sábado, 9 de agosto de 2014

Relato de Parto da Lara - filha da Aláya

Relato de Parto da Lara - filha da Aláya

 Pensei em alguns títulos para este relato como: “quando uma doula planeja um parto domiciliar e acaba numa cesárea” ou “quando o parto real foi bem diferente do idealizado - dei azar na estatística”. Apesar de tudo ter saído diferente do que eu esperava, esse não é um relato de violência nem de tristeza.   


 Eu havia passado a semana inteira em pródromos (pré trabalho de parto, contrações irregulares que vem e somem). Tive vários alarmes falsos, vinham contrações, vinha uma cólica, sentia a cabeça da minha filha encaixando e empurrando para baixo, sentia uma pressão nos ossos do púbis... e ai tudo parava. Depois de alguns dias em pródromos eu já não estava nem dando bola. Eu sabia que estava acontecendo, que uma hora “engrenava”, mas foram tantos dias dessas contrações que vão e vem e só causam um desconforto e somem quando você começa a achar que é TP que eu desencanei. “Vai vir a hora que tiver que vir”. E todo dia eu ia dormir com elas, pensando “será que é essa madrugada”? E toda manhã eu acordava com tudo parado, e mais um dia se seguia. Sábado a noite comecei a achar que tinha algo meio ‘travado’ (coisas de medicina chinesa) e resolvi fazer uma acupuntura em mim mesma. Foi incrível! Bastou que eu colocasse as agulhas que a Lara começou a se mexer muito no meu útero, senti que fez algum efeito. Mas domingo de manhã veio e nada... veio a noite e vieram as contrações, como todas as noites anteriores. Era dia 30 de junho e eu senti que elas estavam um pouco mais fortes que nos dias anteriores, mas como já fazia 1 semana de alarmes falsos, tentei não dar bola. Lá pela meia noite meu marido foi dormir e me perguntou “será que eu vou trabalhar amanha?” --  “hoje ta um pouco mais forte, mas todo dia eu tenho contrações antes de deitar, então difícil saber, amanhã a gente descobre, boa noite”.


Apesar de beber bastante água eu nunca fui de levantar a noite para ir ao banheiro, sempre dormi a noite inteira. Inclusive tinha medo de passar o trabalho de parto madrugada adentro pois nunca fui uma pessoa que lida bem com noites em claro e privação de sono. Deitei e senti a barriga endurecer algumas vezes antes de pegar no sono.

Naquela madrugada eu acordei as 2 da manhã com vontade de ir ao banheiro, ao baixar a calcinha o sinal: sangue! Fiquei feliz!!! Era só um filetinho de sangue, eu sabia o que significava, era a dilatação começando. Era o primeiro sinal de que algo diferente acontecia. A barriga continuava endurecendo.
“Oba acho que hoje vou parir!” Fiquei empolgada. “Calma Alaya, não se empolgue muito, você precisa dormir” – meu eu doulístico falava.. “É só inicio de fase latente, são apenas duas da manhã, vai descansar enquanto você pode, pode demorar, pode nem ser hoje”.

Bem, difícil controlar a animação né. Fui para a sala e peguei o celular só pra ver de curiosidade se havia algum intervalo entre as contrações. Estavam de 6 em 6 minutos... estranhei, não estavam fortes, eu esperava um intervalo maior, pelo menos de 10 minutos.. Contei umas 5 contrações, curtas, mas de 6 em 6. “ok, contrações atípicas mas é assim mesmo, cada TP é um TP”. Enquanto isso conversava com um amigo que vi online e ia me acalmando..

Hora de voltar a dormir.. deitei no sofá mesmo, acordei umas 3 horas depois, com frio. Voltei pra minha cama, era 5:30 da manhã... deitei, uma contração mais forte. “Nossa essa doeu um pouco, mas relaxa Alaya, o sol nem nasceu ainda, descansa” – minha doula falante não parava de tentar me orientar.
Mais uma contração... “ai essa foi mais forte”. Acordei o Felipe “acho que você não vai pro trabalho hoje”. E então veio outra contração e desisti de ficar na cama, tava desconfortável demais ficar deitada.
Estava escuro ainda, era 6 da manhã, o sol nascia -- “ó que bonito, vou ver o dia raiar” – pensei. Decidi tomar um banho quente para ver se as contrações paravam, só pra checar se não era alarme falso de novo por desencargo de consciência. Continuaram a vir ritmadamente.

 Como estava sentindo as contrações mais fortes fiquei curiosa para ver novamente se tinha algum intervalo. Foi estranhamente difícil entende-las, eu, que já tinha visto partos, que já tinha ajudado outras mulheres a contarem o intervalo de contrações delas... não estava entendendo as minhas. A onda não era “uniforme”.. ela vinha, endurecia, doía, endurecia, ia embora... mas não entendia bem onde começava e quando terminava.. quando tinha realmente terminado e quando estava apenas “reverberando” a sensações... mas tentei prestar atenção, me conectar... estavam irregulares, mas o intervalo era de uns 3min! “Como assim?!”  Duravam pouco, menos de 1min, não eram contrações de trabalho de parto em fase ativa.

Estava cedo pra avisar alguém, eu nem estava incomodada nem nada. Esperei, queria curtir o momento. Fiquei apoiada de joelhos no sofá, reclinada sobre as almofadas, tranquila, feliz, extremamente feliz que finalmente tinha chegado meu dia de parir. Fiquei quietinha ali sentindo meu corpo, sentindo minha filha mexer, até umas 7:30 da manhã. Marido levantou e me olhou pedindo confirmação de que era TP mesmo... era, era sim, “hoje você não vai pro trabalho.”


Eu queria curtir as contrações até estarem bem dolorosas, até eu achar que está mais perto de nascer. Meu TP me dobrou, me quebrou ao meio, eu não era mais doula, eu era só a Alaya, animada e ansiosa pra parir. Eu não sabia de nada. Eu queria chamar a equipe só quando estivesse entrando na fase ativa, mais pro final, nada de chamar cedo demais. Mas eu não sabia de nada...

Eu não sentia medo, estava muito tranquila, estava tão tranquila que comecei a lembrar dos partos que vi e que soube que foram rápidos demais. Me lembrei de algumas amigas de Brasília, de duas diferentes que a equipe não teve tempo de chegar, de outra que não deu bola pras “cólicas” e quando foi ver já tava com 7cm. Lembrei de uma linda cujo parto acompanhei que achou que tava “passando mal” (por que o marido estava doente), e quando descobriu que era parto chegou ao hospital com 9cm. Lembrei de uma mulher incrível que teve um parto que durou 3 horas apenas.

“A cabeça atrapalha” já dizia a parteira mexicana Naoli Vinaver, minha cabeça atrapalhou. Parto de doula, que lindo né! Confiança no corpo? Check! Sem medo da dor? Check! Confiança na equipe? Check! Acreditar na fisiologia, no corpo se abrindo, na perfeição dos hormônios? Check! Eu tinha tudo isso, me sentia bem com meu corpo, feliz com meu parto; mas a cabeça não desligava, a doula falante dentro de mim não se calava. De que adianta saber que tem que se entregar. “Não pense em macaco”. Pensar em não pensar é o mesmo que pensar...

Então a cabeça dizia “Você tá sentindo essas contrações desde as 11 da noite, as 2 da manhã percebeu um possível início de dilatação, dormiu, relaxou, as contrações estão mais fortes, e próximas (ainda que de curta duração), já fazem 8horas desde que você começou a sentir tudo, alguma progressão pode ter tido, o TP parece estar avançando, melhor chamar a equipe agora e se enganar do que ser um desses casos rápidos e chamar tarde demais”


E eu me enganei... foi o intervalo curto, eu me enganei... Telefonei pra Katia e pra Gisely (minhas parteiras queridas, as enfermeiras obstetras). Eu estava tão descrente desse intervalo entre as contrações que até menti pra elas, aumentei um minuto “olha, ta tudo tranquilo, ta tudo bem, mas o intervalo entre elas está de 4 minutos, mas estão durando pouco, achei melhor avisar, vai que né...” Telefonei pra Mirella (doula), pedi pra avisar a fotógrafa (Cristiane, do "amor em foco"). “pode vir sem pressa”.

Fiquei muito feliz quando a campainha tocou e a Mirella e a Cris chegaram, e logo chegaram as parteiras, Katia e Gisely. Eu ria entre as contrações, estava um dia lindo. As quatro trouxeram mais alegria pro apartamento. Fomos ao quarto me avaliar (eu queria um toque, meu primeiro em toda a gestação) e verificaram que eu estava com o colo quase totalmente apagado e 2cm de dilatação.

Não, não gostei da informação. As contrações continuavam próximas e curtas, e já estavam doloridas, eu já fechava os olhos e respirava fundo com elas vinham, não era como aquelas mulheres que tanto vi conversando e rindo tendo contrações quando estavam nessa fase... eu achei que estaria pelo menos com uns 4cm. Na minha cabeça se passaram muitas coisas, minha doula tagarela interior dizia: “você sabe que dilatação não quer dizer nada, que não existe padrão certo pra parir, que o que importa é deixar as contrações fazerem o trabalho delas, você pode passar horas com a mesma dilatação e de repente dilatar bastante em menos de uma hora, cada parto é um parto” – de forma não verbal era essa mensagem que eu passava pra mim mesma... mas se misturava com “putz com 2cm eu nem teria sido internada na casa de parto” – “poxa fiz elas chegarem aqui cedo demais” – “po, a madrugada toda... achei que estaria mais evoluída”. É, a gente pensa essas coisas, mas minha tagarela interior fez uma mensagem se sobrepujar a todas as outras “o que importa é que o trabalho de parto começou, você não tem controle sobre sua dilatação e suas contrações, um passo depois do outro, esquece o tempo, esquece as medidas, curte cada contração”. Eu me convencia disso, cada vez que vinha algum outro pensamento eu reforçava pra mim mesma “entrega, deixa fluir e acontecer”.

Acho que fiz isso relativamente bem durante toda a manhã. Eu estava sim um pouco assustada com a dor, pois não era a dor que eu esperava pra um início de fase latente, tantas pessoas eu tinha visto em situações bem diferentes, batendo papo e levando a vida normal nesse período, e ali estava eu, já tendo que lidar com contrações.

Quando voltei para a sala a Mirella tinha ascendido minhas velas, eu adorei que ela lembrou disso, eu queria muito o fogo delas aceso. Minha mãe me trouxe o açaí que eu tinha comprado especialmente pra tomar no parto, um mimo alimentar. Eu caminhava pela casa, me pendurava no rebozo, me apoiava na bola. A Mirella me trouxe duas bolsas de sementes quentes para os ombros e para as costas que aliviavam durante as contrações e me ajudavam a relaxar.



Decidi que pra ajudar a me desligar e mergulhar no processo, eu ia pro chuveiro. Hora de relaxar, ficar sozinha. Não sei quanto tempo se passou, são memórias nebulosas. Só lembro da felicidade que eu sentia em cada contração no chuveiro, lembro do Felipe indo ver se eu estava bem, e do amor transbordante que eu sentia por ele ali comigo. Eu conversava com a Lara e dizia que queria pegá-la nos meus braços.



Quando saí do banho vi que apenas a Mirella estava ali comigo. As outras mulheres tinham saído para almoçar e eu achei bom, não queria que elas se sentissem “presas” na minha casa, agora que eu sabia minha dilatação, sentia que talvez fosse demorar mais que eu esperava.

Logo elas voltaram. A Cris trouxe chocolate, adorei! Minha mãe me oferecia mais açaí. As cortinas da sala estavam fechadas, o ambiente me envolvia aconchegantemente. Mais uma avaliação, quatro horas depois da primeira: 4cm - “ok, ta lento mas está indo, um passo depois do outro” – é o que eu pensava. A dor aumentava, a intensidade aumentava, nesse momento eu já não fazia mais ideia de tempo, duração, horas. Eu sentia que eu estava indo bem, que tava tudo bem. Ouvi a Katia ao telefone e logo ela veio me contar que ia arrumar uma banheira para eu poder ficar na água. 



Começou a doer bastante e eu já não achava mais posição confortável. De repente após uma contração abri os olhos e vi a Rosana (obstetra) na minha sala. Foi uma agradável surpresa. Ela estava com um sorriso convidativo, e trazia sua banheira consigo. Ia me emprestar, a banheira nunca antes usada. “Que legal vou estrear sua banheira!” – eu disse. Gratidão é tudo que eu sentia.


Não sei como conseguiram mas eu mal pisquei e a banheira já tava ali cheia. Lembro do Felipe ajudando com tudo, bomba de encher, mangueira. Não lembro o tempo passando até a banheira estar cheia a ponto de eu poder entrar, mas quando entrei foi amor, amor líquido!  Eu derreti entrando naquela água quente, ahhh alívio!! Devo ter falado um monte de vezes para a Katia o quão eu fui idiota de achar que eu não ia querer banheira. Sim, falei durante nossos encontros que não precisava de banheira, que eu ia parir no chuveiro mesmo, ou em qualquer canto; era inverno, ia estar frio, eu não ia querer entrar na água, banheira da muito trabalho... Obrigada Katia por não me ouvir! Obrigada!


No calor da água o tempo se diluiu, uma contração, outra, outra.. deitada, relaxada, de joelhos, apoiada na borda... gemidos e contrações, o Felipe trazendo baldes de água quente para repor impedindo que a banheira esfriasse, a Gisely jogando a água da mangueira nas minhas costas, a Mirella com seu olhar atento e palavras de apoio, a Katia com sua presença, minha mãe me trazendo minha dose de Florais de Bach. Eu não as via, e as via ao mesmo tempo. Suas presenças ali não me incomodavam, me sentia acolhida, sentia amor.



 “Vocês são tudo loucas de passar por isso, vocês todas ai que pariram” eu falava pra Katia, pra Mirella, pra Cris.. “pra que que eu fui inventar de me meter nessa roubada!” – Eu falava isso, mas falava rindo, não era uma roubada, era só vontade de reclamar, de colocar pra fora, de tirar sarro da minha situação, da minha dor física, da dor que não era sofrimento, eu tinha escolhido tudo aquilo e não queria diferente. “Todo mundo diz isso né, eu sei... e nem é fase de transição, mas essa coisa de parir é tudo pra maluca”. Eu via a Mirella e a Cris na minha frente, eu sentia a amizade palpável no ar – “deve ser ocitocina, ta tudo muito amor isso aqui <3” (eu pensava secretamente). Eu ficava me imaginando naqueles partos de antigamente, cercada de mulheres, eu estava feliz com as presenças ali, as parteiras, minha mãe. Eu me inundava de felicidade com a aproximação do Felipe, que do modo dele me deu o apoio que eu precisava, as palavras de incentivo, os sorrisos, o carinho no olhar -- disso eu lembro bem.


As contrações doíam, sim doíam cada vez mais, pareciam vir mais fortes, pareciam durar mais. Eu me nutria de esperança. Eu ia parir, ia conhecer minha filha! Eu já fechava os olhos entre as contrações, respirava fundo, gemia, esquecia do mundo. Elas vinham me atropelando, com força, com dor, me dizendo “você não tem controle nenhum aqui, ela vem e vai na quando quiser, na intensidade que ela quiser, você só precisa passar por ela, uma depois da outra”. E eu passava, uma depois da outra. Não sei quantas horas fiquei na banheira, me disseram que foram muitas!

Um dos melhores momentos pra mim foi quando o Felipe veio ficar ao meu lado, ele me dizia palavras de incentivo. Ligaram minhas músicas, minha setlist de parto. Começou a tocar “paciência” do Lenine, parecia que era pra mim:

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara”

Eu cantava e olhava para o Felipe que me fazia carinho no rosto, senti minhas lagrimas escorrerem, lágrimas boas, era felicidade, emotividade do momento. “A vida não para, ela pulsa dentro de mim, o tempo pede pressa mas eu vou no meu ritmo. Tudo isso é tão raro, tão precioso, só preciso ter paciência”.  E o tempo foi passando...


 Lembro de alguém dizer que eu já devia estar na fase ativa, as contrações estavam mais fortes, durando mais tempo, eu já não conversava tanto, sentia mais pressão. Se eu fosse a doula desse parto eu acharia a mesma coisa. Me animava com a ideia de que devia estar um pouco mais próximo dela nascer.

Eu já estava a muito tempo na banheira e aos pouos o ritmo parecia ter diminuído. A Katia se abaixou e me perguntou se eu não queria sair um pouco, eu topei pois eu realmente estava pensando em sair. Fizemos outro exame de toque, a meu pedido, já fazia umas 7 horas desde o último, acho que devia ser por volta das 19h.



4 centímetros... quatro... colo igual, não tinha terminado de apagar, estava igual desde as 8 da manhã. Foi duro, dureza. Doeu em todas nós. Claro que eu me abalei, eu não queria me deixar abalar. “Vou para o chuveiro, fazer essas contrações funcionarem”. E fui. E no chuveiro eu rebolei, eu gemi, eu xinguei, eu reclamei das contrações, eu me agachava e ficava de cócoras quando vinha uma, eu me apoiava no banquinho plástico que coloquei no box, e me agachava...

O Felipe vinha me dar força pra continuar. Depois vieram a Mirella e a Katia. Eu chorei, chorei por que ali no chuveiro estava caindo a ficha que talvez as coisas fossem diferentes do que eu esperava. Chorei por que em 12h eu havia dilatado apenas 2cm. Chorei a fase latente prolongada, o medo de ficar cansada antes de chegar ao fim. Comecei a ter medo, e não é bom ter medo no parto... Estava doendo e estava demorando, quanto mais eu ia aguentar? Chorei por que queria parir minha filha ali, no chuveiro, queria sentir ela escorregando dentre minhas pernas, empurrando para baixo, queria pegar seu corpo molhado e cheio de vernix, queria cheira-la e segurá-la nos braços. Eu a desejava ardentemente, eu queria parir ali, e via meu parto se afastando de mim...

Porque essa lentidão toda? Porque não evolui? Está doendo tanto, era pra estar mais adiantado... não entendo... "A dilatação por si só não quer dizer muita coisa, o importante é as contrações estarem 'boas', eficazes" - eu repetia para mim mesma. Eu tinha contrações ritmadas, fortes, muito fortes, longas... mas nada... me sentia obstruída. E ai comecei a lembrar dos partos que vi, dessa vez não dos rápidos, dos tsunâmicos; lembrei dos partos arrastados, dos partos distócicos, dos partos que pediram intervenção, ocitocina... Eu chorei e falei para a Katia “não quero ir para o hospital”. Eu não estava pronta pra entregar as pontas pra transferência, ainda não. Eu ia rebolar e caminhar e fazer esse colo do útero reagir.

Elas entenderam que eu não estava pronta, eu precisava ter meu tempo. Sugeriram que eu descansasse, tentasse deitar, fazer o corpo recuperar as forças. Eu deitei. Contrações deitadas não são boas, nada boas, como alguém consegue parir deitada? Vontade de morrer a cada contração deitada na cama, muito pior nessa posição! Como alguém consegue parir em hospital? Sem essa liberdade toda que eu estava tendo?! Me alimentaram, chocolate, sorvete, mel, água... E ai eu vomitei tudo. Minha mãe prendeu meu cabelo de um jeito engraçado, pro alto, eu levantei pra ir ao banheiro lavar a boca e tirar o gosto de vômito. Eu ria da minha situação, aquele cabelo preso ridículo, minha cara de cansada, vomitada. Felipe me ajudou, e na confusão que eu tava peguei a primeira escova de dentes que tinha na minha frente, era a dele! “Ahhh não acredito você usou minha escova pra limpar o vomito!” foi o que eu ouvi! Rsrs. Ops! 

Voltei para a cama, ainda não tinha conseguido descansar. Minha doula, a Mirella, ficou lá comigo. As bolsas quentes de semente me ajudavam, e as mãos mágicas da Mirella conseguiram me acalmar. Cochilei, entre uma contração e outra eu apaguei. Uma e outra contração, mas consegui descansar um pouco. Acordei com uma bem forte, senti calor, queimação, achei que era a bolsa quente de sementes, pedi que tirasse, mas não era, estava fria já. Era a contração me acordando e queimando por dentro.

Quando me levantei saiu um enorme tampão, veio com tudo, cheio de sangue. O descanso tinha funcionado, acordei com as contrações ainda mais fortes, e dessa vez voltando a ter um ritmo. Nos enchemos de esperança com o tampão – “quem sabe alguma coisa mudou aqui dentro, quem sabe agora vai, agora destrava, agora afina o colo, agora dilata”. Ninguém precisava falar, todas pensavam isso, eu acho.


 Caminhei para a sala, queria me ajoelhar no sofá, queria uma posição que ajudasse a dar espaço pra Lara rotacionar, ela ainda estava com o dorso à direita. Bebês com dorso à direita nascem, só precisam rodar, nascem todos os dias, a Lara ia nascer. Gisely veio mais uma vez com o Doppler avaliar os batimentos cardíacos dela. A Lara havia descido mais, não encontramos seu coração onde encontrávamos antes, estava bem mais baixo, lá no púbis, mais um bom sinal, depois de tantas horas sem mudança, qualquer alteração era bem vinda.

Eu estava cansada, e as contrações vinham sem dó, muito fortes, doíam muito, muito mais que eu esperava. Mas o que mais me atrapalhava era a cabeça, era pensar que doía assim com aquela dilatação, que eu mal estava na metade do caminho, que ainda tinha 6cm pra dilatar, e não sei mais quantas horas de trabalho de parto. Eu pensava que seria fácil aguentar se eu soubesse que faltava pouco, se eu soubesse que estava “fazendo efeito”. O problema não era a dor física, era a sensação de que estava sendo uma dor ineficaz.


A Mirella tentava me ajudar com massagens e pressão no quadril, as vezes era bom, mas na maior parte do tempo eu não quis ser tocada, era como se o toque me tirasse o foco. As contrações me atropelavam, com certeza já duravam mais que 1min. Eu testava formas de lidar com elas, vocalizando mais ou menos, gritando ou não... Eu gritei bastante, mas gritar não me ajudava (como parecia ajudar outras pessoas) e parecia me deixar sem forças. Resolvi tentar encarar elas mais em silêncio, a Mirella cantou alguma coisa muito bonita, e eu dei um abraço bom nela, eu tentava “respirar” entre cada contração, cada uma que vinha, vinha pra me dizer que eu não sabia de nada. Parecia que meu quadril ia arrebentar. Eu visualizava a contração empurrando a Lara para baixo, mas a sensação que eu tinha é que a onda de contração batia e voltava pra cima, como se a dor irradiasse sem saber pra onde ir. “Onde estão minhas dopaminas?” – as vezes eu pensava comigo mesma.

 Vieram ouvir o BCF (batimento cardíaco fetal) da Lara novamente, estava um pouco acelerado, não precisavam me dizer, meu ouvido já estava acostumado a ouvir o BCF dos bebês alheios, a Lara estava taquicárdica. Perguntei, estava um pouco acima de 160. Ok, vamos monitorando. Eu estava cansada, me trouxeram um pouco de mel. Resolvi voltar pra banheira. Entre uma contração e outra eu via de canto de olho e ouvido as pessoas conversando no outro quarto, no canto, eu sabia que estavam conversando o que fazer. Já era por volta das 22h, havia uma certa preocupação no ar, e eu  lidava no meu interior com a possibilidade de ir pro hospital. Minha liberação de adrenalina não devia estar boa pro parto. Ouviram o coração da Lara mais vezes, continuava acelerado; 172bpm certa vez.

Senti raiva, raiva da dor, da situação, da falta de progresso. Me perguntava se havia algo de errado com meu corpo, por que não estava funcionando?  Eu aguentaria o que fosse para a Lara nascer bem,eu não queria ir para o hospital. Mas agora o coração dela se alterava, tudo mudou na minha cabeça. A dor vinha e atropelava, e agora passou a parecer sem propósito, isso que foi o pior. Eu sentia que vinha uma atrás da outra, me quebrou: “não aguento mais”.

Telefonaram para a Rosana (obstetra), ela estava indo a Taubaté e passava por Caçapava naquele exato momento, aproveitou então e veio me ver antes de decidirmos finalmente pelo hospital. Saí da água para ela me avaliar. Ouvi alguém falar em taquissistolia (hiperatividade uterina) -- ou delirei ouvindo. A Rosana achou que eu estava com 4 para 5cm de dilatação, e a bolsa estava bem colada na cabeça da Lara. Ela resolveu romper. Eu tinha curiosidade para sentir a bolsa rompendo, aquele líquido todo escorrendo... Comigo não foi assim, só senti um leve molhado. “Cadê meu líquido todo?” eu pensei. Havia um pouco de mecônio, não era creme de ervilha mas não era aquele liquido claro e bem diluído. O mecônio por si só é um achado normal que pode indicar apenas maturidade fetal e não ser sinônimo de sofrimento, mas como o coração da Lara apresentava alguma alteração e meu trabalho de parto estava arrastado, então foi mais um sinal de alerta.

“Vamos para o Hospital”. Eu não tinha preparado mala de maternidade nenhuma! Eu sabia que existia a possibilidade de transferência mas nunca acreditei que fosse acontecer comigo, tive uma gestação tão saudável, me sentia tão pronta para parir. Graças a Cris e à Mirella eu e a Lara tivemos o que vestir no hospital, elas improvisaram duas malas com roupas para nós! Obrigada meninas!


As enfermeiras, a Mirella e a Rosana tentavam me tranquilizar, falavam que não era decreto de cesárea, que possivelmente poderíamos continuar tentando o parto normal no hospital, mas com uma analgesia para ver se melhorava a resposta do colo do útero – quem sabe mudava meu quadro e ajudava na dilatação. O Felipe estava preocupado comigo, em como eu ia aceitar tudo isso; bem, o que eu poderia fazer, precisava aceitar... Estava tão cansada e com tanta dor, não pensava em mais nada, só sentia medo do trajeto no carro, eu sabia que ia doer mais, muito mais, 20min no carro, tendo contrações. Oh céus!!

Minha mãe foi atrás comigo, e como eu previ, as contrações no carro foram as piores possíveis, eu me sentia partindo ao meio de tanta dor, a sensação era de morte. A Rosana foi antes para já ir adiantando o anestesista e a entrada no hospital (Antonio Rocha – São José dos Campos). Em certo momento lembrei da fala da Robbie Davies Floyd no documentário “O Renascimento do Parto” dizendo que as enfermeiras são ótimas para assistir o parto fisiológico, e o médico obstetra surge como o “herói do hospital” (isto é, quando a intervenção mais drástica se faz necessária).

Graças à Rosana minha entrada no hospital foi rápida. Logo que chegamos vi meus sogros na porta nos esperando. Meu sogro me deu o braço enquanto eu subia a rampa. Sentia seus amorosos olhares preocupados. Eu estava um caco, e com medo de ter uma contração “daquelas” ali no meio de todo mundo. Não tive que preencher ficha nem deixar documento, deixei o Felipe resolvendo tudo e a enfermeira Gisely entrou comigo no hospital para além da recepção e me deu apoio.

Eu tinha vontade de chorar, mas não chorei. A dor agora me parecia inútil, queria poder desligá-la. Na minha cabeça já havia dado tudo errado, não era justo continuar com essa dor, ela não estava me levando mais para lugar algum, não havia compensação emocional, nem prêmio no final que me desse forças, era apenas dor, e ai a dor virou sofrimento. 

Eu tinha que fazer um cardiotoco (exame que avalia o coração e a mobilidade fetal), me colocaram naquelas camisolas ridículas abertas atrás e me levaram para a sala de exame, quando entrei vi cerca de outras 5 mulheres grávidas ali sentadas, nenhuma em trabalho de parto, uma estava tomando remedinho pra cólica, outra era alarme falso, todas tranquilas. “Oh não!! Elas vão me ver assim!”.

No meio da minha dor eu estava preocupada com elas, não queria assustá-las com minhas contrações, com minha dor e meus gritos e desespero, não queria desencoraja-las de parir. Eu ainda acreditava no parto, eu sabia que eu estava vivendo a excessão, que poderia ser muito melhor. Queria explicar que meu trabalho de parto estava atípico, que geralmente não é tão ruim assim. Claro, não tinha como explicar, eu só olhei pra elas e falei “Não se assustem”, devem ter me achado maluca... Sentei na cadeira de cardiotoco e ali fiquei um bom tempo, a Lara mexia pouco, ou eu já não sabia o que era ela mexendo. Isso me incomodou. Eu falei pra Gisely que estava preocupada com a Lara, com o coração dela, com a presença do mecônio; eu estava entrando naquele modo “apenas tirem minha filha de dentro de mim por que agora é a única coisa que me importa”.

Meu PD (parto domiciliar) já era, não tinha volta. A Rosana apareceu e eu choraminguei pra ela “me tira dessa cadeira não aguento mais”. Eu estava já sonhando com a analgesia. As contrações vinham e eu tentava aguentar calada pra não assustar ninguém. A Rosana avaliou o cardiotoco e falou que a Lara estava fazendo DIP II. Isso quer dizer que ela estava com uma desaceleração tardia (resposta do coração fetal à hipóxia, que resulta na economia de consumo de oxigênio pelo miocárdio). Isso é um mau sinal, sinal de que as coisas não estavam bem pra ela. Rosana me tranquilizou, falou que a ideia dela era tentarmos uma analgesia para parto normal, mas que com aquele quadro ela já não achava mais uma boa ideia e teria que ser cesárea. A indicação da cesárea não foi pelo tempo de trabalho de parto nem pela condição da dilatação, poderíamos esperar mais, tentar mais, usar recursos... mas o coração da Lara não estava respondendo bem, a indicação da cesárea foi o batimento cardíaco dela.

Me lembrei da minha ultima consulta de pré-natal com a Rosana, em que ela me desejou um bom parto e falou que eu não ia precisar dela mesmo, que eu ia ter um parto lindo em casa. Ah como eu queria ter tido um parto lindo! Mas que bom que eu tinha uma ótima obstetra, de quem acabei precisando. Olha só como é a vida...

Uma enfermeira me levou na cadeira de rodas para o centro obstétrico, eu sentia medo prevendo a próxima contração. Ser empurrada na cadeira de rodas tendo uma contração definitivamente só não foi pior do que ter contração deitada na maca que me obrigaram deitar enquanto me empurravam pelos corredores batendo portas. Eu pedia para pararem enquanto a contração não passava, mas não paravam. Eu lembrava das cenas das pessoas indo para suas cesáreas com suas roupas de hospital e toucas na cabeça, chorando suas cesáreas indesejadas. Eu não chorava, por que será que não sinto vontade de chorar? – pensava. Estava cansada demais, concentrada em sobreviver à dor da próxima contração, resignada com a cesárea.

Durante todo aquele dia esse foi o único momento que me senti agredida de certa forma, as enfermeiras do hospital me empurrando sem dó, sem acolhimento, apenas cumprindo seu trabalho. Mais um corpo indo ser cortado, eu era só mais uma. Chegando ao centro cirúrgico pediram para eu pular da maca pra mesa de cirurgia. Veio uma contração, em meio a dor eu choramingava “por favor esperem, deixa passar a contração, espera passar”. Elas pareciam tão impacientes...

Então veio o anestesista, o liquido gelado nas costas, a picada, a dormência. Alívio, adeus dor, olá cirurgia, a primeira cirurgia da minha vida, ironia... Eu estava com medo, mas nesse momento você só segue o fluxo dos acontecimentos. Não há mais o que fazer, eu não era mais protagonista, era expectadora do nascimento da minha filha, deitada, amarrada na mesa cirúrgica, sabendo que teria sete camadas do meu ventre cortadas, que não pegaria minha filha no colo, que não teria aquela ocitocina toda; o parto no chuveiro, em casa, ficou tão distante... só me restava aguardar terminarem com tudo.

A Rosana apareceu, a presença dela me tranquilizava. Ela falou que ia tentar colocar a Lara no meu colo assim que nascesse. O Felipe apareceu, UFA! Eu queria ele ali comigo, ele era meu porto seguro. Achei divertido ver ele todo paramentado, roupa, touca, máscara. Ele exibia preocupação comigo, e essa preocupação eu traduzia em amor. Ele estava do meu lado, isso que me importava.

Eu tremia muito de reação a anestesia raquidiana. Tremia de frio e tremia da descarga de adrenalina (assim me disse o anestesista que foi muito gentil me tranquilizando). Senti o bisturi elétrico traçando linhas no meu corpo, senti o cheiro da minha carne, a Rosana me abria e o assistente fazia pressão no meu fundo uterino, apertava minha barriga, empurrava a Lara. E meu mundo se resumiu à Lara, eu queria vê-la bem.

Avisaram que ela ia nascer, se o Felipe quisesse se levantar para ver. Ela nasceu molinha (me disse ele), não me foi mostrada, não chorou. O pediatra levou imediatamente e começou a aspira-la. Naquele momento senti as primeiras lágrimas molharem meu rosto, a aspiração, o que eu mais abomino, na minha filha, minha bebê... Eu via na minha mente a imagem dos bebês sendo aspirados, não é algo bonito de se ver, queria tê-la poupado disso. Sinto muito filha... Na minha cabeça passava um estudo que li que afirmava que não se deve aspirar bebês com mecônio, que o desfecho não melhora... Eu chorei por que ela estava sendo aspirada e eu não podia tranquiliza-la em seu choro. Claro, foi um alívio ouvir o choro, o Felipe respirou fundo do meu lado ao primeiro som que ela fez, como se estivesse trancando a respiração junto com ela. Nossa filha estava bem!

Ele ficou lá com ela enquanto terminavam de me costurar. Ela ficou segurando o dedo dele, e tentou mamar o cano do oxigêno, tadinha, era pra estar mamando em mim. Lara nasceu à meia noite e um (00:01) do dia 02/07/14, e pesou 3,575g. Eu estava com 40 semanas pela contagem do primeiro ultrassom, e com 41+3 dias pela data da última menstrução. 


Pediram pro Felipe sair e avisaram que logo levariam nós duas para o quarto. O Antoninho foi o hospital que escolhemos pois ele não tem berçário, faz alojamento conjunto, mãe e bebê juntinhos como tem que ser. Eu considero o berçário uma tremenda violência e foi um alivio poder ficar com minha filha o quanto antes, e não me separar mais!

A Lara havia parado de chorar, estava no berço aquecido na porta ao lado. Eu estava com um misto de emoções, queria muito vê-la, pegar nela, conhecer seu rostinho, ainda não tinha visto nada. Ao mesmo tempo estava tão exausta, tão cansada, tão acabada física e emocionalmente, e meu corpo tremia tanto, que cheguei a pensar ser um alívio não ter que segurá-la naquele momento. Eu só queria apagar, desligar, dormir. Sei que muito dessas sensações tem relação com a medicação que nos é aplicada na anestesia, mas é algo estranho de se sentir após desejar um parto domiciliar e terminar dessa forma.

 
Assim que foi possível a Rosana conseguiu ir lá busca-la e fazer nosso primeiro contato pele a pele, ainda na primeira hora de vida dela! Foi muito gentil da Rosana lembrar como isso era importante pra mim, para um nascimento humanizado. Ela desenrolou a Lara, terminou de tirar os campos cirúrgico de mim, e a colocou peladinha no meu peito. Foi muito bom! São pequenos gestos que fazem toda diferença e ajudam a preservar a memória positiva do dia do nascimento.

Como o pediatra estava com pressa em leva-la ao nascer, não foi possível esperar para cortar o cordão umbilical, mas a Rosana fez uma ordenha do cordão, levando mais sangue para a Lara, foi algo positivo! Fui respeitada ao pedir que não aplicassem o colírio nela, no dia seguinte inclusive uma enfermeira do hospital me elogiou pela consciência de recusar o colírio pois era desnecessário.


Não consegui amamentar ela, a anestesia me impedia de levantar, ela não conseguia pegar o seio comigo completamente deitada, foi frustrante. Estávamos cansadas e dormimos e ela só mamou de manhã (o que deixou o pai preocupado), uma pena... As pessoas no hospital foram muito gentis conosco, eles incentivam muito o aleitamento materno. Algumas enfermeiras foram de grande ajuda para mim (só me recordo do nome da Rose) durante os desafios dos primeiros dias de amamentação, só tenho elogios a elas!

Considero que nossa estadia no hospital de certa forma fez bem para nós três, eu gostava das noites no hospital em que era apenas eu a Lara e o Felipe, para mim era como se esses momentos reforçassem nossa união como família. Com certeza essa experiência toda nos transformou muito.


Hoje, mais do que nunca, não entendo como alguém escolhe passar sem necessidade por uma cesárea. Não entendo como alguém pode achar que sua cesárea foi “ótima”. Necessária, sim, talvez; mas ótima?! Eu odiei tudo aquilo, a passividade da situação, a frieza do ambiente. A recuperação foi “boa” (o que quer dizer que me recuperei sem complicações), mas foi horrorosa. Por dias me senti atropelada. É horrível ter que ficar tomando remédios para dor, andar curvada, sentir receio dos pontos, o ventre cortado... Tudo doía, sentar, levantar, caminhar, deitar de lado (não vou nem falar de tossir, rir e espirrar, pois isso sim dói!) Não acredito em quem diz que não sentiu dor no pós cirúrgico! Afinal, é uma cirurgia e não um raladinho no joelho! Com dor e desconforto tomei meu primeiro banho cerca de 16 horas após a cesárea. Comer e executar funções básicas, tudo era difícil e requisitava a ajuda dos outros. É difícil ficar bem para cuidar de um recém nascido após uma cesárea. Que bom que ela existe, mas como alguém escolhe passar por isso?! Eu tive um trabalho de parto atípico, longo e extremamente doloroso (não precisa ser necessariamente assim), e mesmo assim, preferia outro trabalho de parto a outra cesárea!

Me fica um pingo de frustração por não ter parido minha filha. Queria sentir o expulsivo, queria sentir ela saindo de mim através do nosso próprio esforço conjunto, queria pegá-la e acolhê-la. Não foi possível, não foi o que o karma reservou para nós. Sei que o trabalho de parto não foi em vão e isso me acalenta. Nenhuma “gota” de ocitocina (o hormônio do amor) é desperdiçada. Certamente a ocitocina que liberamos durante o trabalho de parto ajudou no nosso vínculo, ajudou na decida do leite, a estarmos preparadas. No segundo dia no hospital eu já tinha leite -- é por que passei pelo trabalho de parto! Minha filha nasceu quando ela estava pronta, quando ela quis, não foi arrancada de mim antes da hora. Não me arrependo do que vivi e do que planejei, e faria tudo outra vez. 

No dia que a Lara nasceu os Ipês rosas do hospital estavam todos em flor. Um dia lindo para se nascer! Agora eu precisava me curar e me preparar para os novos desafios da maternidade. A Lara é linda, olhou em meus olhos assim que consegui sentar para segura-la. Nos conectamos e não nos largamos mais, e o amor só transborda. 

Decidi não cultivar sentimentos de culpa ou fracasso. Quando uma mulher consegue parir as pessoas a congratulam com adjetivos positivos sobre como ela é forte, empoderada, parideira... Teria sido eu fraca? Teria meu corpo falhado? Eu tinha algum defeito que me impediu de parir? Tinha alguma trava emocional que não soube identificar? Toda minha experiência era invalida porque terminei em cesárea? Não! Eu não ia entrar nessa armadilha emocional. Eu sabia que todos estariam lamentando a minha cesárea; nós ficamos tristes mesmo pelas cesáreas alheias, ainda mais quando é de uma amiga que queria muito parir. Mas eu só queria agradecer, agradecer a experiência vivida, o aprendizado, a existência da cirurgia quando necessária. Além de qualquer lamentação, queria comemorar a chegada da minha filha!

Sim, eu acredito que o aspecto emocional é extremamente relevante num trabalho de parto (e interfere na produção hormonal). Mas o parto é também um evento biológico, físico, social, espiritual... Assim como a mulher não é uma máquina que dilata e expele bebês, também considero um erro atribuir tudo e qualquer coisa a algum fator emocional, é também um reducionismo. Vejo isso como mais uma forma de culpabilizar a mulher (o que é diferente de responsabilizar). Claro que o emocional interfere, mas todos os dias mulheres empoderadas ou não dão à luz a seus bebês nas mais diversas situações. Mulheres com medo e em situações extremamente desfavoráveis, tem seus filhos de parto normal, pois o parto é muito mais forte, e o corpo trabalha para parir. É claro que hoje, olhando em retrospectiva, eu faria algumas coisas de forma diferente durante meu trabalho de parto, mas não acredito em apontar fatores culpados, não acho que fatores isolados teriam o poder de mudar meu desfecho. Aconteceu o que aconteceu. Eu aceito.

Vivi um pouco dos dois mundos. Não pari, mas tive um quase parto domiciliar. Não queria uma cesárea, mas hoje sei o que é passar por uma. Talvez alguns gostariam de me apontar dedos e dizer “tá vendo, fica defendendo parto em casa, e acabou precisando de uma cesárea”. Mas o que aconteceu comigo só reforça a segurança do parto domiciliar. Ter uma equipe competente te avaliando e assistindo faz toda a diferença, ter um bom plano B com médico de backup é essencial! Desde começarem a perceber a taquicardia na Lara, até o nascimento dela, três horas se passaram. Deu tempo de avaliar, pensar, dirigir até o hospital, internar... A maioria dos “problemas” não acontecem de uma hora pra outra, e uma boa equipe pode avaliar e traçar um plano de ação, seja intervir em casa, seja a necessidade de transferir. Parto domiciliar bem assistido é seguro, e a meu ver minha experiência demonstra isso. Só tenho gratidão por todos que estiveram comigo, tive uma equipe maravilhosa (enfermeiras obstetras, médica obstetra e doula), e o apoio de quem eu amava!



Equipe:
Cristiane Pereira, fotógrafa - Amor em Foco http://amoremfocofotografia.com.br/nascimento-lara-parto-alaya/

Rosana Fontes, obstetra - https://www.facebook.com/partoemequilibrio?fref=ts 

Katia Zeny, enfermeira obstetra
Gisely Rezende, enfermeira obstetra
Mirella Bagdadi, doula https://www.facebook.com/movimentodeser
Roda BEBEDUBEM,  e a doula Flavia
 Penido http://vilamamifera.com/bebedubem/

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Como calcular a data provável do parto?! Conto em semanas ou em meses?!

Quando vai ser meu parto? Como calculo a data provável? É mais confiável seguir a menstruação ou o ultrassom?
Estou de quantas semanas? Isso equivale a quantos meses?
40 semanas é o último prazo?

Se você tem esse tipo de dúvida, espero que esse vídeo te ajude!



Minha Tabela Semanas x Meses:


Estudos citados no vídeo:


  • O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas juntamente com a Sociedade de Medicina Materno-Fetal criou uma nova classificação para as gestações chamadas “de termo”. Por que essa classificação é importante? No passado, qualquer gravidez entre 37 semanas e 42 semanas (um intervalo de nada mais nada menos do que 5 semanas!!!) era considerada simplesmente “TERMO”, pois acreditava-se que os bebês que nascessem durante este período da gravidez estavam todos “no mesmo barco”, estavam todos nascendo “no tempo certo”. Esperava-se que o resultado neonatal de todos fosse bom e uniforme. Com o passar do tempo, pesquisas mostraram que não era bem assim. As condições que os recém-nascidos tinham ao nascer variavam muito principalmente no que se referia a problemas respiratórios (“desconforto respiratório”, “síndrome da membrana hialina”, “pulmão molhado”). Hoje considera-se um risco agendar uma cesárea para 37, 38 semanas. Não há peso estimado em ultrassom nem nada que garanta que o bebê está pronto para nascer.



  • Documento sobre idade gestacional no Reino Unido: 

http://www.ons.gov.uk/ons/rel/hsq/health-statistics-quarterly/no--37--spring-2008/quality-of-nhs-numbers-for-babies-data-and-providing-gestational-age-statistics.pdf
"51,94% dos nascimentos ocorrem APÓS 40 semanas. Não antes, após. Ou seja, chegar a 40 semanas não quer dizer muita coisa. Na semana 41, nascem 20% dos bebês e 4% deles, somente na semana 42. E 0,41% nasce com 43 ou mais" (Maíra Libertat)





  •  "régua" didática que explica os períodos de semanas e meses dividindo em trimestres, semanas, meses, e explicando quando se diz que o bebê está "a termo", ou tem chances de sobreviver.






  • E para ilustrar a questão do desenvolvimento embrionário que menciono no vídeo, deixo algumas imagens que retirei do google e um vídeo super legal que mostra desde a fecundação até o feto estar desenvolvido.


- célula embrionária se implantando na parede uterina: 

- embrião de 3 semanas: 

- embrião de 4 a 5 semanas:  

- embrião de 7 a 8 semanas:


- embrião de 9 a 10 semanas:

 fetos reais


 - feto de 12 semanas:



- observem a diferença entre um embrião de cerca de 5 semanas e um de 10


- fases bem caracterizadas:



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Colo Não Vicia!! - O conceito de CONTINUUM

Por que dar colo é tudo de bom!! E cria seres humanos mais seguros e em melhor contato com o mundo e as pessoas

O conceito de CONTINUUM - COLO NÃO VICIA!

Por: Prof. Marcus Renato de Carvalho, IBCLC 





O conceito do continuum
a importância da fase do colo


                               A antropóloga americana Jean Liedloff estudou a tribo venezuelana dos Yequana e defende que para conseguir um desenvolvimento físico, mental e emocional ótimo, o ser humano e especialmente um bebê, necessita o tipo de experiências às quais a nossa espécie se adaptou durante uma longa evolução. Para uma criança são: constante contato físico com seu cuidador desde o nascimento, dormir com os pais até deixar de fazê-lo por vontade própria, amamentação a livre demanda, ser levado constantemente nos braços ou de maneira que possa observar a atividade do adulto, ter cuidadores que respondam aos seus sinais imediatamente sem julgá-la e finalmente, sentir que cumpre as expectativas dos pais, que é bem-vindo e digno. Segundo Liedloff, as crianças cujas necessidades "continuum" forem satisfeitas crescerão com maior auto-estima e serão mais independentes.

Nos dois anos e meio que morei entre os índios da idade da pedra na selva sul-americana – não consecutivos, mas sim em cinco expedições distintas com muito tempo entre elas para refletir – cheguei a compreender que a natureza humana não é o que nos fizeram acreditar. Os bebês da tribo Yequana, longe de precisarem de paz e tranquilidade para dormir, tiravam uma soneca tranquilinhos enquanto os homens, mulheres ou crianças que os carregavam dançavam, corriam, andavam ou gritavam. Todas as crianças brincavam juntas sem brigar ou discutir e obedeciam aos mais velhos no mesmo instante e de bom grado.
A essa gente nunca lhes passou pela cabeça a ideia de castigar uma criança e, no entanto, seu comportamento não deixa entrever permissividade nenhuma. Nenhum moleque faz escândalo, interrompe os outros ou espera que um adulto lhe mime. Aos quatro anos, contribuíam mais com as tarefas do lar que davam trabalho elas mesmas.

Os bebês nos braços quase nunca choravam e era fascinante comprovar que não agitavam os braços e as pernas, não arqueavam as costas nem flexionavam as mãos e os pés. 

Permaneciam sentados nos slings ou dormiam encostados nos quadris do seu cuidador, desmentindo deste modo a crença de que os bebês precisam mover-se e flexionar as extremidades para exercitar-se. Também observei que não regurgitavam a não ser que estivessem muito doentes e que também não tinham cólicas. Quando se assustavam nos primeiros meses de engatinhar, não esperavam que ninguém acudisse correndo, ao invés disso, iam sozinhos em direção à mãe ou cuidador em busca dessa sensação de segurança antes de seguir com suas explorações. Inclusive sem supervisão, nem os menorzinhos se machucavam.

Será que sua natureza humana é diferente da nossa? Algumas pessoas assim o creem, mas evidentemente só existe uma espécie humana. Que podemos aprender, então, da tribo Yequana?

Antes de tudo, podemos tentar compreender o poder educativo do que eu chamo da “fase do colo”, que começa no momento do nascimento e termina quando o bebê começa a mover-se, quando pode afastar-se do seu cuidador e voltar quando queira. Essa fase consiste, simplesmente, em que o bebê tenha contato físico durante as 24 horas com um adulto ou criança mais velha.
A princípio, vi que essa experiência tinha um efeito extraordinariamente benéfico para os bebês, que não eram tão difíceis de tratar. Seus suaves corpinhos se adaptavam a qualquer postura que fosse cômoda para quem o levasse. Em contraposição a esse exemplo, vemos a incomodidade dos bebês que, com sumo cuidado, dormem no berço ou no carrinho. Bem agasalhados, se encontram lá jogados e rígidos, com o desejo de abrigar-se a um corpo vivo e em movimento: o lugar que lhes corresponde por natureza. Um corpo, em definitivo, que pertence a alguém que acreditará no seu choro e aliviará o seu anseio com braços afetuosos.
Por quê nossa sociedade é tão incompetente? Desde a infância, nos ensinam a não acreditar nos nossos instintos. Condicionados para desconfiar do que sentimos, nos persuadem para que não acreditemos no choro de um bebê que diz: “ Me pega no colo!”, “Quero estar com você!”, “Não me deixe!”. Em lugar disso, recusamos a ideia da resposta natural e seguimos os preceitos da moda que são ditados pelos “especialistas” no cuidado infantil. A perda da fé em nossa experiência inata nos leva a pular de um livro a outro, à medida que vão fracassando todas e cada uma das modas passageiras.

É essencial entender quem são os verdadeiros especialistas. O segundo especialista em cuidado de bebês reside no nosso interior, assim como em cada ser vivo que, por definição, deve saber como cuidar de sua cria. É claro que o maior especialista é o próprio bebê, programado durante milhões de anos de evolução para demonstrar seu temperamento com sons e gestos quando gosta do cuidado que recebe. A evolução é um processo de perfeição que “afinou” nosso comportamento com uma precisão magnífica. O sinal do bebê, a compreensão deste por parte dos que o rodeiam e o impulso a obedecê-la formam parte do caráter da nossa espécie. Nosso intelecto presunçoso demonstrou-se mal preparado para adivinhar as autênticas necessidades do bebê. A pergunta costuma ser: “Devo pegar o bebê quando chora?”, “Devo deixar chorar um pouco antes de pegá-lo?” ou “Deveria deixar que chore para que saiba quem manda e não se torne um tirano?”.

Nenhum bebê concordará com essas imposições. De forma unânime nos fazem saber através de gestos e sinais que não querem que lhes façamos dormir e lhes ponhamos no carrinho. Como essa opção não foi muito defendida na civilização ocidental atual, a relação entre pais e filhos acabou marcada por essa confrontação.
O jogo se centrou em como fazer o bebê dormir no berço, mas nunca se debateu se é preciso respeitar ou não o choro do bebê. Apesar de que o livro de Tine Thevenin, The Family Bed (A Cama Familiar), entre outros, abriu a brecha com o tema de que as crianças durmam com seus pais, não se abordou com claridade suficiente o princípio mais importante: “Atuar contra a natureza como espécie conduz irremediavelmente à perda do bem-estar”.

Então, uma vez que compreendamos e aceitemos o princípio de respeitar as expectativas inatas, poderemos descobrir com exatidão quais são essas expectativas. Em outras palavras, saberemos o que é que a evolução nos acostumou a experimentar e sentir.

A Função Educativa

Como cheguei à conclusão de quão importante é a fase do colo para o desenvolvimento de uma pessoa? A primeira coisa que vi foi como era feliz essa gente nas florestas da América do Sul com seus bebês penduradinhos no corpo e, pouco a pouco, fui relacionando esse fato tão simples com a qualidade de vida. Mais tarde, cheguei a certas conclusões a respeito de como e por quê é essencial o contato contínuo com o cuidador na fase pós-natal do desenvolvimento.

Por um lado, parece que a pessoa que carrega o bebê (normalmente a mãe durante os primeiros meses e depois uma criança de 4 a 12 anos que devolve o bebê à mãe para que esta lhe alimente) está servindo de base para as experiências posteriores. O bebê participa passivamente nas corridas, passeios, risadas, bate-papos, tarefas e brincadeiras do cuidador que o carrega. As atividades, o ritmo, as inflexões de linguagem, a variedade de vistas, noite e dia, a variação de temperatura, secura e humidade, além dos sons da vida em comunidade, formam a base para a participação ativa que começará aos seis ou oito meses, com o arrasto, a engatinhada e depois o passo. Um bebê que passou todo esse tempo deitado no berço, olhando o interior de um carrinho ou o céu, terá perdido a maior parte dessa experiência essencial.
Devido à necessidade que a criança tem de participar, é muito importante que os cuidadores não fiquem olhando pra ele ou perguntando constantemente o que querem, mas sim que deixem que eles mesmos tenham vidas ativas. De vez em quando, não podemos resistir a dar-lhes um monte de beijos, no entanto, uma criança que está acostumada a ver passar a vida agitada que levamos se confunde e se frustra quando nos dedicamos a contemplar como ele vive a sua. Um bebê que não fez mais que contemplar a vida que vivemos, se submerge na confusão se lhe pedimos que seja ele quem a dirija.

Parece que ninguém se deu conta da segunda função essencial da experiência da fase do colo, inclusive eu mesma, até meados da década de 60. Esta experiência dota os bebês de um mecanismo de descarga do excesso de energia que não são capazes de fazer por si mesmos. Nos meses anteriores a poder mover-se sozinhos, acumulam energia mediante a absorção do alimento e a luz solar. É então quando o bebê necessita o contato constante com o campo energético de uma pessoa ativa que possa descarregar o excesso de energia que nenhum dos dois utiliza. Isso explica porque os bebês Yequana estavam tão relaxados e porque não ficavam rígidos, davam chutes ou arqueavam as costas.

Para oferecer uma experiência ótima nesta etapa temos que aprender a descarregar nossa energia de maneira eficaz. Podemos acalmar mais rapidamente um bebê correndo com ele, dançando ou fazendo o que seja para eliminar o excesso de energia próprio. Uma mãe ou pai que tem que sair de repente para buscar alguma coisa não precisa dizer: ”Fica com o bebê que vou correndo até a loja”. O que tenha que sair que leve o bebê. Quanto mais ação, melhor.
Bebês e adultos experimentam tensões quando a circulação de energia nos seus músculos não flui bem. Um bebê cheio de energia acumulada não descarregada está pedindo ação: uma volta pela sala dando pulinhos ou uma dança agitada. O campo de energia do bebê aproveitará imediatamente essa descarga do adulto. Os bebês não são as pessoinhas frágeis que costumamos tratar com luvas de seda. De fato, se neste estágio de formação tratamos a um bebê como se fosse frágil, acabará acreditando que é fraco de verdade.

Como pais, podemos conseguir a destreza para compreender o fluxo de energia do nosso filho. No processo, descobriremos muitas mais maneiras de ajudá-lo a manter o suave tônus muscular do bem-estar ancestral e de proporcionar-lhe a calma e o conforto que necessita para sentir-se confortável nesse mundo.

Publicado originalmente na revista Mothering, edição do inverno de 1989 

Leitura:
Continuum Concept, The – Liedloff, Jean. Perseus Books (1986).



Tradução de Bel Kock-Allaman


  • Um vídeo que não precisa de tradução e mostra direitinho na prática por que o colo (no caso o sling, carregador de bebê) é MUITO MELHOR que o carrinho


  • e nada melhor que complementar o post com um link otimo pra um texto da Ligia Moreiras Sena (a cientista que virou mãe) sobre neurociência e criação com apego, pra não ter dúvidas que colo é tudo de bom!
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/02/attachment-parenting-criacao-com-apego.html

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Relato de um parto roubado no Santa Joana SP - a violência e desumanidade nossa de cada dia.

     A May me autorizou a postar o relato de parto dela aqui, e eu posto com a intenção de mostrar como a violência obstétrica muitas vezes é sutil, é um olhar rude, um comentário debochado, um tratamento desumano.
     Nem sempre o hospital com a melhor hotelaria (leia-se, o mais chique e novinho e bonitinho com quartos confortáveis) é o hospital mais acolhedor. Hospitais particulares (de plano de saúde), com taxas de 95% de cesáreas, simplesmente NÃO SABEM como tratar um mulher em trabalho de parto, não sabem e não ligam, ela é um incômodo ali fazendo barulho e ocupando leito e não gerando lucro.
       Falta carinho, falta respeito, falta entender como funciona fisiologicamente o trabalho de parto e quais são as reais necessidades daquela mulher. Não, as enfermeiras não entendem, os médicos não entendem, estão congelados pelo protocolo, pelo descaso. Ali você é só mais uma, você não é alguém. E pra piorar não seguem recomendações básicas (baseadas na ciência) de como atender uma parturiente e um recém nascido, separam mãe e bebê e submetem ambos a estresse desnecessário e estragam um dia que era para ser tão especial. Precisamos de mais humanidade, de mais empatia.
       Esse relato dói, dói por ser tão frequente, tão real. O descaso com as emoções alheias, a objetificação do corpo alheio.




Relato do meu parto no Santa Joana- SP 02/09/13

     Aqui vou escrever como meu sonho de parto normal foi destruído pela maternidade Santa Joana. Durante a gestação do Felipe, fui atrás de informação e descobri o grande mercado lucrativo das cesáreas... as desculpas dadas para que o GO faça e as desvantagens e riscos de uma cesárea eletiva. Eu e meu marido optamos pelo parto normal, queria que o Felipe viesse ao mundo da forma mais natural possível, com bastante amor, vindo direto para os meus braços e meu peito para se aconchegar e mamar. 

     Comecei a sentir as contrações e cólicas no domingo, dia 01/09 pelas 06h da manhã. Imaginei que estava chegando a hora mas segui meu dia normalmente. Fui almoçar na casa dos sogros, ao mercado, recebi minhas amigas no fim do dia mas, nesse momento, já estava com contrações mais doloridas e a cada 20 minutos. De noite assisti ao fantástico e resolvi tomar banho para relaxar... Por volta das 23h já estava com contrações a cada 8 min e bem doloridas. Foi então que depois de um tempo ainda, resolvi ir para a casa de parto do Sapopemba. Deixo claro que as minhas contrações estavam totalmente suportáveis e estava totalmente preparada para o meu parto normal. 

      Na casa de parto do Sapopemba, por um erro (um triste e terrível erro) da obstetriz, ela achou que havia mecônio e me negou a permanência e o consequentemente o parto lá... fui mandada embora. Neste momento minhas contrações já estavam a cada 5 minutos e acho que o medo do meu plano B dar errado fez com que ficasse mais doloridas. O plano B era ter o meu parto normal no Santa Joana com o meu marido ao meu lado a cada instante. Como tinha medo da minha GO não respeitar a minha vontade do parto normal, queria tentar conversar com o obstetra de plantão para ele fazer. 

      Chegando no Santa Joana, fui colocada numa cadeira de rodas e levada para uma sala, mandaram meu marido esperar do lado de fora. Já não gostei disso... como estava no meio de uma contração não consegui falar. Por estar com dor, gemi baixo tentando me concentrar, nisso uma enfermeira que estava no outro extremo da sala pergunta alto: “você está com dor??”, ignorei e ela perguntou de novo, respondi “não, estou com cócegas!”. Fiquei irritada, numa maternidade, a enfermeira não consegue perceber que estou com contrações? Porque não veio até mim e perguntou, tinha que berrar do outro lado? Quando acabou a contração, falei que não ia ficar ali sem o meu marido, a enfermeira disse que ele não podia ficar ali, o impressionante é que eu estava SOZINHA naquela sala, o porque ele não podia ficar? Disse que não ia ficar sem ele e se ele estava aguardando no corredor, que eu ia aguardar junto e sai andando. Nisso veio outra contração e fiquei de pé abraçada no meu marido. Não sei dizer quanto tempo passou, mas fui chamada para passar pelo médico. 
      Ele perguntou umas coisas e o meu marido respondeu por mim pois não conseguia falar. Me levaram para de trás de um biombo, tirei a roupa e colocaram o avental da maternidade em mim, fizeram exame de toque muito dolorido e viram que eu estava com três dedos de dilatação. O médico perguntou se eu já havia ligado para a minha obstetra, disse que não, que queria o parto normal mas que não precisava ser com ela. Ele perguntou o nome completo dela, informei e pouco depois escutei ele ao telefone falando com ela!! Achei absurdo porque ele não me perguntou se queria que ele ligasse... a minha obstetra não era coberta pelo convenio. O médico entregou uns papeis pro meu marido e esse foi o último momento que o vi.... Fui levada pela enfermeira para outra sala na cadeira de rodas e eu disse que queria esperar meu marido, que não queria me separar dele e ela disse que ele ia apenas fazer minha ficha e que já iria encontrar comigo. Nessa outra sala havia três enfermeiras. Minha contrações, acho que pelo nervosismo estavam mais fortes ainda. Uma enfermeira começou a me fazer umas perguntas, só que por eu estar com contrações não conseguia responder direito... aquilo foi torturante!!! Quando estava numa contração, as enfermeiras me olhavam com desdém, a impressão que tinha era que iam me perguntar “já acabou??”. 
     Parecia que era errado eu estar desse jeito, como se fosse absurdo eu ter ido para lá em trabalho de parto. Quando sai de lá, pedi de novo pelo meu marido, estava sozinha no meio de gente hostil que estavam pouco se importando com a minha dor, me disseram que logo ia ver ele. Fui levada para outra sala e me disseram para aguardar que a enfermeira já vinha. Me deixaram sem meu celular, não tinha como falar com meu marido, não sabia o que estava acontecendo. Na minha cabeça só se passava que eu queria ir para a sala de parto normal, tomar um banho, abraçar o Emerson, poder andar para acelerar o trabalho de parto.... ninguém me deixava em paz, não queria conversar com ninguém daquele hospital mais. E o mais importante, na casa da parto a obstetriz disse ter visto mecônio, ninguém no Santa Joana checou.... Depois de um tempo esperando a enfermeira entrou, de novo as mesmas perguntas... Perguntei sobre a sala de parto normal e ela disse que todas estavam ocupadas. Na hora eu gelei, “como assim?? Madrugada de domingo para segunda no Santa Joana, onde todo mundo faz cesárea e todas as salas de parto normal estão ocupadas?”.... Me levaram para uma outra sala que chama de pré parto, queria andar, me mexer para acelerar o trabalho de parto mas não me deixaram, me colocaram no cardiotoco e a única forma que havia para ficar era deitada, a PIOR posição que há quando se está com contração. Na hora que a enfermeira foi colocar o cardiotoco em mim, ela me virou como se eu não pudesse me mexer e nisso, eu estava no meio de uma contração, ela viu a tatuagem que tenho nas costas. 
     Sem pensar duas vezes ela chamou as outras enfermeiras para ver pois achou bonita... eu deixei? Eu fui consultada se podia? Me senti um objeto nesse momento. Eu fiquei pedindo pelo meu marido, acho que para me calarem elas disseram que ninguém sabia onde ele estava... Como assim não sabiam?? Tinha certeza que ele estava desesperado querendo saber de mim.... durante os últimos meses de gestação falava para ele não me deixar sozinha nenhum minuto durante o trabalho de parto.... no carro indo para a maternidade, eu falei “pelo amor de Deus, não me deixa sozinha”.... duvido que ele estivesse tranquilo. Acho que para elas fingirem que estavam tentando depois de eu muito insistir, elas me pediram o celular dele... eu falei e falei também o celular do meu pai pois meu marido estava com ele. Disseram que ninguém havia atendido.... Uma enfermeira veio fazer um exame de toque em mim.... muito, mas muito dolorido e disse que estava com 4 dedos de dilatação. A impressão que tive era que ela queria que eu desistisse... ela quis mostrar que ia demorar muito. Mas, ainda fiquei ali, aguentando. Nessa sala que eu estava, eu estava sozinha, não havia mais nenhuma mulher em trabalho de parto junto comigo. Depois de um tempo, pelas fortes dores eu comecei a sentir enjoo, acabei vomitando na maca e no chão. Me senti tão mau, as enfermeiras olharam com cara de nojo, fiquei com os olhos cheio de lagrimas por aquela situação em que eu estava... por mais que tivesse vários lugares ali, ela me deixaram onde eu estava, colocaram um pano debaixo de mim, onde havia escorrido o vomito, mas não me mudaram de lugar e ninguém foi limpar, fiquei ali, em cima do meu próprio vomito com aquele cheiro de azedo não sei por quanto tempo. Após um tempo veio uma enfermeira querendo me colocar no soro, disse que não queria, que não precisava e ela foi puxando meu braço, respondi que não queria ocitocina e ela disse que era apenas um soro e foi me injetando. Ela colocou no pulso mas a veia estourou, doeu demais.... ai ela mudou e colocou na dobra do braço. 
     Não tinha mais condições de falar, lutar por algum direito naquele lugar, queria meu marido, precisava de um abraço, não aguentava mais as dores naquele inferno, desisti... pedi pela cesárea. Não sei dizer quanto tempo passou, mas me levaram para centro cirúrgico, uma contração atrás da outra... Ao sair escuto uma enfermeira falando “elas querem o parto normal mas nunca aguentam” e uma risada... Quando entrei lá vi a minha obstetra. Ainda hoje me pergunto o porque ela não foi falar comigo enquanto estava no pré parto?? Ela me convenceu a ter meu filho no Santa Joana, falou super bem de lá, da sala de parto normal, que ia ter a bola para relaxar, poderia tomar banho, teria a banheira e se eu quisesse poderia ter meu filho nela... Não vi nada disso, ainda acho que é lenda pois não fui a única enganada, há outras mulheres. Ela poderia ter ido falar comigo, perguntado se tinha certeza da cesárea... Me deram uma injeção nas costas e as contrações acabaram... Nessa hora comecei a chorar, meu choro aumentou em muito quando colocaram o pano na minha frente e me amarraram, não queria ser amarrada! Meu sonho era ser dona do meu próprio parto, poder me mexer, comer, tomar água... nem água nesse tempo todo me serviram, nem depois que vomitei!! Boca seca, o gosto amargo nesse tempo todo. Quando vi meu marido eu desabei.... ele estava chorando também, já veio me pedindo desculpas, dizendo que não deixavam ele entrar. 
     A sensação de impotência era muito grande. A comprovação maior de que eu não mandava nada ali, foi quando a minha obstetra mandou abrir e olhei pro parto e vi minha família do outro lado de um vidro. Ninguém me perguntou se eu queria que vissem meu parto. Para mim era um momento íntimo entre eu e meu marido, e não um filme para ser assistido pelo outros... me verem aberta e tão fragilizada para mim foi humilhante. Eu sempre disse que ninguém ia ver meu parto, que não queria... Quando meu filho nasceu, tive que pedir para que fosse desamarrada... se não pedisse ninguém ia fazer. Vi meu filho através do colo do meu marido... foi triste, bem diferente de como sonhei... meu bebe foi levado embora e só pude ver ele direito e o segurar mais de 6 (seis) horas depois... tantos meses com meu filho na barriga, horas em trabalho de parto... para demorar tanto para ver meu filho por conveniência do Santa Joana!! Dizem que o bebe tem que ficar num berço aquecido. Ridículo!! Quer lugar mais aquecido e cheio de amor do que o colo do pai ou da mãe?? E depois de ser costurada, ao ser levada da sala, escutei minha médica falando “ainda bem que o trabalho de parto dela não evoluiu, tenho uma cesárea marcada para daqui a pouco”. Perguntei para a médica se havia mecônio e não, estava tudo perfeito....

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Estou Grávida, e agora?!! O 1º Trimestre

O que esperar do primeiro trimestre de gestação?
Que sintomas vão aparecer? Que tipo de cuidados e exames eu preciso fazer?
O que esperar das 12 primeiras semanas de gestação?
Haverão alterações físicas e emocionais?

Com este vídeo tento resumir um pouco algumas questões para facilitar para aquelas que acabaram de se descobrir grávidas. Claro que estou falando em termos gerais, nem todas as mulheres sentem as mesmas coisas.

O primeiro trimestre é marcado por muitas dúvidas e sentimentos ambivalentes (contraditórios-alegria/tristeza). Muitas mulheres sentem-se culpadas de terem esses sentimentos, pensando estarem prejudicando o bebê. Contudo é normal termos dúvidas e preocupação acerca das grandes mudanças que estão ocorrendo (e ocorrerão) em nossas vidas. Ao desconstruirmos essa "maternidade cor de rosa" onde somos pressionadas a virarmos "mães radiantes" assim que nos descobrimos grávidas, sentimos um grande alívio em podermos ser apenas nós mesmas, humanas, com todas nossas peculiaridades, vivendo nossa própria história, nos desconstruindo e reconstruindo ao longo desse processo de transformação que é a gravidez.

Então começamos a nos preocupar com o que temos que fazer, por onde começar. Serão pedidos alguns exames como a tipagem sanguínea, hemograma completo com glicemia de jejum, sorologia para algumas patologias como toxoplasmose, rubeola, HIV e sifilis, um ultrassom para a datação da gestação ou apenas o 1º morfológico (translucência nucal), que verifica dentre outras coisas a existência de síndrome de down: é um exame controverso pois ele não é 100% acurado e pode dar falsos positivos e falsos negativos, então pode ser um estresse a toa (e também o que você faria com aquela informação?)

Muitos sintomas físicos podem aparecer, além dos enjoos e seios doloridos você pode observar outras mudanças ocorrendo no seu corpo.

Espero que esse vídeo ajude a dar um "norte" para quem acabou de se descobrir grávida e está se sentindo um pouco perdida.


(Não achei que os latidos do cão do vizinho fossem ficar tão altos, e percebi tarde demais o vento, peço desculpas.)

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