sábado, 6 de julho de 2013

ESCOLHA SUA EQUIPE! Onde seu obstetra se encaixa?

Aprenda a identificar onde seu obstetra se encaixa (e fuja se for o caso!)

ESCOLHA SUA EQUIPE! (Por Érica de Paula - acupunturista, doula, educadora perinatal e co-autora do documentário "O Renascimento do Parto".)

Ao longo de alguns anos trabalhando com gestantes e partos, aprendi que no mundo dos nascimentos é assim: 

- EXISTE O OBSTETRA CESARISTA 171

Aquele que engana deliberadamente as pacientes com indicações estapafúrdias de cesariana. Esse profissional marca cesáreas eletivas com 40 semanas ou menos porque “não pode correr riscos”. Possui “o dia de operar” (toda segunda feira, por exemplo, que é pro pai ter os 5 dias da licença paternidade emendando com o final de semana) e adoram frases de impacto com nuances de terror psicológico como: “o meu objetivo é te entregar um bebê saudável”. Ele diz que faz parto normal, mas gasta metade da consulta para te convencer que o parto é um evento muito arriscado e o corpo humano é uma bomba prestes a explodir. Ele adora contar casos escabrosos de partos normais, mas omite sua estatística pessoal de intercorrências derivadas de uma cirurgia desnecessária de grande porte (e a quantidade de bebês internados na UTIn que nasceram antes de estarem preparados). As pacientes juram que ele também faz parto normal, porque ouviram dizer que a vizinha da prima chegou com o bebê coroando no hospital e ele não empurrou de volta pra fazer a cesárea. Ou então, sabem que com ele só rolam cesáreas, mas pensa que com ela (paciente de muitos anos) será diferente. Infelizmente, a indicação da desnecesárea provavelmente vai acontecer quando a paciente está com a gestação avançada demais para ter coragem de trocar de obstetra. 


Adicionar legenda

- EXISTE O OBSTETRA ASSUMIDAMENTE CESARISTA

Aquele que fala na lata que não faz parto normal (seja por que não acredita, não gosta ou não ganha o suficiente pra isso) e manda você procurar outro médico caso insista na idéia de "parir como índia".

- EXISTE O OBSTETRA DESATUALIZADO

Aquele que se formou há 2 ou 3 décadas e até hoje não descobriu que o cordão umbilical não é assassino e que episiotomia não protege o períneo coisa nenhuma. Esse coitado acredita de verdade que está fazendo o melhor para a paciente. Ah, eu falei que ele se formou há 3 décadas? Não, existem muitos recém formados nessa categoria também, que em vez de terem o site da Biblioteca Cochrane nos seus favoritos ainda estão se baseando no bom (?) e velho Rezendão pra basear suas práticas.

- EXISTE O OBSTETRA BEM INTENCIONADO

Aquele que até sabe que parto normal é melhor pra mulher e pro bebê, que até "faz" alguns partos normais (não passa de 50% da sua estatística), mas que na prática deixa muito a desejar para mulheres e casais mais empoderados e exigentes. É aquele que fala: “SE estiver tudo bem podemos TENTAR um parto normal” (como se estar tudo bem fosse uma exceção, e não a regra – frase muito comum para os médicos das categorias anteriores também). 


- EXISTE O OBSTETRA "TIPO HUMANIZADO"

Aquele que você podia jurar que é humanizado e altamente radical porque topa alguns parto de cócoras, com doula, às vezes até na água, mas que ainda escorrega em muitos preceitos da humanização, sobretudo no protagonismo da mulher e na Medicina Baseada em Evidências. Por exemplo: não deixa passar de 41 semanas mesmo estando tudo bem e sendo esta a vontade da gestante, interna com poucas horas de bolsa rota, usa muito mais ocitocina sintética ou faz muito mais episiotomias do que deveria, adora fazer um descolamento de membranas ou colocar um “comprimidinho” na vagina para induzir o parto, faz toques excessivos e desnecessários durante a gravidez e o trabalho de parto, manda a mulher prender a respiração e fazer força compriiiiiida, pede um monte de USG desnecessária no final da gestação, diz que a bacia da mulher pode não ser tão boa ou que o bebê está grande demais, etc e tal.

*** Existem os médicos que estão na transição entre a categoria anterior e a próxima ***

- EXISTEM OS OBSTETRAS HUMANIZADOS PRA VALER



Aqueles que realmente acreditam, gostam e bancam o que estão fazendo, estão atualizadíssimos com as evidências científicas mais recentes (e por isso mesmo incentivam que a mulher tenha uma doula), permitem que as gestantes escolham qualquer posição que se sintam confortáveis para parir (nem que pra isso eles tenham que se sentar ou deitar no chão pra pegar o bebê, ou se molhem todos num parto na água) e respeitam o local de parto escolhido pela gestante com gravidez de baixo risco (seja em casa, no hospital ou numa casa de parto). Em geral, esses raros e preciosos profissionais não aceitam fazer cesariana eletiva sem indicação (o que significa que suas taxas de parto normal estão por volta de 80 a 85%), peitando a resistência dos hospitais e o deboche dos colegas médicos, pois seu compromisso é com a mulher, e não com o sistema. Eles informam o casal sobre todos os procedimentos realizados e estão dispostos a extrapolar alguns limites dentro do pressuposto de responsabilidade compartilhada e respeito às escolhas da gestante. Confiam e sabem que a natureza é sábia, que a mulher é poderosa e que o médico só deveria intervir quando necessário. Ou seja, eles possuem a humildade de simplesmente não fazer nada a maior parte do tempo, além de aguardar pacientemente. Para esses, toda a minha admiração e gratidão!


Nesse universo do parto, também existem DOULAS e doulas, PARTEIRAS e parteiras (falo das parteiras formadas e urbanas), PEDIATRAS e pediatras, sem esquecer das parteiras tradicionais (que cuidam de uma parcela específica e significativa da população) e de uma nova categoria que está surgindo agora, que são as parteiras “tipo tradicionais” (!!!). Mas esse é assunto para uma próxima conversa (em breve!).

quinta-feira, 28 de março de 2013

Medicina Baseada em Evidência Científica!!

      Tenho visto muitos profissionais da saúde usarem  a "carteirada" como argumento para perpetuarem más práticas médicas. "Sou médico a 30 anos e sempre fiz isso, não é agora que vou fazer o contrário", diz um... "A 10 anos faço tal procedimento, eu sei o que estou fazendo, quem é você para questionar isso".
     O pior (e mais vergonhoso ainda) é quando vemos estudantes de medicina contradizerem evidências científicas por que seus professores não ensinaram de tal forma. Estudantes de medicina dando "carteirada" ("estudo medicina e quem é você, leiga, pra achar que sabe alguma coisa")  em obstetras experientes e conceituados, como as PhDs Dra. Melania Amorin (obstetra) e Dra. Simone Grilo Diniz (obstetra) e obstetrizes extremamente experientes e atualizadas como Ana Cristina Duarte. Sim, tem estudante de medicina mandando essas pessoas "irem estudar", irem ler o "Rezende" (um livro de obstetrícia super desatualizado da década de 70) ou lerem no PubMed (como se tivessem descoberto o Brasil e o PubMed só tivesse artigos de altíssima qualidade - tem bons e ruins). E claro, as "carteiradas" se estendem aos profissionais não médicos, leigos, mulheres empoderadas etc.. ignorando que qualquer pessoa inteligente capaz de ler um artigo científico e compreender o uso da estatística é capaz de questionar prática arcaicas e congeladas com inteligência!
     Quando, como doula, eu afirmo que procuro seguir a medicina baseada em evidência, e questiono junto às gestantes que estou acompanhando a conduta de certos médicos, estou me referindo às revisões sistemáticas da Biblioteca Cochrane e às recomendações da Organização Mundial de Saúde. Pouco me importa se o médico fofinho e querido disse que vai fazer episiotomia (corte na vagina durante o parto) em você pra proteger o seu períneo, ou se ele disse que não se aguarda  o parto depois de 40 semanas pois é "perigoso" (e outras tantas recomendações absurdas que ouvimos por aí). Eu vou, cara gestante, sempre te incentivar a questionar quando a evidência apontada por estudos científicos é outra!
     Infelizmente nossas faculdades brasileiras seguem desatualizadas, e a grande maioria dos alunos saem de lá como macacos de imitação. Fazem episiotomia (ou qualquer outra intervenção inadequada no parto) por que aprenderam a fazer assim com seus professores, e estes com os seus, e assim por diante! Protocolos decorados e padrões rígidos não questionados, e a qualidade da assistência obstétrica no Brasil segue sua lamentável trajetória!
     Quando uma gestante chega me dizendo "Mas o meu médico disse que..." eu replico "questione!!" Chega de basearmos tudo que fazemos em uma obediência cega de "o meu médico disse que.." e chega de médicos desatualizados que seguem desrespeitando o protagonismo feminino no parto, seguem praticando violência obstétrica travestida de "eu sempre fiz assim e assim que é o certo". Queremos ser atendidas por profissionais atualizados, humanizados, questionadores, antenados com as evidências! E esses profissionais existem! Existem médicos/médicas obstetras humanizados, atualizados! Você não está presa ao seu médico de sempre só porque "ele disse que...", lute pelo seu parto, procure outras opiniões, certifique-se!
     Transcrevo abaixo um explicativo capítulo do livro "Parto Normal ou Cesárea" pra que todos/as possam entender melhor o que queremos dizer com medicina baseada em evidências! Se seu médico não sabe o que é MBE, e está desatualizado em relação as recomendações da OMS, então cara Gestante, corra dele!! Pois com esse aí você não vai parir!



A medicina baseada em evidências
(paginas 10 a 16 do livro "Parto Normal ou Cesárea" de Ana Cristina Duarte e Simone Diniz, editora UNESP)

        Para a maioria de nós, mesmo os profissionais de saúde, o assunto provoca grande susto. Todos aprendemos as nossas práticas profissionais com base na melhor ciência, e as exercemos seguros de seus benefícios.
A medicina Baseada em Evidências (MBE) é um movimento internacional criado na segunda metade da década de 1980 e em poucos anos se estendeu ao mundo inteiro. Nasce do reconhecimento de que boa parte da prática médica não é respaldada por estudos de qualidade sobre a segurança e eficácia dos procedimentos utilizados, quer sejam os medicamentos, os exames, as cirurgias, entre outros. Constatou se que, dependendo da região geográfica onde alguém morasse, a prática médica "correta" poderia ser completante diferente (Enkin, 1996). Por exemplo, em alguns lugares o "certo" era sempre usar fórceps no primeiro parto (ainda é assim em muitos lugares do Brasil), enquanto, em outros países, só se encontravam registros de tal procedimento em museus. 
Verificou-se que a medicina se baseia em muitos tipos de pesquisa tendenciosos (Chamados de viés pelos cientistas) que às vezes favorecem práticas inúteis, arriscadas ou danosas. Com isso, foi organizada uma iniciativa internacional para sistematizar o conhecimento científico "menos tendencioso" a respeito de cada procedimento médico, por especialidade.

Essa iniciativa foi denominada Colaboração Cochrane, em homenagem ao médico britânico Archie Cochrane. Formaram-se dezenas de grupos de pesquisadores e profissionais para avaliar a qualidade das pesquisas em suas áreas, dando prioridade às pesquisas que apresentavam menos vieses, os chamados ensaios clínicos randomizados (Jadad, 1998).
Randomizado significa que as pessoas participantes do estudo são sorteadas para receber ou não o recurso médico (medicamente, exame, cirurgia etc.), o que torna mais fácil verificar se ele é de fato seguro e eficaz. Muitos estudos não-randomizados mostram que é um recurso benéfico apenas porque os pacientes envolvidos na análises estavam, entre outras razões, em condições mais favoráveis de saúde, ou eram mais bem atendidos, ou se cuidavam melhor, e não pelo recurso em si. Quando os pacientes são sorteados pode-se diminuir esse viés. Isso não quer dizer que os pesquisadores eram ou são desonestos  apenas que, em geral, quando pesquisamos, enxergamos mais aquilo que esperamos, o que acreditamos, o que queremos ver.
Quando se lida com muitos ensaios clínicos, em que há um numero muito pequeno de participantes, existe o risco de que o resultado se deva ao acaso (outro tipo de viés) e não ao procedimento estudado. Isso, às vezes, leva a resultados contraditórios sobre a eficácia ou a segurança de um procedimento. Nesses casos, pode-se fazer uma revisão sistemática das diversas análises e realizar um "tratamento estatístico" de seu conjunto, chamado metanálise. Assim, define-se melhor se aquele procedimento é de fato seguro e eficiente, reunindo grande número de pacientes e reduzindo o viés do acaso.
Hoje em dia, em vez de pesquisar em centenas de artigos sobre um recurso médico, é mais adequado começar lendo a revisão sistemática, que sintetiza o conjunto de estudos. 
Mesmo a definição das prioridades - o que escolhemos pesquisar, a pergunta que nos fazemos, e onde investir os recursos de pesquisa - é um tipo de viés. Por exemplo, durante a segunda metade do século XX, em boa parte do mundo ocidental se realizou a EPISIOTOMIA (corte da vulva e da vagina no momento do parto) em praticamente todas as mulheres, pois se acreditava que era benéfíco para mães e bebês. Hoje, sabemos que nunca houve evidência sólida para recomendar tal prática como rotina. Na realidade, a evidência encontrada foi muito desfavorável. Quando os pesquisadores fizeram uma revisão sistemática sobre SE deveriam fazer episiotomia, constataram que os estudos eram centrados sobre o melhor local do corte, o momento de cortar, se o instrumento adequado era o bisturi ou a tesoura, o tipo de fio de sutura, o analgésico mais indicado para a dor que provocava, como combater ou prevenir as infecções da ferida etc. Uma vez que os pesquisadores tinham certeza de que sempre deveriam fazer episiotomia, as pesquisas não colocaram em dúvida a eficácia ou segurança do procedimento (Enkin, 2000). Enquanto isso, centenas de milhões de mulheres tiveram suas vulvas e vaginas cortadas e costuradas no momento da dar à luz, na grande maioria das vezes sem necessidade.
Na área de assistência ao parto, comprovou-se, já na década de 1980, que "a distância entre a prática e as evidências era alarmante". Apesar disso, o ritmo de mudança nas práticas tem sido muito lento, e estima-se que atualmente na América Latina apenas 15% dos procedimentos utilizados sejam baseados em evidências sólidas (CLAP, 2003).
O Grupo da Colaboração Cochrane de Gravidez e Parto foi um dos que primeiro se organizaram e desenvolveram pesquisas acerca do tema, tendo se tornado referência para os demais. Em 1989, o grupo publicou exaustiva revisão dos procedimentos, e, em 1993, um de seus resultados mais importantes foi a publicação da revisão sistemática de cerca de 40.000 estudos sobre 275 práticas de assistência perinatal, classificados quanto à efetividade e à segurança.
Este trabalho de uma década contou com o esforço de mais de 400 pesquisadores (incluindo obstetras, pediatras, enfermeiras, estatísticos, epidemiologistas, cientistas sociais, parteiras e até mesmo mulheres usuárias), que realizaram uma revisão completa de todos os estudos publicados sobre o tema desde 1950, cujo resultado inteiro está a disponível em publicações eletrônicas a partir da segunda metade da década de 1990. Periodicamente é atualizado no site da Colaboração Cochrane.
Em termos de importância, as revisões sistemáticas e metanálises publicadas pela Biblioteca Cochrane são a melhor fonte para evidências. A opinião de 1 médico isoladamente, o relato de 1 caso etc, tem menos valor científico.


Uma síntese desse trabalho foi publicada primeiramente pela Orgnização Mundial da Saúde (OMS) em 1996, e desde aquele momento conhecida como as "recomendações da OMS" (a lista encontra-se aqui http://alaya77.blogspot.com.br/2012/02/recomendacoes-da-oms-organizacao.html). Uma coletânea bastante completa dessas revisões, em uma versão popular dirigida a profissionais e usuárias, foi organizada pelo pesquisador canadense Murray Enkin e colaboradores. O "Livro do Enkin" tornou-se grande referência para os defensores de um PARTO BASEADO NA EVIDÊNCIA.

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Espero que o trecho desse ótimo livro ajude a demonstrar porque devemos questionar certos protocolos e afirmações (mesmo quando vindas do médico). Um médico atualizado e seguro do que está fazendo não terá problemas em explicar o procedimento e justificar suas indicações. Mas médicos desatualizados podem se esconder atrás de sua figura de autoridade e submeter mulheres a intervenções que elas não precisam. Seja ativa em seu processo gestacional! Estude, questione! E procure um profissional (obstetra, obstetriz, enfermeira obstetra) que seja realmente de confiança! São poucos mas existem!


domingo, 24 de março de 2013

Será que não faz mesmo diferença?! Cesárea x Parto vaginal x Parto Humanizado

Um post no estilo "uma imagem vale mais que mil palavras"
Fiz essas montagens para tentar mostrar a diferença no tratamento com as mães e os bebês.
Enfatizo que a Cesárea é uma cirurgia MARAVILHOSA quando usada para salvar vidas. A cesárea é para emergências, para gestações de alto risco. A Organização Mundial da Saúde preconiza que 15% das mulheres vão precisar de uma cesárea, portanto, é ótimo que ela exista!! Contudo, se sua gestação é de baixo risco, saudável.. não faz muito sentido escolher passar por uma cirurgia ao invés de ter uma experiência transformadora de parto!
Há grandes diferenças, como podem ver, quanto a liberdade de posição/movimentação da mãe, presença do pai apoiando, de familiares. O ambiente em um parto humanizado é muito mais acolhedor, o bebê ao nascer vai direto para o colo da mãe.. tudo isso faz diferença em nossa percepção do parto como algo violento ou prazeroso.
Cesáreas mal indicadas (baseadas em mitos e terrorismo médico) e os partos vaginais Anormais (frankenstein, isto é, cheio de intervenções desnecessárias e desrespeito à integridade física e emocional da mulher) possuem diferenças gritantes em relação à beleza que pode existir em um parto natural humanizado.

Em um parto humanizado a mulher é protagonista! Dela é o parto! Dela é o bebê! Ela decide como fica mais confortável, quem ela quer junto dela, se quer parir de cócoras, na água. Ela confia em sua capacidade, acredita na fisiologia do seu corpo, e junto com seu bebê trabalha ativamente para dar nascimento a ele.
Já nos outros ela é uma expectadora passiva, amarrada a uma maca, presa a perneiras, impedida de se movimentar, cerceada em seus desejos, seu corpo tratado como uma "fábrica", que deve ser aberta, cortada, e remendada, e o bebê é um trófeu a ser exibido, acolhido sem carinho, e levado para longe da mãe.

Esse post não é para quem precisou de fato de uma cesárea bem indicada, esse post não é para aquela mulher vítima do sistema que queria ter um parto normal mas foi aterrorizada por um médico e enganada com um pretexto falso de cesariana (tipo "passou do tempo", "não dilatou", "cordão enrolado no pescoço" e outros motivos estapafúrdios). Esse post não é para fazer quem teve uma cesárea se sentir mal, nem para gerar uma frustração em quem lutou por um atendimento respeitoso mas acabou num parto vaginal mais violento! Não, nós sabemos o quanto é difícil conseguir parir com respeito e dignidade no Brasil! Nós lutamos para que as mulheres tenham cada vez mais acesso a informações de qualidade e um atendimento humanizado!
Esse post é para quem não quer saber, quem fecha os olhos e ri e diz que "tanto faz", "é tudo a mesma coisa". É pra quem prega aos 4 ventos sua cesárea "limpinha e cheirosa" e fala que tem nojinho de parto, que isso é coisa pra índia. É pra quem ignora a diferença no atendimento, no tratamento ao bebê, é pra quem não ta nem aí pra se conscientizar.

Há diferença sim! Ser protagonista ativa do seu parto, em um ambiente acolhedor, aconchegante e respeitoso, é outra coisa!! Poder pegar o próprio bebê e trazer ele para o colo, ser tratada como uma mulher forte, uma mulher inteligente, que sabe o que é melhor para si, sabe que posição quer ficar..  ter liberdade, ter participação, poder estar cercada de pessoas familiares (o pai poder participar, pois no atendimento padrão muitas vezes o pai ainda é barrado, apesar de ser lei, e quando pode entrar é mero espectador), cercada de sorrisos e olhares de incentivo (ao invés de máscaras estéreis que escondem pessoas sem rosto, que fazem aquilo por protocolo, por rotina, te tratando como "a paciente do quarto X"..) Trazer o bebê sem uma luz forte na cara dele o cegando, sem um ar condicionado frio, sem ele ser exibido como um troféu e passado de mãos em mãos, esfregado e submetido a procedimentos desnecessários enquanto a mãe permanece passiva, amarrada a uma maca, como mero produto onde seu bebê é o subproduto...

É muito diferente!! E duvido que alguém ao compreender todas essas diferenças escolha não ser protagonista, escolha não ser ativa, escolha não estar em um ambiente aconchegante e respeitoso (e o parto humanizado pode ocorrer tanto em casa quanto no hospital, o importante é a equipe!) . A "escolha" da cesárea em nossa sociedade é uma grande falácia, é uma mentira baseada em terrorismo psicológico e falta de apoio real e acesso a informação de verdade.
Havendo possibilidade de escolha (isto é, se sua gestação não indica um motivo real para a necessidade de uma cesárea), por que não escolher um nascimento mais humano?! Não é "tanto faz", é muito diferente; Ser tratada com carinho, e receber o bebê com amor, com calor humano, isso é nascer sorrindo!













































quarta-feira, 20 de março de 2013

Meu bebê é grande, mas eu sou um mulherão!



Bebê grande não é indicação de cesariana.Quer dizer então que a natureza preparou um bebê dentro do útero de uma mãe que não tem como sair? Mais ou menos como um marceneiro montar um armário dentro da oficina que não tem como sair pela porta? Bom, o marceneiro burro pode até perder o armário, paciência. Mas a natureza não é burra, e não tem caché energético para bancar bebês que são feitos por 9 meses e depois não podem sair, matando a si mesmos e às suas mães.

Na natureza, nos últimos 100 mil anos, cada vez que uma mutação genética fazia um bebê ser gigantesco para sua mãe, o que acontecia era o óbito de ambos. Esses genes malucos de bebês gigantes jamais puderam se reproduzir e perpetuar em nossa espécie. O tamanho dos nossos bebês não é fruto do acaso, do sorteio. Ele foi moldado pela seleção natural ao lonto desse longo período. Curiosamente nos últimos 40 anos, que é aproximadamente a idade da indústria da cesárea no Brasil, começaram a pipocar os incontáveis casos de bebês que não podem nascer por serem enormes.



Vamos aos fatos:

1) Não há como saber o peso dos bebês no útero. A ultrassonografia é uma tecnologia absolutamente inapropriada para cálculo de peso. Aparelho de ultrassom transforma onda sonora em imagem, e a imagem é medida por um computador, que joga tudo numa tabela internacional e dá um peso estimado. Não é de se surpreender que o erro chegue a 20% e que albuns bebês nasçam com até 1 kg de diferença entre o estimado e o real.

2) A bacia das mulheres têm flexibilidade através de seus ligamentos, que é aumentada pela relaxina, um hormônio que tem níveis elevados durante a gestação. A bacia interna (que é por onde o bebê passa) não tem como ser medida com precisão. Tamanho de nádega materna não é tamanho de bacia. Uma mulher pode ter um bumbum bem grande (como essa que vos escreve) e uma bacia pequena internamente (não é o meu caso). Outra pode ser magérrima, tipo Gisele Bundchen com fome, e ter uma bacia interna muito grande.

3) Os ossos da cabeça do bebê são soldos (a famosa "moleira" é justamente um dos espaços entre esses ossos). Durante o trajeto do canal de parto, os ossos se sobrepõem, formando um cone. Quando o bebê nasce, sua cabeça tem quase o formato de um ovo. Em poucas horas esse cone se desfaz e a cabeça fica redonda. Por isso também, as medidas do crânio do bebê calculadas pelo ultrassonografista não servem para absolutamente nada. Só servem para diagnosticar possíveis patologias fetais e predizer problemas de saúde do recém nascido. Essas medidas podem até ser úteis a um neonatologista, mas nunca a um obstetra.

4) Existe a possibilidade do bebê adentrar a bacia pélvica de forma inadequada e não passar. É a chamada desproporção céfalo-pélvica (DCP). Esses são os bebês que poderiam morrer se não fosse pela cesariana. Porém o único modo de de diagnosticar uma desproporção é aguardando a mulher entrar em trabalho de parto, aguardando toda a dilatação do colo do útero (total, ou praticamente total), aguardar algumas horas (por volta de quatro ou mais, se o bebê estiver bem), sem que ele desça pelo canal de parto. Ainda assim é importante se tentar pelo menos uma analgesia por algumas horas antes de se decidir por uma cesariana por DCP.

5) Já assisti desproporção em bebês de 2500g e já vi bebês de 4700g nascerem em partos muito rápidos. Em outras palavras, o peso não tem NADA A VER com passar ou não passar. Já vi mulher de 1,80m ter desproporção e mulher de 1,40m ter parto muito rápido e fácil. Em outras palavras, tamanho de mulher não tem NADA A VER com passar ou não passar. O tamanho do marido também não tem qualquer importância nessa equação.

6) A altura uterina não tem qualquer utilidade para se determinar se um bebê vai passar ou não, pois ela depende de muitos outros fatores que não o peso do bebê.7) Bebês grandes não tem maiores chances de "rasgar" os tecidos da mulher durante seu nascimento. O risco de laceração ocorre principalmente pelas intervenções (ocitocina, Valsalva, litotomia, Kristeler) e pela velocidade da saída do bebê. Técnicas de preparação do períneo durante a gestação têm sido promissoras no sentido de evitar lacerações de períneo e devem ser empregadas não importa o tamanho estimado do bebê.

8) Distócia de ombros, quando o ombro fica preso depois do nascimento da cabeça do bebê, é um evento muito raro, que fica um pouco mais provável com o uso de manobras como o fórceps e kristeler.  Mais da metade dos raros casos de distócia acontece em bebês que não são considerados grandes. Seriam necessárias mais de 300 cirurgias cesarianas em gestações de bebês supostamente grandes, para evitar um único caso de distócia de ombros. Essas 300 cirurgias certamente fariam muito mais mal a essas 300 mães e 300 bebês do que as consequências em geral passageiras de uma distócia de ombros.

9) Tamanho de vagina não tem nada a ver com essa questão. Se a mulher tiver algum problema nesse sentido, pode até solicitar a possibilidade de uma analgesia para o final do parto, para não sentir a passagem do bebê, caso entre em pânico durante o período expulsivo. De toda forma, a vagina é composta por tecidos musculares, que são muito flexíveis. A DCP se refere aos ossos da pelve materna, e não aos tecidos moles.

10) Não existe bebê tão grande que pode "entalar". O ponto mais estreito da bacia é uma linha imaginária que passa pelas duas espinhas isquiaticas. Ou o bebê passa ou ele não passa por esse ponto. Se o bebê não passar pela linha, ele nasce por cima. Se passar, nasce por baixo. Não existe um "purgatório" na bacia, de onde a criança jamais poderá sair. Sempre dá para nascer, por baixo ou por cima.

Em resumo, eu considero prática de má fé qualquer indicação de cesariana baseada em medidas, seja de altura uterina, tamanho de cabeça, peso calculado pelo ultrassom, medida da bacia por raio X, tamanho do bumbum, número de calçado ou tamanho dos ombros do marido estivador.

E o cordão enrolado no pescoço?!!

Circular de cordão? Veja aqui! Textos informativos escritos por quem entende do assunto! E vídeos de partos em que os bebês nasceram com 1, 2, 5 circulares de cordão!!

Me amarrei no seu cordão! - por Ana Cristina Duarte (obstetriz)
texto original no facebook https://www.facebook.com/notes/ana-cristina-duarte/me-amarrei-no-seu-cord%C3%A3o/498390133543170

Poucas coisas causam mais terror no imaginário do brasileiro do que o cordão umbilical. Enquanto em outros países as mulheres e médicos nem pensem no assunto, no Brasil esse é o maior hit nas paradas jornalísticas, midiáticas e pseudo-médicas. Quem nunca ouviu essa frase:
- Daí o médico fez a cesárea e o bebê tinha duas circulares no pescoço, e ele disse "ainda bem que foi cesárea, pois se fosse parto normal seu bebê teria morrido". 
Que lorota feia, doutor!
Ou a outra não menos clássica:
- Meu médico é super a favor do parto normal, mas ele não arrisca. Se tiver algum exame que mostre alguma coisa errada, cordão enrolado no pescoço, por exemplo, ele opera.

O cordão umbilical pode medir desde alguns poucos centímetros (é isso mesmo, não existe "cordão curto") até quase 1 metro de comprimento e está sempre enrolado em alguma(s) parte(s) do bebê. Falar em circular de cordão é quase redundância. Como assim um cordão sem circular, num espaço exíguo, com um bebê em constante movimento? Não faz nem sentido. Os bebês interagem com o cordão, seguram, soltam, mexem. Enrolam-se, passam por dentro, fazem nós e voltas. Macramê do bebê. Ele é preenchido por uma substância gelatinosa que dá volume e protege os vasos sanguíneos internos.

Acidentes verdadeiros de cordão são situações raríssimas, que podem ocorrer durante a gravidez, por exemplo quando o bebê faz um nó verdadeiro e estica o cordão com seus movimentos, interrompmento assim o fluxo sanguíneo que o mantém. Porém esses eventos são mais raros do que um gêmeo surpresa na hora do parto, um acidente importante de trânsito, é um tipo de loteria ao contrário que atinge 1 a cada 5 mil gestações. Se isso fosse algo de fato constante em nossa espécie, os bebês não se mexeriam loucamente no útero, interagindo com um cordão de 80 cm de comprimento. Se acidentes de cordão fossem algo fácil de ocorrer, nossos cordões teriam 20 cm, e nossos bebês ficariam quietos numa só posição. A natureza teria cuidado de selecionar essas características.

O famoso prolapso de cordão - quando o mesmo desce pelo colo do útero e vagina antes da cabeça do bebê, interrompendo fatalmente o fluxo de sangue - é um evento igualmente raro, que ocorre principalmente quando o profissional de saúde rompe a bolsa artificialmente, e já há dilatação do colo do útero porém o bebê está alto. É nessa hora que o cordão pode vir com o líquido. Se não provocarmos a catástrofe artificialmente, na natureza ela é ainda mais rara.

As circulares de cordão no pescoço do bebê não representam risco adicional no parto, porque o bebê se movimenta muito menos no final da gestação e já não faz voltas incríveis e absurdas. O cordão sempre está enrolado no braço, no tronco, no pescoço. Uma grande vantagem da circular no pescoço é que o cordão não tem como descer abaixo da cabeça do bebê. Alguns chegam a ter até três ou quatro circulares, os babalorixás intrauterinos. Cerca de um terço dos bebês nascerá com pelo menos uma volta de cordão umbilical ao redor do pescoço.

Durante o trabalho de parto o útero contrai e empurra o bebê pelo canal de parto e conforme ele desce, o útero todo desce junto, inclusive placenta e cordão. Não há um aumento de tensão no cordão durante o parto. Tudo vem junto. A grande descida final acontece quando a cabeça do bebê finalmente sai de dentro de sua mãe, mas nesse momento é possível inclusive cortar o cordão, se for necessário. Em dez anos de prática, nunca fiz, nem nunca vi um(a) colega cortar um cordão nesse momento. Se o cordão chegou até ali, dá para o bebê nascer.

O mito do cordão que segura o bebê e que não permita que ele desça no canal de parto é outro que precisamos desafazer. O cordão não tem força para segurar um bebê que desce através da bacia pélvica. Se assim fosse, cedo ou tarde um cordão se romperia com o bebê ainda no meio do caminho e isso não existe. Como foi dito, o cordão está descendo junto com o bebê. O problema é que muitos profissionais de saúde incrivelmente não sabem que o trabalho de parto é caracterizado por esse vai e vem do bebê. Contração vem, bebê desce, contração vai, bebê sobe. Cada vez ele desce mais um pouquinho.

No momento em que o bebê nasce, o útero desce quase até a altura do umbigo, com a placenta colada e acompanhando o movimento de descida. ou seja, tudo vem junto, não se trata de um bebê bungee jumping. Em nível de curiosidade, sabia que o Brasil é um dos únicos países do mundo em que aparece "circular cervical de cordão" no laudo da ultrassonografia? Será que é por acaso que estamos com 52% de cesarianas?

Hoje em dia, entre as parteiras profissionais, já se discute inclusive a necessidade de se sentir se há ou não circular de cordão no momento em que a cabeça sai, e se há qualquer necessidade de se retirar essas alças por cima da cabeça. Pessoalmente penso que não e cada vez intervenho menos. Se a cabeça saiu, o resto vai sair por si só. Deixemos as mulheres e os bebês em paz, eles sabem o que estão fazendo. O monitoramento pode ser feito acessando batimentos, cor e aspecto do bebê.




Depois que o bebê nasce, o cordão não deve ser cortado antes de parar de pulsar. O sangue que está lá dentro pertence ao bebê. Aquele sangue é cheio de células T e hemoglobina, sendo muito importante para o primeiro ano de vida. O ideal é que deixemos esses cordões ligados o quanto for necessário. Podemos deixar até a placenta sair, se for o caso. Não há pressa em se cortar o cordão. O bebê não perde sangue por ali, ele só ganha. Em partos emergenciais a ordem é: não mexa no cordão. Tem até alguns grupos que deixam o bebê ligado no cordão (e portanto na placenta) durante horas e alguns durante dias. Cortar o cordão é apenas um ritual, não importa quando e como o façamos, desde que esperemos que ele pare de funcionar e passar sangue para o bebê.

Cordões umbilicais são fortes, são protegidos e protegem o bebê. Confiemos um pouco mais na natureza, que vem há cem mil anos filtrando os ajustes, montando um processo de parto que seja o mais seguro possível.





E pra quebrar ainda mais esse mito, segue um vídeo de uma mulher que teve um bebê que nasceu com 5 voltas do cordão no pescoço! CINCO!!! Cordão não enforca, cordão não impede o bebê de descer. 



Não importa se é 1, 3, 5 circulares de cordão, isso NÃO é justificativa pra uma cesárea!

Outro vídeo que o bebê nasce com 1 circular de cordão:



Vídeo com 2 circulares de cordão:




Vídeo de parto com 1 circular de cordão:


Outro vídeo com 2 voltas no pescoço


  • E se os vídeos não convencerem ainda, segue um texto do médico obstetra Ricardo Jones
Dr. Ricardo Herbert Jones:

"Minha experiência com circulares de cordão é razoável. Muitas pacientes me procuravam com medo de uma cesariana porque o seu médico falava que o cordão esta enrolado no pescoço, portanto uma cesariana era mandatária, sob pena do nenê entrar em sofrimento.

Circulares de cordão são banalidades na nossa espécie. Um número muito grande de crianças nasce assim. Eu tinha a informação que a incidência era de 30%, mas talvez seja um número antigo ou inadequado. De qualquer sorte, uma quantia considerável de crianças vem ao mundo desta forma. Já tive partos com 3 voltas bem firmes no pescoço, e com apgar 9/10.

É engraçado ver a expressão das pacientes quando conto pra elas que o que me preocupa não é o pescoço, mas o cordão. O fato do pescoço estar sendo pressionado é pouco importante se comparado com a compressão do cordão. A fantasia da imensa maioria das mulheres (mas também dos homens) é que a criança está se ""enforcando"" no cordão. Elas ficam surpresas quando explico que o bebê não está respirando, então porque o medo da asfixia? Acontece que existe espaço suficiente para o sangue transitar pela estrutura do cordão, protegida pela geléia de Warthon que o recobre, mesmo com voltas em torno do pescocinho. Além disso, se houver uma diminuição na taxa de passagem de oxigênio pelo cordão isso será percebido pela avaliação intermitente durante o trabalho de parto (e não antes). E esse evento NUNCA é abrupto. DIPs de cordão, como os chamamos, ficam dando avisos durante horas, e são diminuições fortes apenas durante as contrações, com o retorno para um batimento normal logo após. Marcar uma cesariana por um cordão enrolado no pescoço é um erro.

Sei como é simples e fácil apavorar uma mãe fragilizada contando histórias macabras a esse respeito, mas a verdade é que não se justifica nenhuma conduta intervencionista em virtude deste achado. Por outro lado, a presença deste diagnóstico tão disseminado nos consultórios e nas conversas entre pacientes nos chama a atenção porque, se não é um problema médico, é uma questão sociológica.

Esse exame parece funcionar como um acordo subliminar entre dois personagens escondidos no inconsciente dos participantes da trama, médico e paciente.

De um lado temos uma paciente amedrontada, desempoderada diante de uma tarefa que parece ser muito maior do que ela. Acredita piamente no que o ""representante do patriarcado" lhe diz. Não retruca, não critica; sequer pergunta. Nada sabe, mas precisa do auxílio daquele que detém um saber fundamental aos seus olhos. Diante das incertezas, da culpa, do medo e da angústia ela se entrega, aliena-se. Fecha os olhos e coloca o "anel", que faz com que ela mesma desapareça, entregando-se docilmente aos desígnios dos que detém o poder sobre seu destino. Oferece seu corpo para que dele se faça o que for necessário.

Na outra ponta está o médico. Sofre em silêncio a dor da sua incapacidade. Pensa baixinho para que ninguém leia seus pensamentos. Sabe que pouco sabe, mas também tem plena noção do valor cultural que desempenha. Nada entende do milagre do nascimento, mas percebe seus rituais, muitas vezes ridículos, outras vezes absurdos e perigosos, produzem uma espécie de tranquilização nas mulheres. Não se encoraja a parar de encenar, porque teme que não lhe entendam. Continua então repetindo mentiras, esperando que não descubram o quão falsas e frágeis elas são. É muitas vezes tomado pelo ""pânico consciencial"", que é o medo diante de uma tomada de consciência.Muitas vezes age como um sacerdote primitivo que, por uma iluminação divina ou por conhecimento adquirido, percebeu que suas rezas e ritos de nada influenciam as colheitas, e que o que governa estes fenômenos está muito além de suas capacidades. Entretanto, sabe que os nativos precisam dos rituais, que ele percebe agora como inúteis, porque assim se dissemina a confiança e a esperança. Mente, mas de uma forma tão brilhante, sofisticada e tecnológica, que deveras acredita no engodo que produz.

Ambos, mulher e médico, precisam aliviar suas angústias diante de algo poderoso, imprevisível e incontrolável. Olham-se e tramam o golpe.

O plano que deixará ambos aliviados diante do enfrentamento. Mentem-se com os olhos. Eu finjo saber; você finge acreditar. Peço os exames. Todos. E mais um pouco. Procuro até encontrar aquilo que nos fornecerá a chave. A minúscula desculpa. Eu, com ela nas mãos, posso realizar os rituais que me desafogam da necessidade de suportar a angústia de olhar e nada fazer. Você, poderá escapar da dor de aguardar e fazer o trabalho por si. Poderá dizer que ""tentou"", mas, foi melhor assim. O nenê poderia correr perigo. O cordão poderia deixar meu filho com problemas mentais, etc.

Feito. Pedido o exame, lá estava: O cordão, mas poderia ser o líquido, a posição, a placenta, a ossatura, as parafusetas protodiastólicas. Quem se importa? O carneiro, a virgem, o milho, todos são sacrificados. Quem se importa? Livramo-nos da dor. Anestesiamos nossas fragilidades e angústias. Ritualizamos, encenamos e todos acreditam.

Nem todos! Alguns acordam, mesmo que leve muito, muito tempo."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um bebê saudável não é a única coisa que importa

Esse texto foi traduzido pela Clarissa Oliveira e postado em http://amaequequeroser.wordpress.com/2013/02/10/um-bebe-saudavel-nao-e-o-bastante/

Achei-o tão bom que não resisti em registra-lo aqui também. Uma saudável reflexão sobre o viver!
Reproduzo as palavras da Clarissa, com as quais concordo:
"Venho sofrendo com uma questão que se tornou dolorosamente pessoal para mim: por que tantas mulheres, tantas amigas, aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir, desistem de lutar contra o sistema e se tornam mais uma contribuinte à vergonhosa estatística de parto do nosso país?
Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (se bem que as masoquistas estão na moda, né? :-P). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.
Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência  diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.
E é por isso que quero compartilhar esse texto maravilhoso com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu."

Um bebê saudável não é a única coisa que importa - por Cristen Pascucci
Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é a única coisa que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.
A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.
Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.
O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.
Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?
É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de  respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.
Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.
Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.
Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”
Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.
Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Porque você provavelmente vai acabar numa cesariana [com seu médico de convênio]

Pela Obstetriz Ana Cristina Duarte
https://www.facebook.com/notes/ana-cristina-duarte/porque-voc%C3%AA-provavelmente-vai-acabar-numa-cesariana/481841398531377



Querida Amiga: saber da sua gravidez só me trouxe alegrias. Na verdade muitas alegrias e uma preocupação. Um dia o bebê vai nascer e eu temo pela qualidade desse nascimento, em tudo o que não depende de você e de sua vontade. Por isso eu queria aqui te contar porque é que você dificilmente escapará de uma cesarianam, ainda que deseje ardentemente um parto natural/normal.

Bola de cristal? Imagina, você que pensa! Curso básico de estatística, terceiro ano colegial, lembra?

Primeiro vamos aos fatos. - A imensa maioria dos hospitais privados em nosso estado, em nossa cidade, têm por volta de 90 a 95% de cesarianas.- Tem três pesquisas científicas muito bacanas mostrando que 70% das mulheres querem parto normal. - E temos a Organização Mundial da Saúde dizendo que apenas 15% das mulheres precisam de cesárea.

Em algum momento, entre o começo do pré natal e o parto, as mulheres acabam na cesárea, não precisando e não desejando.

Por outro lado, vamos ao plano de saúde.

- Um médico de plano ganha por volta de 300 a 500 reais para realizar um parto.
- Supondo que ele esteja de plantão no dia e tenha que chamar um substituto para cobrir o plantão, ele vai pagar R$ 600 a R$ 800 para o substituto. Então ele já perdeu uns 200 a 500 reais para te atender.
- Se ele deixar de atender 6 horas de consultório por sua causa, são por volta de 20 consultas de 40 reais, assim por baixo. R$ 800 de prejuízo, no mínimo. 
- Se ele tiver que pegar a estrada, pagar pedágio e chamar uma babá para dar conta das crianças, são R$ 300 reais. 
- Portanto o fato é que parto normal, para os médicos de convênio, representa um prejuízo financeiro enorme.

E por fim, vamos à terceira questão. Eu chamo isso de "Fator Varella". Disse Drauzio Varella certa vez em entrevista à Revista Claudia:- Parto normal é muito chato. É muito mais fácil botar a mulher na maca e "Pumba!" fazer uma cesárea.
O fato é que muitos obstetras não querem mais atender partos normais. Fizeram tantas cesarianas que perderam a paciência e a mão. Sem essa vivência diária do parto normal, perde a capacidade de achar soluções e operam como solução para qualquer problema. Assim, acham que passar de 40 semanas, bebê grande, bebê de costas, bebê alto, tudo é indicação de cesariana. E a maioria das obstetras optou por cesáreas, para si e para suas parentes. Idem para os obstetras homens, em relação à suas mulheres. Portanto é claro que não irão fazer para você algo que consideram "pior" ou "mais arriscado".

Às vezes o médico tem um discurso maravilhoso, e até acho que pode ter boa fé. Mas no fim, com a barriga crescendo, a pressão do convênio, da rotina, da vida doméstica, e o imenso prejuízo financeiro que ele certamente vai levar atendendo seu parto, tudo isso vai fazer com que ele não tenha outra saída a não ser pedir um ultrasom com 37 semanas e descartar seu parto porque o bebê está grande/pequeno, você está gorda/magra, o líquido ficou muito/pouco, etc.. E sua cesárea será marcada, junto com outras 2 ou 3 clientes, para facilitar a vida nada fácil que ele leva.

Eu não acho que seja sacanagem dele. Acho que ele é apenas mais um elo enferrujado de uma corrente que não nos serve mais. Não tenho soluções fáceis para você, nem sequer garantias. Só queria que você entendesse que a sua vontade, frente a essa imensa engrenagem que são os planos de saúde, os hospitais particulares, os médicos cansados e sobrecarregados, não vai representar muito, na hora da decisão. A nossa vontade fica tão menor do que tudo isso, que ela não consegue fazer a roda da engrenagem girar no sentido contrário.

Seria preciso muito mais do que desejo. Se quiser qualquer ajuda para achar as saídas, as rachaduras do sistema, me fala, que eu vou gostar muito de te ajudar. E se decidir marcar sua cesárea, faça-o sem o famigerado sentimento de culpa, que em nada nos ajuda. Entenda os riscos, minimize-os o tanto quanto seja possível, e pronto.

A maternidade não se resume ao parto, nem é definida pelo parto, assim como um casamento não se resume à cerimônia, nem por ela é definido. Eles são os portais, e como tal, tem sua importância. O que se perde num nascimento de qualidade, nós podemos recuperar ao longo da vida. Cada um de nós sabe até onde consegue ir, quais leões gostaria de matar por um nascimento suave, respeitoso, delicado, amoroso, silencioso.

Vá até onde você deseja e saiba que estou ao seu lado, sempre.

Um abraço forte!


E PARA COMPLEMENTAR A POSTAGEM DA OBSTETRIZ ANA CRISTINA DUARTE, SEGUE O TEXTO DA OBSTETRA CARLA POLIDO:

Você tem convênio? Você só tem 10% de chance de ter um parto vaginal, no Brasil.

21 de março de 2013 às 22:05
Você, mulher, que tem plano de saúde e quer parto normal. Você acha que vai conseguir driblar o médico que diz que "se der tudo certo, seu parto vai ser normal"...Você sabe que pouco mais de 10% das mulheres iguais a você vão ter parto vaginal? E que esse parto muitas vezes não será no modelo recomendado de atenção?

O que me dói é ouvir o mesmo discurso sempre, da boca de diferentes mulheres. Nós torcemos MUITO por seu parto. Nós SABEMOS que você é capaz de parir. Mas ao longo dos anos na militância, nós também conhecemos a violência do sistema, e conversamos com centenas de mulheres com um discurso exatamente igual ao seu. Que com elas seria diferente.

Isso não tem a ver com você, com sua vida, com seus problemas, com suas fortalezas e fraquezas. Tem a ver com os profissionais e as instituições de saúde. Na assistência clássica, a perspectiva do cuidado é a do cuidador, gestante e criança são coadjuvantes....os médicos e os enfermeiros obstetras são os protagonistas.

A sua fala de "meu médico é bonzinho e disse que vai me respeitar" revela o quanto você ainda está inocente, o quanto você ainda não entendeu a violência com que o modelo de nascimento engole as mulheres no Brasil. É nesse ponto que queremos te ajudar. Não podemos passar a mão em sua cabeça e dizer: "vai, querida, vai dar tudo certo". E se você ficou "incomodada" com o que estamos dizendo, provavelmente já começou a enxergar a verdade, mas ainda luta contra essa lógica cruel.

Nós queremos que você consiga parir, ninguém está torcendo contra. E sim, algumas mulheres conseguem parir no meio de um atendimento desqualificado, em meio a todo um contexto desfavorável...em posição ginecológica, com pernas no estribo, com luzes fortes, com pessoas ou gritando comandos ou conversando outros assuntos, sob pressão fúndica externa (Kristeller), com episiotomia. Você será separada de seu filho, tratada como incapaz, julgada por sua vocalização. Esse modelo ultrapassado é a regra, não a exceção. Assim, uma mulher vai parir com sofrimento e com mutilação física e emocional.

Prepare-se para seu parto, mas escolha seu time de apoio, incluindo o parteiro. Conheça a realidade do obstetra, descubra suas taxas de cesariana, saiba como é seu atendimento ao parto vaginal. Grande parte das mulheres, inclusive as que são profissionais, passou por uma experiência traumática no próprio parto, antes de perceber que poderia ter feito escolhas diferentes. Pense nisso.

fonte: https://www.facebook.com/notes/carla-andreucci-polido/voc%C3%AA-tem-conv%C3%AAnio-voc%C3%AA-s%C3%B3-tem-10-de-chance-de-ter-um-parto-vaginal-no-brasil/3922183272670
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