele aos poucos receba outros alimentos. A maturidade fisiológica e neurológica acompanha a habilidade de sentar e agarrar objetos. O bebê passa a não ter tanto o reflexo de empurrar a língua para frente. Mesmo o bebê que não mama no seio materno, e toma apenas fórmula láctea, mesmo este não deve introduzir os alimentos antes dos 6 meses (como de forma muito errada e irresponsável muitos pediatras vem indicando), essa é a instrução dada pela própria Sociedade Brasileira de Pediatria, baseada nos estudos mais recentes - o bebê deve continuar apenas com fórmula até os 6 meses, caso o leite materno não seja possível.
  • Após os 6 meses o bebê deve receber alimentos complementares um a um, como caráter de teste, para aos poucos ir diversificando. Deve se ofertar os alimentos 3x ao dia para bebês que mamam no seio, e 5x caso não mamem mais. Se a criança recusar um alimento, deve-se oferecer novamente em outras ocasiões. É normal que leve-se até mesmo 10 exposições do mesmo alimento para que a criança passe a aceita-lo. Oferecer frutas como sobremesa é válido após as refeições principais pois ajuda na absorção do ferro presente nos alimentos vegetais como o feijão e as folhas verde-escuras.
  • A capacidade gástrica da criança é pequena, e após os 6 meses é em torno de 20 a 30ml/kg. Por exemplo, uma criança com 7kg, tem uma capacidade gástrica em torno de 200ml, para cada refeição. 
  • Não, a criança não precisa nem deve "experimentar" tudo que a família come, por exemplo iogurtes industrializados, queijinhos, bebidas alcólicas, achocolatados, sorvetes, biscotos recheados etc. A criança deve ser protegida de "experimentações" que não façam bem a ela.
  • Nunca brigue com a criança para que ela coma tudo o que VOCÊ quer que ela coma. Não o obrigue a comer até o fim caso ele esteja dando claros sinais de já estar satisfeito. Geralmente somos ansiosas e esperamos que elas comam mais do que de fato precisam. Forçar o bebê a comer pode fazer com que ele aceite cada vez menos. Cuide para não transmitir sentimentos de frustração para a criança, e nem passe a mensagem de que ela será mais amada caso coma além do seu limite.
  • Crianças tem personalidades diferentes e nem tudo que funcionou com um funciona com o outro. O paladar de cada um é único, e o apetite também pode variar. 
  • O leite de vaca integral, por várias razões, entre as quais o fato de ser pobre em ferro e zinco, não deverá ser introduzido antes dos 12 meses de vida. É um dos grandes responsáveis pela alta incidência de anemia ferropriva em menores de 2 anos no Brasil. 
  • Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia (manual SBP). Dê preferência a fruta in natura, sucos se transformam em açucar no organismo e contém poucas fibras. (leia mais: http://pat.feldman.com.br/2014/08/11/nao-ofereca-sucos-aos-seus-filhos/)
  • Alimentação não é apenas para o corpo, deve nutrir o emocional também. Faça desse momento algo alegre, interessante, tranquilo. Se alimentar não é apenas encher o estômago, permita que a criança se relacione com o alimento, não a alimente usando distrações, participe do momento. Deixe a criança se sujar e explorar a experiência.
Sites com mais informações sobre o método BLW:

http://pediatriadescomplicada.com/2015/02/06/introducao-alimentar-entenda-o-metodo-baby-led-weaning-blw/

http://guiadobebe.uol.com.br/comendo-sozinha/ (texto muito bom sobre o prazer de comer com liberdade, de fazer sujeira inclusive e sobre todo o lado psicológico da alimentação)

http://www.nossoprimeirobebe.com/diretrizes-para-blw/

Grupo do Facebook BLW Brasil, com vários arquivos informativos: https://www.facebook.com/groups/586263108059068/

Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria: http://www.sbp.com.br/pdfs/14617a-PDManualNutrologia-Alimentacao.pdf

Blog bacana com dicas e receitas saudáveis http://www.asdeliciasdodudu.com.br/2013/05/meu-filho-nao-come-6-7-meses-introducao.html

Por que NÃO oferecer açucar para o bebê: http://nutricionistainfantil.blogspot.com.br/2012/07/sem-acucar-com-afeto-ou-porque-nao-dar.html ("O açúcar é um "alimento" altamente calóricos, pobres em nutrientes e o consumo em excesso pode gerar uma série de doenças. A ingestão excessiva de açúcar, além de aumentar a concentração de insulina no sangue, também eleva a quantidade de adrenalina, causando irritação, ansiedade, excitação e dificuldade de concentração". )

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ENGASGO é diferente de sufocamento (em inglês: gag X choke). Um bebê realmente engasgado não tosse nem emite som, pois o ar não está passando. A manobra para ajuda-lo é essa abaixo (o vídeo está em inglês mas dá pra ver). É sempre bom saber https://www.youtube.com/watch?v=ZlIknKErzV0

Esse post explica direitinho que reflexo de vomito (gag) não é o mesmo que engasgo http://tanahoradopapa.com/2015/03/06/tosse-nao-e-reflexo-de-gag-reflexo-de-gag-nao-e-engasgo-e-engasgo-e-coisa-seria-parte-3/

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Sobre o não uso de mamadeiras e bicos moles (Fonte: Caderno de atenção básica a amamentação do Ministério da Saúde http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_crianca_nutricao_aleitamento_alimentacao.pdf):




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Partaço ou fracasso? - quando acontece uma cesárea

ainda em casa, na banheira, durante uma contração


Eu tenho muitos medos, o parto não era um deles. Passei anos me preparando para isto, atendi gestantes, ajudei amigas, acompanhei partos, vi um pouco de tudo, e de tudo um pouco mais, li, devorei, me informei, acreditei. Não venho de uma família que tem medo do parto, minha mãe, “natureba”, sempre achou que o normal, era normal, e pronto. Medo eu tinha era do hospital! Esse eu tinha sim!

Não temia a dor, nem o processo, pelo contrário, ansiava por ele, queria viver meu momento intensamente (e o vivi), queria parir, assim, igual bicho, parir minha cria, pega-la no colo, e pronto. Estava feliz em me tornar mãe, tão confiante que daria tudo certo que nem mala de maternidade eu aprontei pra ir pro hospital caso precisasse...

Existe uma distância muito grande entre o parto romantizado dos vídeos e o parto real, entre o parto idealizado e o que aconteceu, sempre, como doulas, explicamos isso. Eu não achava que passarinhos iam cantar na minha janela quando minha filha nascesse, eu sabia que ia doer, ter sangue, sujeira, gritos, medo, e era tudo isso que eu queria viver.

Os vídeos são de fato reais, a entrega, o amor, a alegria, isso tudo acontece de fato! Mas a edição pode fazer tudo parecer mais simples e rápido do que de fato é, e não mostra a luta interna da mulher que está atravessando sua jornada naquele momento. Eu não me iludia com vídeos pois tinha visto diversos partos pessoalmente, acompanhado durante horas e horas as mais diversas histórias de mulheres corajosas, eu sabia que ia doer e ia dar medo e podia demorar e que dependia unicamente de mim. Mas acreditei que tudo valeria a pena (e valeu) e que parir era natural e pronto.

Vivemos num país onde no setor privado 90% ou mais dos nascimentos são por via cirúrgica, e os partos normais são recheados de violência, descaso, despreparo, abandono. Nesse cenário, encontramos no parto humanizado um alento, um oásis, e por isso o enfatizamos tanto e o colocamos tão em voga. Parir pode ser lindo e extremamente gratificante, queremos que as mulheres saibam disso; saibam que, como dizia minha amiga Pilar, não é um bicho de sete cabeças, é de uma cabeça só (ou duas se forem gêmeos rsrs). Queremos acima de tudo que as mulheres recuperem sua auto-confiança, em si e em seus corpos, que saibam que sabem parir, que podem, que conseguem, que são fortes, capazes, mamíferas, que seus corpos não são defeituosos, e que o parto normal é mais seguro e pode ser uma experiência muito intensa e gratificante, como um verdadeiro ritual de passagem na nossa vida. E é melhor, muito melhor, pro bebê.

E nessa realidade que exaltamos tanto o natural, podemos acabar esquecendo que cerca de 15% (segundo nos diz a OMS baseada em estudos científicos de qualidade) das mulheres precisarão de uma cesariana. Não falo das que queriam a cirurgia, ou que foram ludibriadas por mitos e terrorismos disseminados pela cultura e pelos próprios médicos, falo das que queriam parir, acreditavam no parto, e não conseguiram.  Não parir dói.

Essa foi a lição que a vida quis me dar, eu caí na estatística. Cerca de 5% dos partos domiciliares planejados se transformam em cesarianas. Tive uma gestação completamente saudável e caí na roubada de “nunca achamos que vai acontecer com a gente”. Eu queria escrever meu relato de parto dizendo “eu consegui”, mas não consegui. Eu queria aquela alegria, aquela realização, aquela festa. E então quando acabei numa cesariana perdi duas coisas, perdi meu parto e perdi a festa.

Não foi por mal, eu entendo, eu também me senti assim quando amigas queridas não tiveram seu parto desejado, temos empatia, lamentamos a frustração alheia. Mas senti que ao invés de alegria e comemoração (pois sim eu estava feliz com minha filha, apesar de triste pelo meu não parto), houve silêncio e tristeza. Ao invés de mensagens carinhosas de “você conseguiu!” houve ausência. Eu não ficava feliz em ver amigas tristes por minha causa, só reforçava o sentimento de fracasso. Eu sabia que estavam “respeitando meu momento”, e com receio de como eu estava aceitando aquilo. Eu sabia que estavam dando tempo ao meu luto, e me dando espaço pra elaborar. Mas eu sentia que já não bastasse não ter parido, ainda me foi tirado o direito de comemorar... Não parir foi triste, como é triste cada vez que almejamos e nos dedicamos a conseguir algo e não conseguimos, mas não foi uma tragédia.

Acredito que toda cesárea indesejada implica em um luto do parto que não tivemos. E lamentar a cesárea não é ser ingrata (já que foi necessária e extremamente útil) e não é não amar o filho (incrivelmente algumas pessoas acham que quem não gostou de sua cesárea está automaticamente dizendo que lamenta o filho estar saudável  -- nunca diga a uma cesariada “O importante é que seu filho está vivo”)

E foi aí que passei a observar mais o discurso por trás da comemoração do parto. Não escrevo para falar de mim, mas uso o que vivi para falar do que aprendi. Sei que muitas das falas que vejo não são escritas ou verbalizadas na intenção de dizer o que eu leio, pois lemos o mundo a partir dos nossos próprios olhos, e os meus estão matizados por um sentimento de “menas” (é, isso mesmo.. por que não parir dói).

Decidi me expor, numa tentativa de que minhas reflexões ajudem a dar voz a todas que se calam. Quando publiquei meu relato de não-parto e quando pedi ajuda nos grupos para entender e elaborar o que aconteceu, não esperava receber a quantidade de mensagens privadas que recebi. Pessoas que se identificaram, que viveram coisas parecidas, que se sentiam de forma semelhante, e tinham medo de expor, de falar, de contar; medo dos julgamentos. Não falo isso num tom vitimista, pois o pior julgamento é o auto-julgamento. Mas como alguém que se graduou em letras e se interessava por linguística e análise do discurso, comecei a perceber como a necessária exaltação do parto humanizado (em um Brasil de cesáreas criminosas) acabava por ser não intencionalmente deletéria a quem precisou de uma cesárea, agora eu sentia na pele, que lição!

Acredito que devemos nos responsabilizar por nossos erros e escolhas, mas tomar cuidado para não cair num discurso de culpabilização da mulher; para que o parto, que é natural e fisiológico, não se transforme num tipo de ‘meritocracia’. Claro que como parir no Brasil é algo muito difícil, a mulher muitas vezes tem que ter muita garra, dedicação e convicção pra correr atrás do parto dela, bancar mudar de médico na reta final, abandonar o plano de saúde, peitar (ou aguentar) comentários dos familiares, pedir ajuda, procurar uma doula, bancar suas escolhas, se endividar, estudar muito. Claro que admiro e respeito muito a força dessa mulher que corre atrás do parto humanizado porque sabe que é o melhor pra ela e pro seu bebê, não é fácil bancar ir contra todo o sistema e cultura, não é fácil, e é sim uma vitória. Mas pra mim, com minha leitura de “não parideira”, quando leio alguém dizendo “parabéns, mereceu muito esse parto!” eu também posso ler “então quer dizer que não mereci?”. Na antítese da comemoração da “parideira” está o silêncio reservado à “fracassada”. Sei que somos nós que nos colocamos assim, e é justamente o que quero propor, olharmos com mais carinho para nós mesmas.

Quando um parto acontece, comemoramos. Quando ele não acontece, ficamos buscando culpas e culpados – “foi algo que fiz? Alguém que estava comigo? Foi algo que pensei? Será que senti algo errado?”. Quando tentamos achar motivos para o não-parto de alguém dizendo “se você não estivesse tão ansiosa talvez tivesse parido” – “será que você não tava pensando demais” – “será que você estava travando alguma coisa?”; quando fazemos isso, não estamos sendo muito diferentes de quem atribui o estupro a saía curta que ela vestia... “se você não estivesse vestida dessa forma, andando na rua essa hora, se se se...” – nada disso ajuda.

Veja bem, não estou dizendo que o emocional não afeta o físico, eu seria ridícula se dissesse isso visto que sou acupunturista e é meu trabalho interpretar também como o físico expressa o emocional e vice e versa, porém penso que devemos ter cuidado para não pecar ao cair num reducionismo simplório que acaba apenas por atribuir culpas. Quando busquei ajuda para entender meu não-parto encontrei basicamente dois tipos de respostas (com exceções), as pessoas que amaciavam tudo dizendo “deixa isso pra lá, você foi ótima, não pense nisso, não fique tentando entender, aceite”, e as pessoas que tentavam cavocar a minha trava emocional, o velho “onde foi que você errou”.

Sabe, quando uma mulher sofre um aborto espontâneo, ela tem a tendência em achar culpas... é a emoção forte que ela passou dias atrás, é a tinta de cabelo que ela usou, foi aquele chazinho que ela tomou antes de saber que estava grávida... Perdas gestacionais acontecem, principalmente nas primeiras semanas, nem sempre (ouso dizer praticamente nunca) é por causa de X ou Y. A mulher que culpa a tinta de cabelo que ela usou pela sua perda gestacional nem lembraria que mudou a cor de suas madeixas naquela semana caso o bebê tivesse ‘vingado’. O mesmo se dá com partos, se eu tivesse parido, ninguém estaria falando de X e Y, mas como não pari... essas coisas devem ter atrapalhado, só pode.

Ah é cansativo isso! “Parir é vencer o sistema, se não pariu é por que fez algo de errado”. Não sejamos simplistas, esqueceram dos 15%? E mesmo que não se enquadre neles, as mulheres tem o direito de serem respeitadas e desejarem um parto sem precisar se formar em obstetrícia pra isso. Infelizmente hoje em dia é preciso estudar muito e lutar muito, mas deveria ser um direito básico, a culpa não é das mulheres.

Eu acredito que o parto é um evento tanto físico quanto emocional e espiritual, há muita coisa em jogo e muita coisa envolvida. Acredito que existam as chamadas “distócias emocionais”, e penso que para conseguirem impedir um parto de acontecer (isto é, irem contra a biologia e transformarem o fisiológico em patológico) devem ser distócias “fortes”, algo pesado talvez. Mas cada mulher é uma história e mesmo mulheres com histórias de traumas conseguem parir, as vezes não apesar do sistema (obstétrico), parem no sistema mesmo, parem com medo, deitadas, ouvindo gritos, tendo uma assistência violenta, e mesmo assim, elas parem!

Experiências psicológicas influenciam no desenrolar de um parto, mas será que são sempre o fator determinante? Quando você não consegue parir, sempre alguém vai tentar achar uma trava, seja por que você estava pouco informada, ou informada demais, desligada do processo ou pensando demais... Que tal pararmos de culpar as mulheres por coisas que fogem à vontade delas?

Nós sabemos que o neocórtex ligado atrapalha, mas quantas mulheres já vimos parir extremamente racionais, ligadas e conscientes? Nós sabemos que ter medo (da dor, do processo, de virar mãe, da reação do marido etc) pode travar o processo, mas quantas mulheres já não pariram com medo em corredores de hospitais, em calçadas, em ônibus, sozinhas? Parir é no corpo também, é na cabeça, mas não só nela. Atribuir toda e qualquer coisa que deu errado à distócia emocional é de uma enorme pobreza e se você não é o terapeuta da pessoa em questão, melhor guardar o seu pitaco em silêncio.

Vamos parar de dizer que a mulher não pariu por que estava ansiosa ou porque pensou demais ou temeu demais ou se entregou de menos. É claro que existem questões que podem prolongar um parto, aumentar uma dor, ou até mesmo travar um processo. Mas da mesma forma que você pode ter um desarranjo intestinal por que ficou muito nervosa, você pode ter o mesmo desarranjo por que comeu uma comida estragada... e ai? Foi uma trava emocional que levou o seu karma a fazer você comer aquela comida podre pra então aprender com sua dor de barriga?! Que tal forçar menos a barra da trava emocional?

O psicossomático existe, isto é claro. Raiva pode causar dor de cabeça e preocupação pode causar dores nas costas. Não se hidratar o suficiente e comer mal pode causar dor de cabeça, má postura pode causar dores nas costas. As vezes o estômago dói por que estamos “digerindo mal nossa vida”, as vezes você até está emocionalmente bem, mas tomou café demais... Acho ingênuo, superficial e perigoso cairmos em generalizações do emocional ao olharmos o parto alheio, considero esse tipo de julgamento tão cruel e errado quanto aquele que atribui câncer a uma pessoa por ela ser ‘egoísta’ (sim, já vi esse absurdo sendo dito, compaixão passou longe).

Quando não parimos queremos respostas, e tudo bem. Mesmo que sua cesárea tenha sido necessária, você vai querer respostas. Você vai perceber coisas que acha que poderia ter feito de outra forma, que talvez ajudassem, talvez não. E mesmo que sua cesárea não tenha sido necessária, você pode aprender com seus erros, olhar pra trás e perceber onde foi enganada, onde o sistema te engoliu. É doloroso, mas é um exercício válido. E se você perceber travas emocionais, procure um terapeuta, pode ser de grande auxílio. Mas não caia numa culpabilização, agora já foi, passou, tire algo dessa situação, chore se sentir que precisa, mas não remoa além do necessário. Mulheres conseguem parir mesmo odiando a situação, implorando por uma cesárea, não desejando um parto normal, elas parem, eu não pari, eu queria parir, paciência...

Fui respeitada por minha equipe e isso me ajuda hoje a refletir com calma sobre a situação, desejo que mais mulheres consigam refletir sem medo dos julgamentos. Com alguns ajustes posso dizer que meu parto foi como escolhi, com as pessoas que queria comigo, foi alegre, íntimo, foi doloroso... não foi... não deu. Mas sei que eu dei o melhor de mim naquele momento, com todos os SEs que surgem depois, sei que dei o meu melhor, aceitar a mudança de planos, encarar o medo do hospital, tive minhas batalhas, todas nós as temos, olhemos com carinho para nós mesmas.

Estou cansada dessa visão de que a mulher pariu por que “mereceu”, todas merecem! Estou cansada dessa associação de que mulher parideira de verdade tem parto com prazer, se sentiu muita dor é porque tinha travas... Tá cheio de mulher empoderada que pariu com dor, que teve partos longos, que não pariu, a vida é assim, damos o nosso melhor, e nos entregamos. Estar informada e confiante não é sinônimo de parto rápido, não é por que o parto não foi fácil [“quiabo” igual o das índias parideiras] que então é por que a mulher estava travando alguma coisa. Sejamos menos simplórias e vamos parar de dizer que a mulher não pariu por que “não se entregou o suficiente” ou não acreditava no parto. Distócias acontecem, placentas prévias acontecem, bebês bradicárdicos acontecem, 15% de cesáreas... há uma chance de que seja você.

Comemoremos sim com alegria o parto das amigas que conseguiram, sem que isso signifique deixar de acolher as que não pariram. Essa dicotomia entre partaço ou fracasso só existe em filmes americanos ruins onde tudo que há é o vencedor e o derrotado, quando na verdade a vida é feita de pequenas vitórias, e pequenos passos rumo a novos aprendizados; e uma teia de circunstâncias que nos entrelaça e nos une a todos nesse complexo evento que é parir, nascer e viver.





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